Tempo amigo, seja legal com o Rio São Francisco

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Código-chave: “desktop>sanderkelsen>imagens>01/12/2007″

Em uma pasta em meu computador, encontro algumas imagens. Ou melhor, reencontro imagens. Nelas, a contraposição de flores, mato, pessoas, balsa e um rio. Este rio, descoberto em 1502 por gente civilizada?!?, tem hoje 168 afluentes e é considerado o rio da integração nacional. Você logo matou a charada das informações acima pelo título deste post: “seja legal com o Velho Chico”. Ei, Rio São Francisco… Hoje eu não quero falar sobre sua transposição, dos interesses políticos que inventaram para você. Mas sim, quero falar do que te move: sua gente. Em algum ponto do rio, “bom dia dona Maria, a senhora tá boa?” “oh, meu filho, tô levando. E ocê?” E dona Maria continua lavando sua roupa. Seis e meia da manhã, munícipio de São Francisco, norte de Minas. Desço do ônibus, as pernas tremendo, muita fome. Viagem de Belo Horizonte até o noroeste mineiro, tinha ainda muito caminho pela frente. Era meu primeiro contato com o Velho Chico. Um sorriso no rosto, pausa para a foto. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… Rossana, tira mais uma da gente? O cenário… Ah, o cenário! O velho Chico, a Igreja da cidade de São Francisco ao fundo, e um moço, com um fio de mato na boca, observando a mim e a meus colegas. “É gente da cidade né? Belo Horizonte? Já estive lá uai… É muito carro e gente por lá”. Chega a balsa, o ônibus em que eu estava embarca nela. Iría atravessar o Velho Chico. Com muito receio, eu, um cara da cidade grande indago: “Mas, essa balsa aguenta um ônibus?” Um barranqueiro, rindo, me diz: “Aguenta até dois, sô!” É a comprovação: O meu saber, o acadêmico que dizem que é superior, se relacionando com o conhecimento local. E aí, qual é o mais importante? Quem disse que o conhecimento acadêmico é superior ao conhecimento popular? A balsa estava indo… ia… foi. A imensidão do chico… uma névoazinha ainda subia do rio. Mais uma foto? Sete horas da manhã, outro lado do velho chico. Dez minutos de travessia. Embarcava no ônibus para ir embora, dava adeus ao Chico, por um momento. Foram os 30 minutos mais intensos de minha vida, sem dúvida. “Tchau povo da cidade”, o moço da balsa disse. Sento em minha poltrona, pego um cobertor. Imediatamente, não sei o por quê, em minha cabeça, vêm aquela música do Pato Fu, aquela, especial para mim… Canto bem baixinho, pensando no velho Chico,

“Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei

Pra você correr macio

Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei

Pra você correr macio

Como zune um novo sedã

Tempo, tempo, tempo mano velho

Tempo, tempo, tempo mano velho

Vai, vai, vai, vai, vai, vai

Tempo amigo seja legal

Conto contigo pela madrugada

Só me derrube no final”

Talvez é o que chico precise, tempo. E o que o tempo… que o tempo seja legal com ele. Deus abençõe o nosso Velho Chico

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Velho Chico!

Em dezembro, com minha viagem para Serra das Araras, visitei a cidade de São Francisco/MG. Tive a oportunidade de atravessar o velho chico de balsa, logo pela manhã. É muito boa a sensação quando você está no Rio São Francisco e em contato com o povo de sua região, os barranqueiros. Quando atravessava o chico, além de tirar muitas fotos, me parei para refletir sobre a transposição e a situação do rio. “Como é que pode um rio desse tamanho e que aqui espelha tamanha beleza, em outros estados estar tão degradado?”, pensei. É até díficil de imaginar o chico assoreado. Quer dizer é díficil entender porque o chico chegou a este ponto. Um fato interessante que aconteceu comigo e com algus colegas rondonistas, mas em julho de 2007, em Chapada Gaúcha, foi que alguns políticos filhos da mãe nós enganaram. A história foi a seguinte: Um representante convidou alguns rondonistas para participarem de uma passeata em homenagem ao velho chico. Até aí, tudo bem. No meio dessa passeata, já com alguns rondonistas vestidos de onça, passarinhos e outros animais, e o bocó que vós fala tirando foto de tudo, entrevistando muitas pessoas na passeata, um vereador entra no carro de som e solta as seguintes frases: “apoiamos a transposição do rio São Francisco!” “A transposição é muito bom pro velho chico”…

by sander kelsen foto do velho chico, em dezembro de 2007. 

enfim, começou a fazer a maior propaganda política! Eu que não sou partidário e os outros rondonistas acharam algo estranho: uai, porque esse cara tá falando isso? A ficha demorou a cair, e quando notamos que era propaganda política, sai correndo atrás de minha coordenadora, quase chorando por tal fato. Imediatamente, os rondonistas que estavam na passeata, depois que nossa coordenadora chegou, deixaram as fantasias no chão. Uma colega rodonista minha, quase chorou também e engasgada soltou: “Eu odeio política! Eu não sou partidária!”. Essa experiência que tive serviu para abrir mais meus olhos contra esses políticos FDP… Ok, existem políticos sérios, mas são minorias!