Alice.

– Engraçado ver essas fotos. Tô me sentindo pequena. Sentindo que o mundo é grande. Eu nunca vi a neve, eu nunca nem saí do Brasil. Olhando essas fotos, eu lembro do meu pai. Das coisas que ele escolheu deixar de ver, deixar de viver. Aí deu vontade de viver um monte de coisas por ele. Veio também um pensamento esquisito na cabeça. Talvez valha mais uma Alice voando… do que mil Alices com os pés no chão.

Meu sangue latino.
Meu sangue latino.
Eu não sei bem para onde minha vida vai... Mas eu sei que ela é outra. E ela é nova.
Eu não sei bem para onde minha vida vai… Mas eu sei que ela é outra. E ela é nova.
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Histórias do passado, bases de hoje.

Em Itabira, Minas Gerais, alguns lugares e pessoas merecem ser apresentados ao mundo. Nesta série, a escritora e jornalista Liliene Dante revisita o passado de sua infância. São histórias de ontem que dizem muito sobre os dias de hoje. Passado, presente e futuro se tornam um tempo só: o tempo da vida.

Homenagem Nossa Senhora do Rosário

Eu encontrei hoje o relato de Dona Divina em meus arquivos. Gravei em Itabira, no ano de 2011. Era dia de festa, inauguração de uma capela para homenagear Nossa Senhora do Rosário. O que mais me emociona é a força desta mulher. Da fala serena e determinada. Exemplo de como mobilizar uma comunidade em prol de interesses comuns. Por isso que gosto demais das terras itabiranas: é lá que peço conselhos quando quero avançar.

No aguardo do primeiro retorno de saturno.

Os números pares sempre significaram um novo começo. Já os ímpares, fechamento de ciclos e o esperar de nova vida. Eu sempre fui um questionador sutil. Talvez, comigo mesmo, até perfeccionista demais. Reconheço que ando no limite. Por energia geminiana, sou inconstante. Mas me ofereça um ambiente diferente e é lá que vou me adaptar. Não tenho medo de mudar se necessário for. Tenho uma grande missão. E só revelo para os amigos mais íntimos. No dia a dia, a gente aprende a exercer nossa humildade, a se sensibilizar, a respirar e a buscar nossa essência. Há momentos que é preciso entender que a vida é vivida dando um passo de cada vez. Parece até clichê e pode até rimar: mas não há nada melhor do que conviver. Eu tenho meus rituais. Tomar banho pela manhã, minha oração à noite, dormir 16 horas seguidas aos sábados. Um encontro inusitado às três da tarde. Fugir da monotonia da rotina. Uma conversa que não se limita ao plano físico. Eu escrevo com o coração. Tenho medo de deixar em porões as temidas emoções. Sou um kapha nato. Primeiro decanato de gêmeos. Mensageiro natural de coisas naturais. Paisagem, para mim, tem que ser eternizada pela fotografia todos os dias. Assim como as pessoas. A minha meta é contar 1 bilhão de histórias. Tenho apenas 10 mil. Próximo dos 25 anos, me considero velho. É um erro… E não é, apesar da contradição, na maioria das vezes. Então vem a consciência e insiste que posso ser velho sim: Ultrapassado, nunca! Pode ainda faltar maturidade. Ou até mesmo experiência. Mas parcimônia, paciência, boa vontade, bom senso e serenidade não. Dispenso regras gramaticais. Abusar da falta de continuidade é o que pratico. Qual é a infinita possibilidade real? Percebi! No Brasil, judeu se dá com árabe e vão juntos ao centro de macumba – segundo Elke Maravilha. Aprendi uma coisa: a nossa única saída é virar gente. Virar gente é exercitar o amor. Para o futuro espero não ser mais um poeta do mundo caduco. Isso por um simples e complexo motivo. Eles passarão. eu, passarinho.

A minha Tiradentes.

De lá pra cá, a estrada mudou. Está fragilizada, carente de reforma. O asfalto, em alguns pontos,  está completamente destruído. Não imaginei que poderia ser assim tão diferente: A primeira vez que coloquei os pés na cidade histórica foi em janeiro de 2009. Desse janeiro de 2012, muito mudou: a começar por mim. Antes tinha ido de ônibus – passagem de pouco mais de 30 reais. Hoje voltei de carro. Cortei caminho, pela serra dos Alves. Tiradentes tem uma das mais charmosas estradas calçadas de Minas. Quem sabe do Brasil? Minha amiga disse que também é uma das cidades românticas. Reza a lenda que, em dias de céu estrelado e lua cheia, se todas as luzes fossem apagadas por lá, tudo ficaria iluminado pelo o que vem do céu.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída no século 18, ainda se sustenta com todas suas forças moldadas pelo tempo. Eu fiquei a observar da porta da padaria e imaginando como foi erguida. Ao entrar, a beleza do altar.

A praça central, com suas árvores, palcos de muitos encontros: eu saudei! Aquelas casinhas que, por um instante, parecem ser tão delicadas. Os jovens que se reúnem na ponte que liga um extremo ao outro da cidade. É Tiradentes.

O que eu gosto mesmo é das ruas feitas de pedras, resistentes, como o tempo.

Em 2007, fiz algumas anotações… queria mesmo era participar da Mostra de Cinema de Tiradentes. Em 2007 era a décima primeira edição. Parece que voltei com outros olhares. Talvez…

Em janeiro de 2007 estive por lá. Conheci muita gente. Mineiros, paulistas, cariocas, baianos, italianos. Fui sozinho. Fiquei hospedado na pousada de Dona Nhá. A simpática senhora me fez um preço camarada, 35 reais a diária. Uma semana antes de ir, todos meus amigos furaram comigo. “Ah, tipo assim, furou Tiradentes” com “Acho que não vai dar mais pra eu ir” e “Você vai mesmo lá? Achei que tava brincando” foram as frases (enunciados de sentidos completos) que mais ouvi no começo do ano.

Fui e acabei voltando de avião. Embarquei no pacato Aeroporto de São João Del Rey. Gastei 100 reais para voltar a BH. De raiva! Poderia ter gastado em ‘refrigerante’ em algum bar, com os amigos furões. Mas não gastei.

A memória me pegou de surpresa. Já não me lembrava mais do site da mostra. Digitei mostradecinemaemtiradentes ponto com ponto br no navegador. Mas deu ‘link não encontrado’. Mas no final, deu tudo certo.

Fiz minha inscrição em uma oficina. Não boto fé, não vão me chamar. É sempre assim e a sorte não costuma bater na minha porta fácil.

O frio de um vivo.

Eu respiro profundo.
É como se me deixasse envolver por uma força maior.
O pé inquieto marca a contagem regressiva:
3,2,1… no ar!
Sem me esquecer da entonação, dicção, respiração e das pausas.
Todas ensaiadas previamente;
A notícia é dinâmica, provocadora. Merece o tom certo.
É ela que vai transformar realidades: de uma forma ou de outra.

A cortina está entreaberta: é a tela da TV que se divide em duas.
O coração? Disparado.
Eu me sinto em casa depois das primeiras palavras que surgem.
Fluem, sem a necessidade da decoreba.
Guardo a lição de grandes profissionais: entenda a realidade e, depois, descreva-a.

Uma fusão de essências.
Quando o jornalismo e eu somos um só.
Eu acredito no seu caráter, na sua natureza.
E apesar das críticas…
é a profissão que escolhi para minha vida.
Ou foi ela que me escolheu disfarçadamente?

Moradores ilustres.

Todo mundo se apressa e as palavras são abreviadas. É o fascínio e a distração do dia: o gigante, como descrevem as crianças, quer beber água, comer e se refrescar. Afinal, é uma tarde típica de verão e o calor, até para os mais bem preparados, importuna. Funciona como um divertimento. Ele pega um monte de plantas e, de uma vez só, coloca tudo na boca. O focinho, longo e bastante flexível, é descrito como a tromba. Longe de ter uma expressão amarrada. O senhor elefante pisca e sorri para a multidão.

O zoológico se prepara para receber novos moradores. O gato é silvestre: veio do Brasil central, de Montes Claros, interior de Minas. Come pequenos roedores e aves. As crianças, novamente, observam bem e concluem que não é possível domesticá-lo. Arisco, fofinho, pelagem estranha. Uma mordida do bichano deve doer.

Do outro lado, o cervo do pantanal. Quieto, parece não acreditar que está ali, sozinho e descobrindo o novo ambiente. Nasceu em um criatório. Tem orelhas grandes e pontudas. Quer silêncio e não cabe a nós incomodar.

Os micos estão de quarentena, em uma espécie de hospital: precisam ser observados antes de seguirem para o novo lar. Será que eles vão se adaptar a alimentação? E a saúde, vai bem? Os especialistas é quem tomam conta.

Pergunto ao biólogo o que fazer se, nessas esquinas da vida, toparmos como uma onça. Ele conta que isso pode ser uma sorte muito grande… não é todo dia que vemos uma por aí. Mas, o ideal mesmo, segundo ele, é fazer barulho. Não dar as costas e crescer para que o animal não nos incomode.

Um universo de 3 mil animais em uma das matas da região Pampulha, em Belo Horizonte. É o zoo! O coração aperta ao vê-los assim, em meio a tantas grades.