Álbum de família

Não me esqueço de algumas coisas. O jeito que minha família conduziu a própria vida, por exemplo. Ao completar a maioridade, meu avó deixou a pequena cidade de São Domingos do Prata, em Minas Gerais, para ganhar o mundo. Uma década de 40 com várias contradições e ele, literalmente, tinha o desejo de abraçar o mundo. Toda sexta-feira me encontrava com aquele sujeito de pele morena e cabelos grisalhos. Noites de 1999, antes do mês de maio. Eu o admirava e, deixando o tempo passado para trás, esse sentimento ainda continua. Até depois da barreira física da morte. O senhor de feições indígenas e de tom sério dizia que havia até passado fome e adormecido em cemitério para conquistar o ideal que almejava. Enfrentou chuva, uma grande estrada à pé; mesmo com todas as opções e possibilidades dizendo que nada ia dar certo. Eu tento absorver ao máximo esse exemplo. Para esquecer as tentativas de podar minhas asas e o motivo que estou aqui.

Uma das conquistas foi o primeiro lote próprio, ainda na década de 70. Hoje, observo os registros. A casa simples, de tijolo e com reboco inacabado. O sorriso de minha avó que passava as tardes a costurar na varanda, de frente para árvores centenárias. Hoje foram engolidas pela urbanização. Ainda bem que existem as memórias. A rua era de areia, o muro bem baixinho. Um segredo? Gostaria de ter vivido todo esse período com eles. Pela ingenuidade e serenidade que vejo nas fotos. Pela gentileza que ainda parecia predominar. Encontro outra fotografia ao virar a página. É de um casamento. Meu pai e minha mãe, magros e esbeltos. Assim como todos os jovens entre 24 e 25 anos são. Na próxima página me vejo ainda bebê. Quase não me reconheço: pela fofura, pelos cabelos encaracolados e pela bochecha rosada. Conclusão? A gente muda mesmo não fazendo movimento nenhum ou querendo escapar de quem somos.

Bem ao fim, em uma folha amarela, a imagem do caminhar descalço me conforta. Andar com pés no chão, ciente dos desafios e com calma a cada passo.

Anúncios

Gastronomia no morro.

Pergunto como se escreve de forma correta o nome. “Wanusa. Com W. Com S. Sem V e sem Z.” A cozinheira logo me abordou com uma expressão de alegria. Queria mostrar a receita que conserva há tempos. Tem assa-peixe: fininha, verde e de espessura firme. Uma planta que cresce aos montes no Aglomerado Santa Lúcia, região sul de Belo Horizonte. “É de fácil preparo. A gente pega o assa-peixe e lava. Depois é só passar no fubá e na gema. Fazendo isso separados um do outro. Caiu na panela, tá pronto… crocante”. É servido com sofisticação. Para acompanhar o petisco, uma salada (…) feita também por dona Wanusa. Umbigo de banana, ora-pro-nóbis, azeite, alho e sal. “Delícia”. Ela brinca mais uma vez, dizendo que o assa-peixe é o peixe que não é peixe. De primeira vista, os vegetarianos podem torcer o nariz. Até a primeira degustação.

Ao olhar para o horizonte, o menino observa as casas simples e sustentadas por gente trabalhadora. Vê também a movimentação de jornalistas e chefs de cozinha bem ao lado. Eles vão participar do “Gastronomia no Morro”. O encontro é na Igreja. “Eu chamo aqui de condomínio. É meu lugar”. A frase é de Dona Jovem, que caminha bem serena pelo salão paroquial. Aos 85 anos, prepara um chá dos deuses. Aprendeu a fazer sozinha, conhecimento prático mesmo. No quintal de casa, a erva cidreira. Ela complementa com cravo e canela, para ficar mais saboroso. Água fervida com tudo misturado. Uma bebida saudável que já virou tradição nos encontros da comunidade. Enquanto isso, um corre-corre para finalizar o serviço. No cardápio: galopé, arroz com moranga, sobremesas e sucos. Todos preparados pelos cozinheiros locais. Prova de que é possível comer bem e pagar barato por isso.

O que vê o menino?
O que vê o menino?

O Aglomerado Santa Lúcia é composto por 4 vilas e 3.800 famílias. Também é famoso por abrigar uma das barragens de água da capital mineira. Padre Mauro Luiz é curador do Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos. O espaço aparenta estar bem no meio da comunidade. É um centro que recebe exposições para retratar a vida dos próprios moradores. Em um quadro daqueles antigos de escola, a palavra esperança está escrita em giz. Num outro ambiente, as obras de Pelé, um pintor que deixa na tela o cotidiano com muita sensibilidade. As fotografias estão dependuradas e mostram janelas e pessoas. Os objetos por lá também contam histórias: um caneco, uma imagem de Nossa Senhora, algumas bonecas. Tudo faz parte de quem construiu o lugar com fé em uma vida melhor.

Foi num sábado de dualidades – com chuva e sol, frio e calor – que a imprensa foi até a região. Não para mostrar crimes. O assunto? As potencialidades de moradores que desenvolveram um estilo próprio de cozinhar. Eles mostraram as técnicas para quem fez curso superior e gerencia cozinhas requintadas. Teve troca de experiências entre os cozinheiros do morro e dos chefs de restaurantes “chiques” da cidade. O melhor? Daqui pra frente eles vão fazer estágio nesses estabelecimentos. Palavra primeira para essa oportunidade? Empreendedorismo.

Os dados essenciais, de Carlos Drummond de Andrade.

“Etelberto matriculou-se na Faculdade de Comunicação. Lá aprendeu que toda matéria jornalística bem-redigida há de responder às seguintes perguntas: Quem? O quê? Quando? Onde? Por quê? Como? Impressionou-se de tal modo com a objetividade e o alcance da fórmula que daí por diante, a qualquer propósito e mesmo sem propósito algum, se surpreendia indagando a si mesmo quem, o quê, quando, onde, por quê e como. Matutando horas seguidas, concluiu que não só a notícia, mas toda a vida terrestre deve ser considerada à luz dos seis dados, e esses dados são os da aventura humana. A filosofia não pretende outra coisa senão achar o porquê do quê, e esta chave continua insabida. O como tarda a ser esclarecido totalmente, pairam dúvidas sobre o quando, e muitas vezes torna-se impossível apurar quem é quem. Estamos sempre interrogando a Deus, aos laboratórios, ao vento.

Etelberto passou a ver o mundo como notícia mal-redigida, que o copidesque não teve tempo de reformular, ou não quis ou não soube. Desistiu de diplomar-se em Comunicação. Hoje mantém uma criação de trutas, que lhe rende bom dinheiro. É fornecedor exclusivo de restaurantes cinco estrelas.” – Os dados essenciais, de Carlos Drummond de Andrade.

O dia do professor.

A estatística me atordoa. Um levantamento feito pelo Ministério da Educação (com professores de português e de matemática em todo o Brasil) mostra que 4 mil desses profissionais já sofreram algum tipo de violência. E isso em escolas particulares e públicas, com alunos da quinta a nona séries do ensino fundamental. As agressões físicas ocorrem em salas de aula, nos corredores e na saída dos colégios.

O 15 de outubro – há 50 anos esse foi o dia escolhido para homenagear os professores brasileiros – tem explicação histórica. Era o ano de 1827. O imperador Dom Pedro I determinou, através da revisão de um decreto, a criação da escola básica.  Com isso, a alfabetização, o desenvolvimento da escrita e de pequenos cálculos matemáticos passaram a ser itens fundamentais para garantir um futuro melhor para o país. A medida também estabeleceu o ensino gratuito. Celebrar o dia do professor, assim como diz o documento, é voltar-se para promover solenidades em que se “enalteça a função do mestre na sociedade moderna”.

Tive uma boa dose desses mestres em minha vida. Dona Maria do Carmo, da escola infantil. Com ar de gente brava mas com coração grande. Organizava a turma para tirar foto, para a excursão, para a formatura do terceiro período. Na primeira série, Tia Rose Mary. Incentivava o capricho com as coisas, a organização, a ter serenidade quando preciso. Ainda no colégio, os professores Rita de Cássia Teixeira Tavares Lopes, de língua Portuguesa, Patrícia Amaral, de matemática, Marcelo, de biologia, Valdeci, de matemática, Rosane, de redação, Flora de Geografia… e tantos outros que marcaram para sempre meu caminho como cidadão.

É preciso agradecer. É preciso reconhecer.

Indecisos.

Agora era diferente pelo tom de seriedade no ar. Já haviam saído em várias ocasiões: depois do trabalho, num sábado de calor e naquele feriado prolongado. Nunca sozinhos e sempre em companhia um do outro. Ela descia os três andares do prédio onde morava depois que ele ligava de forma insistente. Reclamava que o celular sempre estava fora de área. Impossível para um local de cidade grande. Entrava no carro perfumada. Nunca davam beijinhos. Emendavam um assunto qualquer, sem grande importância. Os dois se sentiam experientes, não faziam questão daquele jogo todo da conquista. Mas caíam nele sem querer. E isso é o que fazia a relação engraçada – com graça – e saudável.

Num desses sábados, aconteceu o improvável. Ela aparou seus longos cabelos. Um visual diferente e, para ele, mais atrativo. Não só pelo porte físico. Ele também reparou na blusa nova, no batom e nas unhas bem feitas. Um último adendo: reparou mesmo na beleza de espírito em que ela se encontrava. Fez um comentário tímido, recheado de clichê; o típico “você está linda” saiu tão espontâneo, mas tão espontâneo, que a fez sorrir também de maneira espontânea.

Até parecia que praticavam um ritual. Praticamente não se falavam durante a semana… se encontravam, no máximo 2 vezes em um mesmo mês. E nada podia ser marcado com antecedência. Para este encontro por exemplo, ele a chamou no bate-papo de uma rede social. “Vamos ao cinema? Te pego às 20h” foi a mensagem curta, rápida e respondida com um “sim”.

Pararam antes para comer algo. Na praça de alimentação. Ela falava sobre o filho, sobre a carreira profissional, sobre os sonhos. Nunca tinha atinado antes o quanto isso era charmoso.

Tirava casquinha ao começar a sessão. A cada momento de suspense ela o agarrava. Achava um máximo, para não falar em macho alfa. Gostava de seus comentários sobre continuidade. De imaginar com ela um novo final para o filme.

O estranho é que agora era diferente. A magia que se construiu. O coração que batia mais forte. Até que ele perguntou, num ato de desespero e por não saber se planejar com relação a essas coisas – o que muitos especialistas chamam de amor.

– Você pensa em alguém? Pensa em namorar novamente?

– Estou concentrada em outras coisas. Não penso em ninguém não. estou focada em mim mesmo. Um período sabático, talvez. Nem sei se estou pronta para outro relacionamento.

Ou seja, está bom como está. Sem responsabilidades, sem assumir para ninguém, nem para ela mesmo.

Mas ele não estava satisfeito. Era a hora de fazê-la perceber o que também percebeu. A vida é feita de trocas.

Ela ainda não percebeu que suas esquinas haviam se encontrado há bastante tempo.
Ela ainda não percebeu que suas esquinas já se encontraram há bastante tempo. São as linhas tortas da vida.

Girassóis.

Procurando pelo sol. Em busca da luminosidade ideal. Eu levei um susto ao encontrar tantos girassóis no jardim de casa. Simbolizando sorte e felicidade. Que assim seja. Pena que não tinha uma máquina fotográfica com o “macro”. Restou-me a do celular. Valeu o registro para a eternidade.

Assim mesmo: coladinho com a cerca de arame, em frente a porta, espalhados pelo terreno. Terra de quartzo, adubo, água e girassol.
Assim mesmo: coladinho com a cerca de arame, em frente a porta, espalhados pelo terreno. Terra de quartzo, adubo, água e girassol.

O julgamento.

A condição humana de sermos frágeis é a grande prova de que a união, sim, faz a força.

Expressões sofridas, pele levemente queimada pelo sol.
A expressão de felicidade custa a sair. A não ser pela música.
Cantam para aliviar a dor? É para manifestar contra a injustiça deste país.
Eu passo pela algazarra como se fosse invisível.
Mesmo assim, observo as cores e os cheiros.
As almas que pulsam por dias melhores.
São pessoas que vieram de Felisburgo. De mala e cuia para a capital.
Não sabem por quanto tempo vão ficar por aqui.
Crianças, adultos, senhores.
Hoje tem sanfona e pandeiro na porta do fórum Lafayette.

Me credencio e vou para a sala do júri.
Duas pessoas respondem pelo crime.
Crime não, chacina.
5 pessoas mortas em um único dia de 2004.
9 anos se passaram. Menos a memória daqueles que se foram.
No horário do intervalo, a repórter procura pelas fontes.
Uma senhora demonstra cansaço. Os seguranças trabalham desde às 7 da manhã.
Já é noite.
A sentença só vai sair quando o sol raiar novamente.

Vejo os jurados, o juiz, os que cometeram o crime.
Um senhor comenta com outro:
– Quanta falta de amor.
Eu mentalmente concordo.
Falta ética também. Falta também mais compaixão pelo próximo.
Falta eu me deixar emocionar com relação às coisas. Com essas coisas.
Elas são duras. E por isso penso: as lágrimas deixariam tudo mais maleável.
Viver é difícil. Conviver ainda mais.