Breve encontro.

Ela surgiu não por acaso em uma noite de céu ainda claro. Temperatura na casa dos 24 graus, umidade relativa do ar em 70%. O vento estava ideal: chegava como brisa e refrescava. E assim, o sopro vinha entre as montanhas e também movimentava seus cabelos longos. De sotaque baiano e beleza oriental, apesar de dizer que não é descendente. Aparência jovial, de uns 19 anos. Sorriu para ele ao ver uma situação cômica (em um jardim da Praça da Liberdade). Ela transformou o lugar em seu próprio quintal de casa – mora ali perto. Ao sair da faculdade de arquitetura, todas as tardes, repousa na grama… apoiada no coqueiro. Mira bem a rua em calçamento e o coreto do outro lado. Estava sozinha, mas acompanhada pelos seus sonhos.

Trocaram algumas palavras. Apenas. E ele teve a impressão de conhecê-la de outros tempos, outros lugares. Mas não se lembrava.

(E por isso, parou. Os reflexos foram diminuídos. Veio dirigindo para casa como se estivesse encantado. Num ritmo um tanto intocável e automático. Não observava os sinais, as faixas: o anjo da guarda teve trabalho – foram muitos pedidos de desculpa. Estava em êxtase e era a primeira vez que experimentara a sensação. Deixou a roupa de trabalho no chão e vestiu a de dormir pelo avesso. Só percebeu quando sua mãe alertou).

Memórias cariocas.

O tambor que bate dentro de mim reverbera paz.
É um êxtase de sensações.
A palavra outro deveria se transformar em verbo: outrar.
É o ato de ter o outro: o novo, a transformação, a mudança.
Com árvores, anjos e arcanjos: sigo sem medo!
A pedra é a minha casca, minha proteção.
Sou feito de encontros e de pessoas.
Em cada parte de mim, boa parte delas.

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Sonhos.
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Corredor das dualidades.
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Pela Amizade.
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Assim, bem perto das estrelas: é bom.
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Ação.
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Fé.
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Escolhas.
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Hoje.

Alma quase lavada: a prisão dos 7 mensaleiros em Belo Horizonte.

A minha geração – nascida no finalzinho da década de 80 – aprendeu a discernir logo cedo que democracia e corruptos não deveriam combinar. Essa era a lição das horas cívicas de toda sexta, das onze da manhã até às 12; uma disciplina remanescente dos tempos de ditadura. Aliás, o colégio todo se reunia no pátio para louvar e exaltar o Brasil (e mesmo com todos os seus problemas! Há que se gostar da terra que cultivamos e fincamos raízes). Esse encontro dos jovens adolescentes e alunos com os professores ganhou outra roupagem na nova república: nem filosofia, nem sociologia, uma conversa descontraída sobre nós. Por isso sempre repito: meus contemporâneos são duais. Na “grade curricular”, o velho professor de química insistia em demonstrar o que as cargas negativas e positivas tinham em comum, colocando um quê de interdisciplinariedade. “O resultado é uma lei da atração física, universal, aplicada ao nosso cotidiano: lados opostos se atraem”.

O dia 15 de novembro de 2013 foi marcado pela prisão dos mensaleiros. O ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, expediu mandados de prisão para 12 réus. Em volta da sede da Polícia Federal, no bairro Gutierrez em Belo Horizonte, os moradores de prédios classe A se debruçaram em suas sacadas para ver o que muita gente classificou de show midiático. Entre bandeiras de Minas e do Brasil, a TV ao vivo estava lá embaixo. O rebuliço era por conta da entrega dos condenados. Simone Vasconcelos foi a primeira a chegar, ainda de tarde. Logo depois, os outros 6 réus que moram em Minas foram desembarcando de carros importados, um a um. Marcos Valério, o operador do mensalão, chegou de cabeça baixa, em um carro com vidro blindado e escuro. A ex-presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, veio acompanhada dos advogados; estava abatida e com semblante triste. Todos iam cumprir pena em regime fechado: menos o ex-deputado Romeu Queiroz.

A noite pode ter sido longa: os réus passaram a noite ali mesmo. As 2 mulheres em uma cela separada. Tudo sem luxo. Na manhã de sábado, a movimentação de jornalistas continuou intensa. Advogados concederam entrevistas. Pouco depois das 11 da manhã, uma van e carros da PF deixaram o local com os bandidos: sim, bandidos. A imprensa evitou usar esse termo por se tratar de gente rica. Não estavam condenados? Aqui vale uma definição:

  • MENSALÃO: disponibilização de recursos financeiros a partidos e parlamentares em troca de apoio em votações; a formação de “bases aliadas” é facilitada com estes pagamentos, incluindo a mudança de partidos pelos políticos.

Eles foram em direção ao Instituto Médico Legal, no bairro Gameleira, para realizar o exame de corpo de delito. Nas ruas da cidade, muita gente não entendeu do que se tratava o comboio. Ao chegar no IML, a ousadia de Marcos Valério ao se dirigir a um agente da polícia federal que o segurava.

– Incompetência!

A quem ele criticava? O exame durou cerca de 40 minutos. 3 peritos foram disponibilizados para atender os corruptos. Na saída, moradores do bairro cercaram a sede do IML. Eles tinham um recado claro:

– Ladrão, ladrão!

Do outro lado da rua, um agente da polícia federal tentou prender um popular por sua manifestação – digamos – mais incisiva. “Você tem que prender é eles. Não eu, um cidadão que está com sede de justiça. Corruptos são eles!” – Alma quase lavada. A prisão dos mensaleiros é simbólica: não resolve todos os problemas… mas faz nascer uma ponta de esperança, ainda bastante tímida. Esses são fatos históricos que temos prazer de presenciar.

Luiza.

Luiza tem sobrenome italiano e parentesco com um ator e humorista famoso. Um doce de pessoa, de calma excepcional. Calculava todos os passos antes de chegar na sala de aula – ensaiava, involuntariamente, como seria sua trajetória até sua carteira… como abriria o caderno e como seria o intervalo. Sentava bem ao fundo com outras duas amigas. Era a típica tímida, com direito a todos os estereótipos de quem não tem a comunicação como ponto positivo. Quando apresentava trabalho na faculdade, falava baixo. Tão baixinho que certa vez o professor perguntou para o aluno ao lado se ela estava com algum problema.

 – Brigou com o namorado?

Desviava o olhar… pensava muito para argumentar e não escondia o desconforto ao falar em público. Um fato: não queria chamar atenção. Talvez nem desconfiava que seu próprio jeito de ser atraía todos os holofotes – mesmo de forma involuntária, sem aquele esforço que o aluno faz para ganhar os méritos de um destaque acadêmico do semestre.

Quando fazia frio, ia de vestido. No calor, preferia calça jeans e sapatos all star. Usava óculos e, por isso, um tom intelectual tomava conta de sua energia pessoal. O bom é que se transformava nas festas. Sim, eram situações duais… e sem ser geminiana. Na verdade, deixava sair tudo aquilo que reprimia: uma grande mulher, linda e inteligente. Até se arriscava beber alguns copos de refrigerante e dançar como se ninguém estivesse assistindo. Seus passos, em dias mais descontraídos, inspiravam segurança.

Luiza declarou, algumas vezes, que não sabia o que queria ser profissionalmente. Até se encontrar na fotografia (E numa dessas, no laboratório, abri um de seus arquivos sem permissão. Queria saber quem era ela. Uma esfinge. Encontrei sensibilidade). Dias atrás, a procurei na rede social. Continua linda. E, pelas fotografias, parece que descobriu sua verdadeira essência. Se mudou do país: colocou em seu perfil uma foto da infância; outra de uma paisagem europeia e um registro dela mesmo… olhando para o além.

Talvez não pudesse prever que a vida assim seria. De fases. Cada uma ao seu tempo, tendo parcimônia e sabedoria para encará-las bem ao jeito Luiza.

Crônica humorada da amizade.

Ela nasceu para morar no interior. Bem no meio do mato, com barulhinho de grilos e cigarras, sem delongas e correrias, com borboletas azuis e caldeirões para receitas especiais. Daquelas poucas e raras pessoas que têm o sotaque mineiro acentuadíssimo e a simplicidade da Itabira de Drummond. Estudou jornalismo em Belo Horizonte na década de 90. Fez um acordo com sua essência bem antes de terminar o curso: “nunca mais hei de viver nesse caos urbano”. Visita a capital apenas o necessário. E, numa dessas, quando entra no metrô em horário de pico (…) sai rodopiando em meio ao povo em busca do lugar ideal! Empurra. Logo pede desculpa. Distribui bolsadas. E ainda pede calma! Brincadeira saudável, nada muito grave: o coração da menina com olhos brilhantes é enorme. Mas fica um alerta: abre o verbo com os jovens estudantes empacando a passagem. A propósito, ela, por vezes, é exagerada. Muito exagerada. Fala demasiadamente… descontroladamente… perde o fôlego e o retoma rapidamente. Se não fosse assim, teria que ser assim. (E um texto para apresentá-la deve ser bastante grande, pela quantidade de experiências, situações e perspicácia por metro quadrado. Um texto não: deveria ser um livro, com vários capítulos). Gosta de viajar sem rumo; sem amarras! Deseja e anseia o amor. Por ironia do destino e talvez 90% a contragosto, visitou o Rio de Janeiro anos atrás. Jurou: nunca mais ia colocar os pés por lá. Sem meias opiniões. Ou é oito ou é oitenta. Ou gosta ou não gosta.

Ele veio para ser do mundo. Nasceu em Manaus. Tem sotaque universal. Percebeu cedo sua missão. E começou, ainda criança, a viajar pelo país. Afinal, o Brasil tem as mulheres mais bonitas do planeta. Um dos motivos para seu ‘estado’ sempre mudar… Desembarcou em Minas: Divinópolis. Se formou em jornalismo. Letras também. Gosta de samba e, por essa e outras, se mudou de Belo Horizonte para terras cariocas. O Rio de Janeiro é a mais pura tradução de sua alma. Pela boêmia e pelo ambiente que teoricamente respira mais liberdade – e por aí vai. É intelectual. Escreve bem. Todos os sentidos apurados 24 horas por dia. Fala francês. Coleciona encontros. Preserva seus momentos de estar sozinho. Ok, não se engana e coloca em prática o que é: gosta de casa cheia. Dispensa grandes apresentações: o ar de boa malandragem e cortesia fala por si só. Oxalá!

No dia que ele disse a ela que iria se mudar para o RJ… ah, foi um chororô. Ensaiaram uma despedida. Entra ano e nada. A mudança com os móveis e demais pertences só aconteceu meses depois. E agora, como vai ser? 500 km de distância! Ponto para a tecnologia. Mesmo a operadora de celular não funcionando tão bem na cidade maravilhosa. Aliás, ela nunca achou o Rio, digamos, tão maravilhoso.

O juramento que ela tinha feito – ainda que de forma despretensiosa – se tornou algo sombrio. Foi colocado para escanteio. Vale o sacrifício por um amigo. Em fevereiro de 2010, estava fazendo seu check-in – novamente – para embarcar rumo ao RJ! É esse o verdadeiro sentido da amizade. De abrir mão e voltar atrás em decisões pontuais.

– Nunca é forte demais!

Um exagero: levou tudo o que conseguiu na mala. Fez força para o zíper fechar. Como uma viagem sem volta para Marte.

– Não posso de jeito nenhum esquecer os remédios para dor de cabeça. Protetor solar. Blusa… blusa de frio, no mínimo umas três. Roupas fresquinhas. O cobertor está aqui. As minhas toalhas! Meu chinelo! O pijama! A saboneteira também.

Um descontrole. Eram apenas algumas poucas horas de estadia. Chegou em um dia de verão. Coitada. Foi de carro. Tranquilidade só na região serrana. Até chegar em Copacabana e o caos se instalar. Todas as notícias ruins da cidade que leu na internet vieram à tona… e situações inimagináveis que poderiam acontecer com ela idem!

Só conseguiu falar com ele pela noite.

– Me tira daqui. (Queria soltar um PQP. O que pensava era “em nome de Jesus, me salvem!”)

No entanto, não havia motivo para tamanho pânico. Ao subir o morro de Santa Tereza, na região central do Rio, e em companhia das linhas dos bondinhos e da rua em calçamento, pensou em voz alta:

– É a cara dele.

Percebeu algo importante. Se o amigo estava feliz por lá, também estaria. Apesar de tantas possíveis adversidades.

Abriu o portão do sobrado da década de 40. A casa foi alugada por ele e mais amigos. Estava em um porto seguro. Orou. Deus garantiu sua integridade física até ali. Subiu as escadas e, ao encontrá-lo, abraçou. Momento ímpar… e confortante, depois de todo aquele pavor. Ele riu… riu… e riu até a próxima pérola:

– Que lugar quente! Não vou comer nada. Só folha de alface. No máximo uma salada completa.

Recusou queijo, tropeiro, cachaça e tapioca. Uma dieta praticamente forçada. Não se cansava de reiterar:

– Está quente! Qua-ren-ta e três graus! Meu metabolismo nem funciona direito.

O outro amigo observa que não poderia viver sem os dois. Impossível. Inconcebível. Hoje fez mais um check-in em Santa Tereza: com os dois. Já contabiliza umas 4 ou 5 passagens pela cidade. Isso depois dela jurar que nunca mais voltaria ao RJ.

A fé move montanhas. A amizade, pessoas.

Mesmo que um deles não se lembrar mais um dia.
Se um deles não se lembrar um dia…

Os arquivos.

Quando o técnico colocou luvas e pediu para diminuir a intensidade das luzes, logo pensou que estava diante de um grande achado. E era. As prateleiras se faziam grandes e altas; movidas com a ajuda de mãos e manivela. Os corredores não precisavam ser tão extensos… mas o espaço, todo climatizado, esse sim, merecia cuidados pontuais para conservar a papelada toda. O livro de capa em tons marrons veio envolto de uma energia de séculos passados.

– Esse é de 1711.

As páginas, amarelinhas pelo tempo, revelam a mais fina arte da taquigrafia. A tinta era viva, mesmo depois de mais de 300 anos. De lá, o registro de uma das cidades mais antigas do Brasil: Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo. Hoje, Mariana, a cidade-vizinha e irmã de Ouro Preto.

É mais uma – das tantas – riquezas do Arquivo Público Mineiro. O prédio que abriga a instituição – criada em 1895 – fica em Belo Horizonte, na Avenida João Pinheiro. A Constituição Estadual de 1891 ainda está bem preservada: de capa verde, veluda e moldada pelo tempo. Um mapa chama a atenção. Ele divide a cidade de Sabará em comarcas: parte de Vila Rica, parte de Pernambuco, parte do Rio das Mortes.

São documentos históricos preservados graças ao trabalho dos historiadores, sociólogos e demais cientistas.

Por si só.

São de realidades diferentes.
Ela é budista, ele kardecista.
Ela prefere baladas, ele tranquilidade.
Ela não dispensa um encontro com as amigas, ele o silêncio e o ato de estar só.
Ela viajou o mundo, ele ainda não saiu de Minas.
Ela é de maquiagem, ele gosta de natureza selvagem.
Ela tem um ar blasê, ele de simplicidade.
Ela se faz de esquerda, ele vive a esquerda.
Ela é bonita, ele feio.

Por isso, não se tentam.
Arriscam estarem só e por si só.
Mesmo com a troca de olhares e vontade latente.
Querem a possibilidade de terem um com o outro tudo.
De serem uma unidade.
Mas são de realidades diferentes.