Outono que me ensina a fazer renda. Eu ensino a namorar.

[O tempo é meu lar.] E sempre será. A lágrima vem fácil. Passa pelo coração e ganha os olhos em segundos. Só o tempo deixou mais claro e pontuou o que significou aquela experiência de 15 dias em uma cidade totalmente desconhecida. A vida, ao vivo, sem cortes e sem edição. Poeira, terra seca, uma paisagem e cheiros inconfundíveis. Ao olhar pela janela do ônibus, a lua tinha outra nitidez. Nem sei a razão de ter embarcado naquele julho de 2007 (Coisas que deixo para um outro mundo explicar. Aqui, cabe sentir saudades.)

[Pra Nhá Terra] A criança chora e o mundo desperta (boi, boi, boi da cara preta: pega esta menina que tem medo de careta). O orvalho cai delicadamente das flores e revela toda sua explosão de vontade ao se encontrar com a areia. O cheiro do café, preparado no fogão à lenha. O quão bucólico é a serração pela manhã. O canto dos pássaros a procurar um rumo. Colocar os pés na água que vem do riachinho e, vez ou outra, conversar com amigos imaginários que estão ali a observar. A árvore, a pedra, a água, os sons puros, o ar renovador. [Abacateiro, sabes ao que estou me referindo?] Lá, na casinha sustentada apenas pela força do amor, a mulher fazendo renda. Calmamente.

[Eu choro de cara suja!] Embalado por Drummond, identifico poesia nas montanhas de Minas e vice-versa. Apesar de ser outono, este é um período de floração. Pouco importa: está tudo ao contrário. O anúncio de uma nova vida. [A roda que rola. Rosa e amarelo, misture pra ver o tom. Junte o vermelho, verde e o azul. E vá colorir!] Colorir um caminho de cores fortes e marcantes. Ao que realmente importa, viver sem amarras e sem medo de amar. [O que todo tamarindo tem.]

Papagaio de toda cor.
Papagaio de toda cor.

25 motivos.

Cenas que se repetiam: do trabalho para a praça do Papa. Era para chorar todas as mazelas de Belo Horizonte. Não foi uma, nem duas vezes. Várias. Chorar pelo descontrole que chegamos: pela senhora passando fome, pelo menino pedindo esmola, pela indiferença, pela prepotência dos políticos, pelo ego, pela violência, pela corrupção, pela falta de educação, pelo barulho, pelo trânsito caótico, pela imprensa vendida, pela fragilidade do ser humano, pelas causas dispensáveis, pela mesquinharia, pelo sentimento ruim que está aí, de uma maneira geral. Era quase um ritual, um grito de parcimônia ao universo e para alguma força maior. Minha fé é fraca e por isso tenho medo dos caminhos que insistimos em seguir: razão de lavar a alma sempre. Algumas coisas que passaram e ainda sinto – muita – falta: Da infância – em comunidade – que tive na capital. Da gentileza, de ter tempo para a convivência com a família, de não sentir preocupação de chegar tarde em casa. De conversar com o vizinhança, sem ter hora para acabar. De dormir até tarde no sábado e soltar papagaio aos domingos. Andar de bicicleta pelas ruas do bairro. Coisas simples que hoje se tornaram tão sofisticadas – pelo menos para mim; Da bagunça no ônibus com os amigos da escola. De acordar cedo pensando em encontrar aquela rotina que se resumia a estudar; De quando minhas pernas cabiam nos brinquedos do parque municipal. Do sorriso fácil das pessoas. De quando a vida parecia ser mais tranquila, sem grandes tecnologias e redes sociais.

São apenas saudades.

Achava que podia ser útil quando me formei na faculdade. Hoje, a conclusão um tanto dura: não cumpri nem 1/4 das promessas que fiz… O juramento do curso de jornalismo me atordoa e ainda, sim, me instiga. “Buscarei o aprimoramento das relações sociais e humanas, através da crítica e análise da sociedade, visando um futuro mais digno e mais justo para todos os cidadãos brasileiros”. Todo mundo deve ter algumas utopias como forças motivadoras.

Sobre Belo Horizonte: há muito o que se fazer aqui. Queria ter me dedicado mais às causas da cidade… não apenas reportar mantendo insensibilidade. Criar uma ONG, participar de debates, mobilizações… ou até mesmo fazer a cobrança de projetos por parte do poder público (afinal, sou das ciências sociais aplicadas!)… É, não deu, não foi exatamente como queria e como gostaria. Faltou energia, sobraram teorias e impostos a pagar. Literalmente empurrando com a barriga problemas urgentes, de todos. Uma reflexão: está tudo errado. É hora de recomeçar. Estando distante talvez fique mais fácil encontrar soluções para os problemas cotidianos. Assim vou, lutando pelo o que acredito.

Ah, Belo Horizonte: você é meu amor bandido. E vou sentir falta. Estou de mudança, mas com data marcada para voltar. Esta não é uma carta de desistência ou renúncia. É como se fosse um até breve para a cidade que me acolheu.