Gastronomia no morro.

Pergunto como se escreve de forma correta o nome. “Wanusa. Com W. Com S. Sem V e sem Z.” A cozinheira logo me abordou com uma expressão de alegria. Queria mostrar a receita que conserva há tempos. Tem assa-peixe: fininha, verde e de espessura firme. Uma planta que cresce aos montes no Aglomerado Santa Lúcia, região sul de Belo Horizonte. “É de fácil preparo. A gente pega o assa-peixe e lava. Depois é só passar no fubá e na gema. Fazendo isso separados um do outro. Caiu na panela, tá pronto… crocante”. É servido com sofisticação. Para acompanhar o petisco, uma salada (…) feita também por dona Wanusa. Umbigo de banana, ora-pro-nóbis, azeite, alho e sal. “Delícia”. Ela brinca mais uma vez, dizendo que o assa-peixe é o peixe que não é peixe. De primeira vista, os vegetarianos podem torcer o nariz. Até a primeira degustação.

Ao olhar para o horizonte, o menino observa as casas simples e sustentadas por gente trabalhadora. Vê também a movimentação de jornalistas e chefs de cozinha bem ao lado. Eles vão participar do “Gastronomia no Morro”. O encontro é na Igreja. “Eu chamo aqui de condomínio. É meu lugar”. A frase é de Dona Jovem, que caminha bem serena pelo salão paroquial. Aos 85 anos, prepara um chá dos deuses. Aprendeu a fazer sozinha, conhecimento prático mesmo. No quintal de casa, a erva cidreira. Ela complementa com cravo e canela, para ficar mais saboroso. Água fervida com tudo misturado. Uma bebida saudável que já virou tradição nos encontros da comunidade. Enquanto isso, um corre-corre para finalizar o serviço. No cardápio: galopé, arroz com moranga, sobremesas e sucos. Todos preparados pelos cozinheiros locais. Prova de que é possível comer bem e pagar barato por isso.

O que vê o menino?
O que vê o menino?

O Aglomerado Santa Lúcia é composto por 4 vilas e 3.800 famílias. Também é famoso por abrigar uma das barragens de água da capital mineira. Padre Mauro Luiz é curador do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos. O espaço aparenta estar bem no meio da comunidade. É um centro que recebe exposições para retratar a vida dos próprios moradores. Em um quadro daqueles antigos de escola, a palavra esperança está escrita em giz. Num outro ambiente, as obras de Pelé, um pintor que deixa na tela o cotidiano com muita sensibilidade. As fotografias estão dependuradas e mostram janelas e pessoas. Os objetos por lá também contam histórias: um caneco, uma imagem de Nossa Senhora, algumas bonecas. Tudo faz parte de quem construiu o lugar com fé em uma vida melhor.

Foi num sábado de dualidades – com chuva e sol, frio e calor – que a imprensa foi até a região. Não para mostrar crimes. O assunto? As potencialidades de moradores que desenvolveram um estilo próprio de cozinhar. Eles mostraram as técnicas para quem fez curso superior e gerencia cozinhas requintadas. Teve troca de experiências entre os cozinheiros do morro e dos chefs de restaurantes “chiques” da cidade. O melhor? Daqui pra frente eles vão fazer estágio nesses estabelecimentos. Palavra primeira para essa oportunidade? Empreendedorismo.

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