Ainda não parece ser inverno.

Quando foi a última vez que a caminhada não pareceu dolorida e difícil? Existem coisas piores do que a falta de liberdade: não encontrar perspectivas – mesmo que insistentemente, de tanta teimosia. Elas são atenuadas quando escolhas do passado se tornaram tão rígidas, mas tão rígidas, que se parecem com preconceitos: é praticamente impossível quebrar. Mudar ou “buscar o novo” (como as promessas em festas de colação de grau para ser devoto do novo) se torna tão inatingível. A gente vai pra batalha. Trava uma guerra interna todos os dias. São ações de proporções que o outro não pode imaginar. Este é um esforço para viver, ser visto e revisto.

(O inverno chega de mansinho. A pele tenta se adequar mais uma vez. É desidratada com a água quente, onde se evapora também os sonhos mais secretos. Que paradoxo! É tempo da fé hibernar. De limpar a sujeira da alma com cuidado. Não de clarear. Só permear a certeza de que amanhã a primavera vai renovar tudo; curar cicatrizes e ensinar que a paciência é a principal moeda de troca para a vida.)

 

 

 

São Thomé das Letras: primeiras impressões

São Thomé das Letras tem o poder incrível da união. Quem é esse santo que opera milagres? Eu confesso: tive medo ao dirigir pela estrada que vai para lá. Na primeira vez, fui à noite. Não deu pra ver a paisagem. Mas tinha bruma, uma pequena ponte no meio da rodovia, árvores e um friozinho gostoso. Ainda no carro falávamos sobre coisas místicas – de forma inacreditável (sobre o poder do pensamento, reencarnações, a cura com os conhecimentos históricos das bruxas). Ao subir a montanha, um portal – todo de pedra. Uma rua ora asfalto, ora pedra. Tudo é pedra, minha primeira energia, minha primeira essência. Quem é que não chega em São Thomé e percebe que está em outro mundo? É essa a impressão que tive. Era por volta da meia noite. Queríamos um restaurante para comer. Não encontramos. Entramos em um barzinho para comer chocolate. Encontramos gente desejando paz e amor.

 

E se há luz, tudo muda. Há uma corrente que insiste em dizer: volta! E foi assim.Da noite sem lua cheia para o sol de 30 graus. A gente voltou. E percebeu que a cidade, ainda no caminho da estrada, tem uma luz própria. Branco com verde – palavra primeira aqui: pedra!

Brevíssima rápida descrição de Varginha

É assim: lá pelos 300 km de Belo Horizonte e 300 km de São Paulo, está uma cidade que tem um quê ufológico na memória histórica do brasileiro. Mas na minha (…) não é só isso. Minha história se cruza com a dela quando logo na entrada – e no fim da estrada que me traz – o cheiro de café torrado me recebe e me transporta para a infância. Tem gente que fala com sotaque diferente do meu: e fico a admirar. E que, por mais que tente, nunca vou conseguir imitar com exatidão. Aqui, cabe admiração.

Ter saído do ninho.

Ter saído do ninho me fez compreender algumas coisas: é possível, sim, se sentir em casa, num mesmo dia, em muitos quilômetros de estrada. Sim, é possível tomar café da manhã em Itabira, terra de Drummond e perceber que no meu sangue também corre minério; almoçar com a família em Belo Horizonte por volta do meio dia e reafirmar minha paixão pela Serra do Curral que protege toda essa gente – e por essa cidade que me formou e me mostrou todas as suas dores e acertos; encontrar as minhas escolhas à noite em Varginha e ter orgulho delas.

Ainda sobre BH: com primeiros e segundos, entre parentêses, travessões e afins.

A minha primeira memória de Belo Horizonte: o cheiro de café torrado ao passar pela rua Jacuí, no bairro Renascença. A segunda, o tradicional passeio pelo Parque Municipal aos domingos (E a pirraça insistente para andar de barco – Eu quero! – mesmo assim não deu. E daí a primeira lição de vida: nem tudo pode se ter pelo grito). O que me admirava no centro da capital era o símbolo do BEMGE- o banco estatal que foi privatizado e não existe mais. Estava lá, estampado em um prédio de tantos andares. Vontade profissional primeira: ser motorista do transporte público, daqueles ônibus que atendiam os bairros (Eram máquinas fantásticas, com uma comunicação visual hipnotizante. Barulhentos, azuis ou vermelhos e com o jornalzinho pedindo gentileza urbana).

Bondosa.
Bondosa.

Não fui da época dos burburinhos políticos no Café Nice… Mas honrei as tradições belo-horizontinas: o Maletta foi ponto de encontro e divisor entre a adolescência e a vida adulta. Me perdi na primeira vez que saí sozinho, em um sábado, em direção ao bairro de Lourdes (para um aniversário). Liguei desesperado, de um tijolão 5120 da Telemig Celular, para me orientar (A cidade parecia estranha quando anoitecia). Nunca foi, coisa de primeira impressão – das ruas e avenidas tão largas e sua gente em passos rápidos para chegar em casa: ensinam que não se pode ter medo do cotidiano e da mudança. Não cresci na Serra, na Gameleira, em Venda Nova, em Santa Tereza, no Mangabeiras, no Caiçara ou no Barreiro. Mas vivi bons momentos em bairros que não deixam de ser tradicionais  e são tão familiares para mim (Ipiranga, Planalto, Tupi, Mirante do Tupi, Pampulha, União, Cidade Nova, Nova Floresta, Sagrada Família e outros tantos no eixo norte-nordeste). O primeiro emprego, na Universidade Católica… Eu sempre gostei da arquitetura do campus no bairro Coração Eucarístico. Me fazia sentir que estava em Ouro Preto. Não sei o motivo. (Aliás, tem muita sola do meu sapato pelo Coreu e pelo São Gabriel por causa dessas andanças que a gente empreende para conquistar os sonhos).

Sempre gostei dessa possibilidade da Serra do Curral abraçar 2 milhões de habitantes de uma vez só – sem distinção de nada, de graça, confortante. Acho um tanto surpreendente nossas construções, principalmente as praças. Estamos imersos em um mar de montanhas, que parecem não ter fim quando observadas do alto (E eu tive o gostinho de sobrevoar a cidade quase todos os dias por um tempo – mesmo que para reportar o caos). Minhas paixões maiores: o sotaque belohorizontês, bom de se ouvir; as histórias que aqui residem, verdadeiro patrimônio da humanidade.

Com primeiros e segundos, entre parênteses, travessões e afins.

[De Fernando Brant e Milton Nascimento: “A pulsação do mundo é o coração da gente”.]

Laterais.
Laterais.

Luiza.

Luiza tem sobrenome italiano e parentesco com um ator e humorista famoso. Um doce de pessoa, de calma excepcional. Calculava todos os passos antes de chegar na sala de aula – ensaiava, involuntariamente, como seria sua trajetória até sua carteira… como abriria o caderno e como seria o intervalo. Sentava bem ao fundo com outras duas amigas. Era a típica tímida, com direito a todos os estereótipos de quem não tem a comunicação como ponto positivo. Quando apresentava trabalho na faculdade, falava baixo. Tão baixinho que certa vez o professor perguntou para o aluno ao lado se ela estava com algum problema.

 – Brigou com o namorado?

Desviava o olhar… pensava muito para argumentar e não escondia o desconforto ao falar em público. Um fato: não queria chamar atenção. Talvez nem desconfiava que seu próprio jeito de ser atraía todos os holofotes – mesmo de forma involuntária, sem aquele esforço que o aluno faz para ganhar os méritos de um destaque acadêmico do semestre.

Quando fazia frio, ia de vestido. No calor, preferia calça jeans e sapatos all star. Usava óculos e, por isso, um tom intelectual tomava conta de sua energia pessoal. O bom é que se transformava nas festas. Sim, eram situações duais… e sem ser geminiana. Na verdade, deixava sair tudo aquilo que reprimia: uma grande mulher, linda e inteligente. Até se arriscava beber alguns copos de refrigerante e dançar como se ninguém estivesse assistindo. Seus passos, em dias mais descontraídos, inspiravam segurança.

Luiza declarou, algumas vezes, que não sabia o que queria ser profissionalmente. Até se encontrar na fotografia (E numa dessas, no laboratório, abri um de seus arquivos sem permissão. Queria saber quem era ela. Uma esfinge. Encontrei sensibilidade). Dias atrás, a procurei na rede social. Continua linda. E, pelas fotografias, parece que descobriu sua verdadeira essência. Se mudou do país: colocou em seu perfil uma foto da infância; outra de uma paisagem europeia e um registro dela mesmo… olhando para o além.

Talvez não pudesse prever que a vida assim seria. De fases. Cada uma ao seu tempo, tendo parcimônia e sabedoria para encará-las bem ao jeito Luiza.

Gastronomia no morro.

Pergunto como se escreve de forma correta o nome. “Wanusa. Com W. Com S. Sem V e sem Z.” A cozinheira logo me abordou com uma expressão de alegria. Queria mostrar a receita que conserva há tempos. Tem assa-peixe: fininha, verde e de espessura firme. Uma planta que cresce aos montes no Aglomerado Santa Lúcia, região sul de Belo Horizonte. “É de fácil preparo. A gente pega o assa-peixe e lava. Depois é só passar no fubá e na gema. Fazendo isso separados um do outro. Caiu na panela, tá pronto… crocante”. É servido com sofisticação. Para acompanhar o petisco, uma salada (…) feita também por dona Wanusa. Umbigo de banana, ora-pro-nóbis, azeite, alho e sal. “Delícia”. Ela brinca mais uma vez, dizendo que o assa-peixe é o peixe que não é peixe. De primeira vista, os vegetarianos podem torcer o nariz. Até a primeira degustação.

Ao olhar para o horizonte, o menino observa as casas simples e sustentadas por gente trabalhadora. Vê também a movimentação de jornalistas e chefs de cozinha bem ao lado. Eles vão participar do “Gastronomia no Morro”. O encontro é na Igreja. “Eu chamo aqui de condomínio. É meu lugar”. A frase é de Dona Jovem, que caminha bem serena pelo salão paroquial. Aos 85 anos, prepara um chá dos deuses. Aprendeu a fazer sozinha, conhecimento prático mesmo. No quintal de casa, a erva cidreira. Ela complementa com cravo e canela, para ficar mais saboroso. Água fervida com tudo misturado. Uma bebida saudável que já virou tradição nos encontros da comunidade. Enquanto isso, um corre-corre para finalizar o serviço. No cardápio: galopé, arroz com moranga, sobremesas e sucos. Todos preparados pelos cozinheiros locais. Prova de que é possível comer bem e pagar barato por isso.

O que vê o menino?
O que vê o menino?

O Aglomerado Santa Lúcia é composto por 4 vilas e 3.800 famílias. Também é famoso por abrigar uma das barragens de água da capital mineira. Padre Mauro Luiz é curador do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos. O espaço aparenta estar bem no meio da comunidade. É um centro que recebe exposições para retratar a vida dos próprios moradores. Em um quadro daqueles antigos de escola, a palavra esperança está escrita em giz. Num outro ambiente, as obras de Pelé, um pintor que deixa na tela o cotidiano com muita sensibilidade. As fotografias estão dependuradas e mostram janelas e pessoas. Os objetos por lá também contam histórias: um caneco, uma imagem de Nossa Senhora, algumas bonecas. Tudo faz parte de quem construiu o lugar com fé em uma vida melhor.

Foi num sábado de dualidades – com chuva e sol, frio e calor – que a imprensa foi até a região. Não para mostrar crimes. O assunto? As potencialidades de moradores que desenvolveram um estilo próprio de cozinhar. Eles mostraram as técnicas para quem fez curso superior e gerencia cozinhas requintadas. Teve troca de experiências entre os cozinheiros do morro e dos chefs de restaurantes “chiques” da cidade. O melhor? Daqui pra frente eles vão fazer estágio nesses estabelecimentos. Palavra primeira para essa oportunidade? Empreendedorismo.