Crônica humorada da amizade.

Ela nasceu para morar no interior. Bem no meio do mato, com barulhinho de grilos e cigarras, sem delongas e correrias, com borboletas azuis e caldeirões para receitas especiais. Daquelas poucas e raras pessoas que têm o sotaque mineiro acentuadíssimo e a simplicidade da Itabira de Drummond. Estudou jornalismo em Belo Horizonte na década de 90. Fez um acordo com sua essência bem antes de terminar o curso: “nunca mais hei de viver nesse caos urbano”. Visita a capital apenas o necessário. E, numa dessas, quando entra no metrô em horário de pico (…) sai rodopiando em meio ao povo em busca do lugar ideal! Empurra. Logo pede desculpa. Distribui bolsadas. E ainda pede calma! Brincadeira saudável, nada muito grave: o coração da menina com olhos brilhantes é enorme. Mas fica um alerta: abre o verbo com os jovens estudantes empacando a passagem. A propósito, ela, por vezes, é exagerada. Muito exagerada. Fala demasiadamente… descontroladamente… perde o fôlego e o retoma rapidamente. Se não fosse assim, teria que ser assim. (E um texto para apresentá-la deve ser bastante grande, pela quantidade de experiências, situações e perspicácia por metro quadrado. Um texto não: deveria ser um livro, com vários capítulos). Gosta de viajar sem rumo; sem amarras! Deseja e anseia o amor. Por ironia do destino e talvez 90% a contragosto, visitou o Rio de Janeiro anos atrás. Jurou: nunca mais ia colocar os pés por lá. Sem meias opiniões. Ou é oito ou é oitenta. Ou gosta ou não gosta.

Ele veio para ser do mundo. Nasceu em Manaus. Tem sotaque universal. Percebeu cedo sua missão. E começou, ainda criança, a viajar pelo país. Afinal, o Brasil tem as mulheres mais bonitas do planeta. Um dos motivos para seu ‘estado’ sempre mudar… Desembarcou em Minas: Divinópolis. Se formou em jornalismo. Letras também. Gosta de samba e, por essa e outras, se mudou de Belo Horizonte para terras cariocas. O Rio de Janeiro é a mais pura tradução de sua alma. Pela boêmia e pelo ambiente que teoricamente respira mais liberdade – e por aí vai. É intelectual. Escreve bem. Todos os sentidos apurados 24 horas por dia. Fala francês. Coleciona encontros. Preserva seus momentos de estar sozinho. Ok, não se engana e coloca em prática o que é: gosta de casa cheia. Dispensa grandes apresentações: o ar de boa malandragem e cortesia fala por si só. Oxalá!

No dia que ele disse a ela que iria se mudar para o RJ… ah, foi um chororô. Ensaiaram uma despedida. Entra ano e nada. A mudança com os móveis e demais pertences só aconteceu meses depois. E agora, como vai ser? 500 km de distância! Ponto para a tecnologia. Mesmo a operadora de celular não funcionando tão bem na cidade maravilhosa. Aliás, ela nunca achou o Rio, digamos, tão maravilhoso.

O juramento que ela tinha feito – ainda que de forma despretensiosa – se tornou algo sombrio. Foi colocado para escanteio. Vale o sacrifício por um amigo. Em fevereiro de 2010, estava fazendo seu check-in – novamente – para embarcar rumo ao RJ! É esse o verdadeiro sentido da amizade. De abrir mão e voltar atrás em decisões pontuais.

– Nunca é forte demais!

Um exagero: levou tudo o que conseguiu na mala. Fez força para o zíper fechar. Como uma viagem sem volta para Marte.

– Não posso de jeito nenhum esquecer os remédios para dor de cabeça. Protetor solar. Blusa… blusa de frio, no mínimo umas três. Roupas fresquinhas. O cobertor está aqui. As minhas toalhas! Meu chinelo! O pijama! A saboneteira também.

Um descontrole. Eram apenas algumas poucas horas de estadia. Chegou em um dia de verão. Coitada. Foi de carro. Tranquilidade só na região serrana. Até chegar em Copacabana e o caos se instalar. Todas as notícias ruins da cidade que leu na internet vieram à tona… e situações inimagináveis que poderiam acontecer com ela idem!

Só conseguiu falar com ele pela noite.

– Me tira daqui. (Queria soltar um PQP. O que pensava era “em nome de Jesus, me salvem!”)

No entanto, não havia motivo para tamanho pânico. Ao subir o morro de Santa Tereza, na região central do Rio, e em companhia das linhas dos bondinhos e da rua em calçamento, pensou em voz alta:

– É a cara dele.

Percebeu algo importante. Se o amigo estava feliz por lá, também estaria. Apesar de tantas possíveis adversidades.

Abriu o portão do sobrado da década de 40. A casa foi alugada por ele e mais amigos. Estava em um porto seguro. Orou. Deus garantiu sua integridade física até ali. Subiu as escadas e, ao encontrá-lo, abraçou. Momento ímpar… e confortante, depois de todo aquele pavor. Ele riu… riu… e riu até a próxima pérola:

– Que lugar quente! Não vou comer nada. Só folha de alface. No máximo uma salada completa.

Recusou queijo, tropeiro, cachaça e tapioca. Uma dieta praticamente forçada. Não se cansava de reiterar:

– Está quente! Qua-ren-ta e três graus! Meu metabolismo nem funciona direito.

O outro amigo observa que não poderia viver sem os dois. Impossível. Inconcebível. Hoje fez mais um check-in em Santa Tereza: com os dois. Já contabiliza umas 4 ou 5 passagens pela cidade. Isso depois dela jurar que nunca mais voltaria ao RJ.

A fé move montanhas. A amizade, pessoas.

Mesmo que um deles não se lembrar mais um dia.
Se um deles não se lembrar um dia…

One thought on “Crônica humorada da amizade.

  1. Liliene Dante 18/11/2013 / 15:04

    Confesso que fiquei muito emocionada. Li no mesmo dia em que me falou sobre ele. Devorei cada palavra com a sede de quem as conhece todas, entre Minas e o Rio de Janeiro. É assim que a gente cresce pra virar criança: amando e a mando do coração. Passagens como essas nos movimentam e fazem sim a gente concordar com… “A fé move montanhas. A amizade, pessoas”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s