Feminina.

Todos os dias ela está com um salto alto diferente. Preto, vermelho, amarelo, bege, violeta e até mesmo azul com bolinhas brancas. Passa primeiro pelo
tablado de madeira para anunciar que chegou. Não anda; desfila. Checa a maquiagem. É ritual antes de entrar no prédio em que trabalha. Não quer se abordada por algum eventual desleixo. Deseja olhares e comentários femininos e, principalmente também, masculinos. Passa o cartão, assina alguns documentos na entrada. Pega as encomendas e esbanja as unhas vermelhas cuidadosamente bem feitas para o porteiro e para a senhora da faxina. “Hoje, mais do que nunca, ela está atacadíssima”, comenta uma mulher com outra que espera a amiga do décimo primeiro andar para o almoço. Ela chama o elevador e se vê refletida no espelho da parede. Gosta do que vê e do que não vê: feminina, cheirosa, decidida. Resolveu colocar preto e fazer umas mechas diferentes no cabelo para se destacar. É mais Elke Maravilha, extravagante, livre pensadora.

– Bom dia.

Faz uma cara blasé… e também gosta de simplicidade. Sabe se adaptar aos mais diferentes ambientes, bem ao seu modo. Trabalha bem as
personalidades. Ri de si mesmo ao estar concentrada demais. Ninguém entende a loucura… é assim e pronto, sem questionar. Levanta depois de meia hora
resolvendo problemas. Pausa estratégica para o café. Ouve conversas, faz fofoca, faz social. Ao voltar, descobre que a filha não está bem no colégio. Faz
algumas ligações. Esperneia, grita, chora. Promete mundos e fundos. Exige da filha estudo e foco. Diz que vai pagar aula particular e cortar a internet da própria casa.

Já é o horário do almoço e ela avisa que não vai voltar. Pega a chave do carro. Sai sem destino… tira os saltos, se descabela ao andar na praça do Papa. Quer
sentir vento na cara, cheiros inconfundíveis, o azul do céu. Ela cresceu muito rápido e teve desde muito cedo muitas responsabilidades. Quer resolver os
problemas familiares. A disputa judicial tira o foco e a energia de sua vida. Se desespera ao pensar perder o controle da situação.

Ao anoitecer, vai para a casa. Pensa numa aposentadoria saudável. Torce para que a filha se forme em medicina. Dois coelhos em uma cajadada só: não precisaria de pagar um plano de saúde e teria uma médica exclusiva para cuidar da sua saúde. Mas já sabia que isso seria bastante improvável. No fundo, não queria ter uma vida padrão. Nem pra ela, nem para seus familiares.

Furacão.
Furacão.

 

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