Deus me protege.

Foi a primeira vez que a vi brava. Bravinha, no diminutivo – sem querer ser machista ou diminuir sua importância. É que soa mais feminino, do jeito que ela sabe ser e é. Uma breve descrição de sua forma física: cabelos pretos, pele branca, olhos castanhos e bem marcantes: assim o era pois quando nasceu tinha necessidade de prestar atenção no mundo e nos seres a sua volta. Magra, com batom vermelho. Quando entra em algum lugar é mais contida do que explosiva; discreta, como foi criada. Sim, chama a atenção pela beleza. Associado a isso? Simpatia, inteligência e sorrisos largos e leves. De deixar qualquer homem de queixo caído por n fatores. Gentileza deveria ser o sobrenome dela. E também simplicidade, atenção e por aí vai. De vez em quando, é possível encontrá-la com alguns olhares perdidos. É perfeccionista com o trabalho. Lê os mesmos relatórios infinitas vezes a procura de erros. Mais profissional do que qualquer outro profissional.

Está se formando; a primeira graduação ninguém esquece. Outro dia trouxe argumentos por não entender algumas falhas da educação brasileira. Disse que estudou em instituição pública e lá se formou no ensino médio. Quando via que tinha faltado algo no cardápio escolar, algum contéudo que não fora abordado em qualquer disciplina, corria atrás. Sem medo dos números, fórmulas químicas ou das regras gramaticais. Ia fazer a diferença mais tarde, em qualquer tempo, em qualquer direção. O objetivo é tornar o ‘qualquer’ numa experiência que a engrandeça ainda mais! Ninguém precisava ditar seus caminhos. Tinha um quê de independente… mas não deixava de pedir conselhos aos pais. Atenciosa com a avó. Todos os ouvidos para os irmãos.

Ao chegar no estágio resolveu desabafar. Anda preocupada com o famoso trabalho de final de curso. Os capítulos tiram suas noites de sono. Como pode haver tanto estudante sem compromisso? Ela mesmo tem vários, cumpridos a fio! A faculdade pela manhã, o estágio no horário da tarde/noite… o encontro com a família pós-trabalho. E ainda sobra tempo para, digamos, estudar e dar o seu melhor. Ideologia dos vinte e poucos anos: Podemos mudar o mundo com nossas atitudes. Não pode dizer o mesmo sobre esses colegas em específico.

– Eu falei. Olha, por mim, você pode sair do grupo… Se continuar desse jeito, vai ficar ainda mais díficil.

Está sofrendo do problema crônico da monografia em grupo. E disse a frase sem titubear. De coração aberto. O professor que orienta o trabalho sempre faz charme. Bom entendedor ele é. Ela é a aluna preferida e a mais aplicada. E ele sabe que ela é a verdadeira responsável pelas revisões no texto final do projeto de conclusão de curso. A única que pesquisa e escreve bem. Mas, claro, não quer deixar isso explícito. Faz parte da relação aluno/professor. Nem a psicologia explica. No balanço final dessa equação, ela tem um pensamento firme e talvez não-impermanente: não vale enganar a si mesmo, nem os outros. Voltando ao adjetivo: bravinha. Mesmo bravinha é delicada! Fala com amor. Não tem mágoas no coração (…) nem depois de situações penosas. Espírito livre, daqueles puros, que emana parcimônia. Queria seguir! E sem prejudicar ninguém. Apenas praticando a paciência.

– Contei tudo isso aos meus pais. Eles me disseram que preciso orar mais. E vou fazer. Com fé. Deus me protege.

Disse a frase em um verdadeiro sotaque mineiro, com ternura no modo de falar. Sem querer, vez ou outra, alguém pergunta se já tem namorado. Ela responde que não. E acrescenta que essas coisas acontecem, que não está a procura de ninguém… Os ventos e o tempo se encarregam de resolver. Ora! E já tem gente querendo inverter a ordem natural das coisas para conquistá-la… também, quem é que não quer uma mulher assim, caminhando bem ao lado em todos os momentos da vida?

Declarou ser leitora de Xico Sá – o cronista no qual as mulheres se derretem. Fotografa bem; tem uma fotogenia espetacular. Não é modelo; poderia ser. Optou pelo conhecimento, de ser eterna aprendiz. O que a move são as histórias. Como a dela: sem tirar, nem pôr; sem cortes, com todos os ideais e um grande caminho pela frente.

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