Alma quase lavada: a prisão dos 7 mensaleiros em Belo Horizonte.

A minha geração – nascida no finalzinho da década de 80 – aprendeu a discernir logo cedo que democracia e corruptos não deveriam combinar. Essa era a lição das horas cívicas de toda sexta, das onze da manhã até às 12; uma disciplina remanescente dos tempos de ditadura. Aliás, o colégio todo se reunia no pátio para louvar e exaltar o Brasil (e mesmo com todos os seus problemas! Há que se gostar da terra que cultivamos e fincamos raízes). Esse encontro dos jovens adolescentes e alunos com os professores ganhou outra roupagem na nova república: nem filosofia, nem sociologia, uma conversa descontraída sobre nós. Por isso sempre repito: meus contemporâneos são duais. Na “grade curricular”, o velho professor de química insistia em demonstrar o que as cargas negativas e positivas tinham em comum, colocando um quê de interdisciplinariedade. “O resultado é uma lei da atração física, universal, aplicada ao nosso cotidiano: lados opostos se atraem”.

O dia 15 de novembro de 2013 foi marcado pela prisão dos mensaleiros. O ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, expediu mandados de prisão para 12 réus. Em volta da sede da Polícia Federal, no bairro Gutierrez em Belo Horizonte, os moradores de prédios classe A se debruçaram em suas sacadas para ver o que muita gente classificou de show midiático. Entre bandeiras de Minas e do Brasil, a TV ao vivo estava lá embaixo. O rebuliço era por conta da entrega dos condenados. Simone Vasconcelos foi a primeira a chegar, ainda de tarde. Logo depois, os outros 6 réus que moram em Minas foram desembarcando de carros importados, um a um. Marcos Valério, o operador do mensalão, chegou de cabeça baixa, em um carro com vidro blindado e escuro. A ex-presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, veio acompanhada dos advogados; estava abatida e com semblante triste. Todos iam cumprir pena em regime fechado: menos o ex-deputado Romeu Queiroz.

A noite pode ter sido longa: os réus passaram a noite ali mesmo. As 2 mulheres em uma cela separada. Tudo sem luxo. Na manhã de sábado, a movimentação de jornalistas continuou intensa. Advogados concederam entrevistas. Pouco depois das 11 da manhã, uma van e carros da PF deixaram o local com os bandidos: sim, bandidos. A imprensa evitou usar esse termo por se tratar de gente rica. Não estavam condenados? Aqui vale uma definição:

  • MENSALÃO: disponibilização de recursos financeiros a partidos e parlamentares em troca de apoio em votações; a formação de “bases aliadas” é facilitada com estes pagamentos, incluindo a mudança de partidos pelos políticos.

Eles foram em direção ao Instituto Médico Legal, no bairro Gameleira, para realizar o exame de corpo de delito. Nas ruas da cidade, muita gente não entendeu do que se tratava o comboio. Ao chegar no IML, a ousadia de Marcos Valério ao se dirigir a um agente da polícia federal que o segurava.

– Incompetência!

A quem ele criticava? O exame durou cerca de 40 minutos. 3 peritos foram disponibilizados para atender os corruptos. Na saída, moradores do bairro cercaram a sede do IML. Eles tinham um recado claro:

– Ladrão, ladrão!

Do outro lado da rua, um agente da polícia federal tentou prender um popular por sua manifestação – digamos – mais incisiva. “Você tem que prender é eles. Não eu, um cidadão que está com sede de justiça. Corruptos são eles!” – Alma quase lavada. A prisão dos mensaleiros é simbólica: não resolve todos os problemas… mas faz nascer uma ponta de esperança, ainda bastante tímida. Esses são fatos históricos que temos prazer de presenciar.

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