O tempo escorre pelas mãos: o retorno de saturno

O tempo escorre pelas mãos.

É como se eu me sentisse velho, feio, cansado, querendo entregar os pontos, reclamar até o último suspiro sobre as coisas da vida. Eu sei, não tenho mais o brilho dos 20 e poucos anos. Já estou nos 20 e tantos anos. Tudo pesa: as escolhas, a pele, a vida que deixei pra trás, as promessas… Esse é o retorno de saturno.

Agora é um divisor. Pra saber se você descobriu o que se tornou. É olhar para o espelho e não ter mais como fugir, sem meios adjetivos ou meias verdades.

Esse é o primeiro dia do resto da minha vida.

 

Anúncios

Depende de quem está esperando você do outro lado.

Elizabeth: Por que você quer mantê-los? Você deve apenas jogá-los fora.
Jeremy: Não. Não, eu não poderia fazer isso.
Elizabeth: Por que não?
Jeremy: Se eu jogasse essas teclas longe, então as portas seriam fechadas para sempre e o que não deve ser, cabe a mim decidir… Pode isso?
Elizabeth: Eu acho que eu estou apenas procurando uma razão.
Jeremy: Das minhas observações, às vezes é melhor não saber, e outras vezes não há nenhuma razão para ser encontrado.
Elizabeth: Tudo tem uma razão.
Jeremy: Hmm.. É como essas tortas e bolos. No final de cada noite, o bolo de queijo e a torta de maçã vão sempre desaparecer. Veja agora: A torta de pêssego e o bolo de mousse de chocolate estão quase a terminar… mas sempre há uma torta de blueberry intocada!

Elizabeth: Então, o que há de errado com a torta de blueberry?
Jeremy: Não há nada de errado com ela, só que as pessoas fazem outras escolhas. Você não pode culpar a torta, é só… ninguém quer isso.
Elizabeth: Espere! Eu quero um pedaço.

(My Blueberry Nights  – filme)

It wasn’t so hard to cross that street after all. It all depends on who’s waiting for you on the other side.

Ainda não parece ser inverno.

Quando foi a última vez que a caminhada não pareceu dolorida e difícil? Existem coisas piores do que a falta de liberdade: não encontrar perspectivas – mesmo que insistentemente, de tanta teimosia. Elas são atenuadas quando escolhas do passado se tornaram tão rígidas, mas tão rígidas, que se parecem com preconceitos: é praticamente impossível quebrar. Mudar ou “buscar o novo” (como as promessas em festas de colação de grau para ser devoto do novo) se torna tão inatingível. A gente vai pra batalha. Trava uma guerra interna todos os dias. São ações de proporções que o outro não pode imaginar. Este é um esforço para viver, ser visto e revisto.

(O inverno chega de mansinho. A pele tenta se adequar mais uma vez. É desidratada com a água quente, onde se evapora também os sonhos mais secretos. Que paradoxo! É tempo da fé hibernar. De limpar a sujeira da alma com cuidado. Não de clarear. Só permear a certeza de que amanhã a primavera vai renovar tudo; curar cicatrizes e ensinar que a paciência é a principal moeda de troca para a vida.)

 

 

 

Brevíssima rápida descrição de Varginha

É assim: lá pelos 300 km de Belo Horizonte e 300 km de São Paulo, está uma cidade que tem um quê ufológico na memória histórica do brasileiro. Mas na minha (…) não é só isso. Minha história se cruza com a dela quando logo na entrada – e no fim da estrada que me traz – o cheiro de café torrado me recebe e me transporta para a infância. Tem gente que fala com sotaque diferente do meu: e fico a admirar. E que, por mais que tente, nunca vou conseguir imitar com exatidão. Aqui, cabe admiração.

Ter saído do ninho.

Ter saído do ninho me fez compreender algumas coisas: é possível, sim, se sentir em casa, num mesmo dia, em muitos quilômetros de estrada. Sim, é possível tomar café da manhã em Itabira, terra de Drummond e perceber que no meu sangue também corre minério; almoçar com a família em Belo Horizonte por volta do meio dia e reafirmar minha paixão pela Serra do Curral que protege toda essa gente – e por essa cidade que me formou e me mostrou todas as suas dores e acertos; encontrar as minhas escolhas à noite em Varginha e ter orgulho delas.

Viva 2015!

A porta não se fechou – como era o esperado e vivido dolorosamente. As expectativas foram revertidas. Tudo muito suave até! 2014 foi o ano das cinzas, de transição e do recomeço. A gente só queria que nossas preces não se tornassem inatingíveis. Nada mais justo! Anseio de um pouco de paz. E o coração batendo mais forte para vencer a turbulência dos últimos meses do finado 2013. Naquela época desejamos dias melhores. Feito mantra. É a força da confiança em números pares! Deu certo. Trocamos as pílulas homeopáticas por boas doses de suor, sangue nas veias e a possibilidade de realizar. Menos consultórios, ilusões, caminhos feitos de dureza. Mais realidade mundana e pé no chão. 2014 foi par. O ano que o limão não me pareceu azedo. Portanto, feliz 2015!

(De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura, um encontro”. – O encontro marcado, de Fernando Sabino.)

2014, parte 1: o ano em que o limão não me pareceu azedo

– Eu só preciso buscar um novo sentido para minha vida.

Voltemos ao tempo: 2013 foi desastroso. Em todos os âmbitos e possibilidades. Repetir a frase acima, como mantra, era a solução para tantos problemas ao entrar o ano novo. O que precisava, mesmo e sem dúvidas, era de tempo. Ou de ficar sozinho para compreender algumas costuras do mundo! O médico dizia que era urgente tomar boas doses de mudança. Não quis receitar os remédios tradicionais. Eu já andava cabisbaixo e sem perspectiva para viver. Queria me entregar feito “um soldado cansado e famito”. E outra, não queria mais lutar. Me irritava fácil. Era a personificação de uma chaleira, por dentro fervendo… e por fora, explodindo! Belo Horizonte já não tinha mais o brilho de como enxergava a cidade o recém aluno de jornalismo da Católica. Estava em um estado lastimável. A Serra do Curral, aquela dos sonhos de uma infância próxima, sufocava. BH não era mais bondosa. Estava declarado: estamos em guerra! Eu e a cidade, a cidade e eu – e toda sua falta de educação, o trânsito, suas mazelas. Preferi o lado sombrio. Não podia mais. Não queria mais. Só me restava chorar. E implorar, como se não fosse responsável por meu destino, para que alguém me resgatasse disso tudo.

(É hora de refazenda, de plantar o trigo, agora não pergunto mais pra onde vai dar a estrada)

2014 foi de intensos. Do radical ao leve. Das mais dolorosas e boas emoções. Foi retomada de fôlego e perspectivas. O ano em que o limão não me pareceu azedo. Dos tempos em que as caretas foram substituídas por sorissos… daqueles descompromissados, cheios de dentes e expressividade! Sem espaços para mentiras e ilusões. 2014 foi par. 12 meses de descobertas.

De merecer o seu olhar.
De merecer o seu olhar.