O passar do tempo.

Só por algumas vezes eu permito a me observar e encontrar alguma beleza na minha própria imagem. É que quando achamos que temos alguma, aplica-se a possibilidade de ser um tanto adepto do narcisismo. Não é o meu ideal. Mas é que, vez ou outra, gosto de ficar admirando como o tempo me moldou e vai me moldando. As primeiras rugas, as outras marcas de expressão, o cabelo torto com redemoinho. A visão afetada pelo astigmatismo e os óculos um tanto desajeitados na face. É essa beleza que me atrai, conquistada pelo passar dos anos e com muito mérito.

Vejo e sinto os fios: um reparo pequeno, tosado com grandes cuidados… a diferença é grande: menos costeleta, menos cabelo na testa. Resultado? Visagismo capaz de mudar até mesmo a fisionomia. Saudades dos cabelos encaracolados. De ter permissão para fazer quantas voltas quiser e brilhar ao sol. Hoje, estão padronizados para uma vida extremamente comercial.

Eu gosto do jeito que os anos passam para mim… São generosos.

Da vontade pulsante de ainda permanecer jovem e amadurecer apenas o necessário. Desse jeito estabanado de ser. Da inconstância. É assim: descobrir mais um pedaço da identidade a cada ano. É prazeroso.

Trabalhado pelo tempo, em P&B. Assim se vão os anos, os amigos e os planos.
Trabalhado pelo tempo, em P&B. Assim se vão os anos, os amigos e os planos.

Edifício Acaiaca – Belo Horizonte.

Em tempo. O domingo foi uma peregrinação pelos principais prédios de Belo Horizonte. São de caráter privado… mas têm um quê de públicos. Eles já são parte do nosso cotidiano, formadores de uma identidade que atende por capital das montanhas. O edifício Acaiaca, segundo a prefeitura de BH, tem 120 metros de altura e 30 andares. Eu parei no décimo sexto.  E ainda olhei pela varanda. Sensação de vertigem. Foi inaugurado na década de 40, época da segunda guerra mundial. Faz uma tríplice com as principais vias da área central: Afonso Pena, Espirito Santo e Tamoios. Abrigou a falecida TV Itacolomi.  Já teve espaço para boate, onde os mais ricos circulavam em busca de diversão. Hoje recebe os visitantes com um grande letreiro azul.

Do décimo sexto andar, os prédios e a Igreja.
Do décimo sexto andar, os prédios e a Igreja.
Head over feet.
Head over feet, ver a cidade como ela é.
A portaria.
A portaria.

Belo Horizonte: A cidade que me oferece alívio. Cenas do cotidiano.

Parece que, aos poucos, vou selando a paz com Belo Horizonte. Abaixo alguns bons motivos para isso. Esta é a cidade que escolhi para viver. É a capital das alterosas, com  montanhas milenares de minérios.

O novo prédio do CCBB-BH, na praça da Liberdade.
O novo prédio do CCBB-BH, na praça da Liberdade.
O dia que a presidente Dilma visitou BH.
O dia que a presidente Dilma visitou BH.
Feito uma estampa!
Feito uma estampa!
A Praça da Estação, de chegadas e partidas.
A Praça da Estação, de chegadas e partidas.
Algum letreiro perambulando por aí.
Algum letreiro perambulando por aí.
A prefeitura.
A prefeitura.
O casarão da região do centro.
O casarão da região do centro.
Arquitetura singela.
Arquitetura singela.
O prédio da praça 7.
O prédio da praça 7.
O novo hotel, perto do Arrudas.
O novo hotel, perto do Arrudas.
O meu varal.
O meu varal.
Em alguma avenida...
Em alguma avenida…
JK.
JK.
Rua da Bahia.
Rua da Bahia.
Bondosa.
Bondosa.
O hotel.
O hotel.
A casinha abandonada.
A casinha abandonada.
Igreja de São Sebastião.
Igreja de São Sebastião.
JK 3D.
JK 3D.
Oriente-se.
Oriente-se.
Da Raja.
Da Raja.
Do morro!
Do morro!
Do centro.
Do centro.
Meu caro viaduto.
Meu caro viaduto.

A sexualidade alheia.

Este sou eu, sem cortes. E sei muito bem quem sou: os defeitos, os acertos, o jeito, o que preciso mudar… Afinal, são 25 anos dedicados a me descobrir em todos os âmbitos! E poxa, mais uma vez, são duas décadas pra isso. Se não souber quem sou, tô perdido. É coisa de gente precoce, o que sempre fui. Claro que não estou pronto. Há muito o que aprender. Mas aqui me refiro sobre a minha própria essência, o que é imutável. Cresci assim: um tanto extrovertido, por outras vezes bastante tímido. Apesar de ter essas posições duais, sou apenas um só – com redundância mesmo! Algumas vezes ouço piadinhas ou comentários maldosos referentes a minha pessoa. O que não me preocupa e nem me torna inseguro. Eu deixo que passem por mim; sem retrucar, fico na boa e velha esportiva. O famoso ditado “pérolas para porcos”. Os esteriótipos que colocam, ah, confesso, me rendem boas gargalhadas.

Eu acho muito estranho algumas posições que parte da sociedade assume e faz questão de colocar em prática. Alguns exemplos: homem sensível? Gay. Homem que tem letra bonita? Gay. Homem que chora? Gay. Mulher que joga futebol? Sapatão. Mulher que não se cuida? Sapatão. Mulher que fala grosso? Sapatão. Mulher que não quer se casar? Sapatão. Uma conclusão despretensiosa? Ser homossexual, mesmo nos dias atuais, na era do conhecimento e da informação, não deve ser fácil. Vejo que são condenados, taxados de ruim, tratados sem parcimônia por muita gente que se diz liberal.

Tenho amigos que são e me contam casos que me fazem, por um instante, desacreditar no ser humano. Enfim, Milton Nascimento já cantou, qualquer maneira de amor vale a pena. Essa questão de estar dentro do armário, o que muito colega me perguntou por causa de um infeliz que postou uma frase de mau gosto no meu facebook – o que me fez preparar esse ‘esclarecimento’ sobre a sexualidade alheia (a caixa de mensagens lotou e o telefone não parou de tocar por causa disso!): não teria paciência e estômago para ficar por lá. Ser transparente é uma das minhas características. O ato de ser feliz também. Mas, cara, fico imaginando uma coisa. E quem está e tem que ouvir que está, sendo apontado n vezes? Que porre! As pessoas não se mancam o quão inconveniente deve ser. O processo de mudança começa conosco. O outro, imagino eu, pouco pode fazer nesse caso… a não ser complicar ainda mais. A pensar.

Feminina.

Todos os dias ela está com um salto alto diferente. Preto, vermelho, amarelo, bege, violeta e até mesmo azul com bolinhas brancas. Passa primeiro pelo
tablado de madeira para anunciar que chegou. Não anda; desfila. Checa a maquiagem. É ritual antes de entrar no prédio em que trabalha. Não quer se abordada por algum eventual desleixo. Deseja olhares e comentários femininos e, principalmente também, masculinos. Passa o cartão, assina alguns documentos na entrada. Pega as encomendas e esbanja as unhas vermelhas cuidadosamente bem feitas para o porteiro e para a senhora da faxina. “Hoje, mais do que nunca, ela está atacadíssima”, comenta uma mulher com outra que espera a amiga do décimo primeiro andar para o almoço. Ela chama o elevador e se vê refletida no espelho da parede. Gosta do que vê e do que não vê: feminina, cheirosa, decidida. Resolveu colocar preto e fazer umas mechas diferentes no cabelo para se destacar. É mais Elke Maravilha, extravagante, livre pensadora.

– Bom dia.

Faz uma cara blasé… e também gosta de simplicidade. Sabe se adaptar aos mais diferentes ambientes, bem ao seu modo. Trabalha bem as
personalidades. Ri de si mesmo ao estar concentrada demais. Ninguém entende a loucura… é assim e pronto, sem questionar. Levanta depois de meia hora
resolvendo problemas. Pausa estratégica para o café. Ouve conversas, faz fofoca, faz social. Ao voltar, descobre que a filha não está bem no colégio. Faz
algumas ligações. Esperneia, grita, chora. Promete mundos e fundos. Exige da filha estudo e foco. Diz que vai pagar aula particular e cortar a internet da própria casa.

Já é o horário do almoço e ela avisa que não vai voltar. Pega a chave do carro. Sai sem destino… tira os saltos, se descabela ao andar na praça do Papa. Quer
sentir vento na cara, cheiros inconfundíveis, o azul do céu. Ela cresceu muito rápido e teve desde muito cedo muitas responsabilidades. Quer resolver os
problemas familiares. A disputa judicial tira o foco e a energia de sua vida. Se desespera ao pensar perder o controle da situação.

Ao anoitecer, vai para a casa. Pensa numa aposentadoria saudável. Torce para que a filha se forme em medicina. Dois coelhos em uma cajadada só: não precisaria de pagar um plano de saúde e teria uma médica exclusiva para cuidar da sua saúde. Mas já sabia que isso seria bastante improvável. No fundo, não queria ter uma vida padrão. Nem pra ela, nem para seus familiares.

Furacão.
Furacão.

 

Sobre o ato de dirigir nas grandes cidades brasileiras.

Dirigir em Belo Horizonte se tornou uma aventura – que nem pode ser considerada daquelas que você experimenta em um parque de diversões. Um único motivo para isso. No final, nem tudo fica bem (no parque, a adrenalina é saudável). Como se fosse um campeonato: longe do esportivo, que incentiva o espírito de equipe, crescimento pessoal e que, em alguns casos, há premiações. No torneio do trânsito, muitos motoristas parecem ter prazer em não praticar a gentileza urbana. Aceleram para bater no outro e para atropelar pessoas. Não sabem esperar. Complicam. Esquecem a abençoada da seta/pisca/sinal e acreditam cegamente que o outro tem o poder da adivinhação. Fora o festival de palavrões, ânimos acirrados, gritaria, buzinas e mais… Direção defensiva? Ficou nas apostilas teóricas dos cursos de habilitação.

Não quero ser hipócrita: claro, quem nunca praticou alguns dos tais erros no trânsito? É a cultura dos pedestres e motoristas! Falta educação e mais campanhas educativas pra mudar? O que quero destacar também é a loucura ao dirigir; o caos silencioso instaurado nas grandes cidades brasileiras (e particularmente em Belo Horizonte) e que vai definhando quem precisa estar nas ruas. Hoje mesmo vivi uma experiência surreal, de um senhor me seguir, piscar o farol a todo momento, buzinar, acelerar nas estreitas ruas do bairro Santo Antônio para me falar que a juventude incomoda. Sendo bastante sincero, não o fechei, nem cometi nenhum erro que justifique a atitude, pra perder a cabeça do jeito que foi. Tive que parar meu veículo em plena Avenida Nossa Senhora do Carmo e pedir calma para ele. Repito, um senhor que aparentava ter uns 60 anos, irritado pelo fato de a juventude ser irresponsável, sem regras e limites. O senhor esperneava, esbravejava e batia as mãos com força no volante. Eu, quase sem voz, não acreditava na cena e só pedia serenidade. Pensei que ia sacar uma arma e atirar. Levei alguns bons minutos para ter coragem de ligar o carro e prosseguir. Outro dia, uma senhora em uma das ruas do bairro Sion estacionou na minha frente. Desceu do veículo e foi xingar uma caçamba de lixo. Ela parou todo o trânsito para reclamar com uma caçamba – que aparentemente estava em um local correto, identificada e sinalizada; sem trazer retenções. A mulher não respeita a parada obrigatória, entra na rotatória sem olhar e quase atropela três crianças que estavam na faixa! Os pedestres e motoristas a alertam. E recebem um dedo do meio como resposta.

Venho notando que as reclamações são frequentes. De gente sendo assaltada no trânsito, de acidentes, de congestionamento, de falta de amor ao próximo. Um mau humor generalizado. Não sei se é ingenuidade. Mas, cara, que inferno é este em que estamos, como chegamos até aqui e como vamos continuar desse jeito pra pior?

Sem mau humor.

Por muito e muito tempo, a gente tem uma visão de mundo concebida pelos nossos próximos. Hoje, cordões cortados, dificuldades superadas.

Fui ter uma segunda-feira sem mau humor, como recomendou Drummond.  Ou melhor, colocar minha vida para caminhar.

Sol indo.

Belo Horizonte amanhece.

A casa abandonada da praça.

Guajajaras.