Mineração: o ouro perdido que transformou Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais.

Há alguns anos, haviam apenas 2 principais entradas para Conceição do Mato Dentro, região central de Minas Gerais. Uma passando por Itabira e seguindo até Senhora do Porto. O outro caminho é pela MG-010, de Belo Horizonte, cortando as montanhas da Serra do Cipó. O progresso por lá chegou: asfalto e também um aeroporto; o que eleva o número de entradas para 3. 

O passado ainda se faz presente na cidade. Mas sua tranquilidade foi coada depois que a exploração de minério começou, segundo alguns moradores. 

Após uma viagem de quase 3 horas, o ideal mesmo é seguir as placas quando está sem destino. Desembarquei em uma das áreas centrais. Um mercado – de arquitetura antiga – uma igreja e também um coreto (Tripé que normalmente caracteriza as cidadezinhas mineiras). Estava com fome; e o primeiro lugar que parei foi numa padaria. Alguns rapazes sentados na porta, cheiro de cerveja e muito mosquito ao redor dos pães, pães de queijo e roscas. A moça que me
atendeu tinha um quê de preguiça, mas respondeu as perguntas e me tratou com toda hospitalidade mineira. Pedi um suco de lata e um biscoito… O preço estava um tanto inflacionado para um estabelecimento de cidade aparentemente tranquila. Era sábado. “Hoje o movimento por aqui está fraco. Fim de semana é assim, o pessoal não gosta de ficar na rua nesse horário. Não tem muita coisa pra fazer… aí o povo fica em casa, assistindo TV”, disse a menina de uns 18 anos. 

Estava com uma amiga, também jornalista, que logo tratou de procurar um banheiro na venda ao lado. Venda de balas, alguns salgados e algo para beber. A menina que ali atendia também era responsável pela limpeza. “Acho que a cidade está muito suja de uns tempos pra cá… Muita gente de fora. Eu mesmo tenho medo de sair de casa sozinha. Só tem homem na cidade… e homem de outras cidades! A mineração deixou tudo mais caro. Aluguel aqui era 300 reais. A Mineração chegou e tem gente pagando 1.000 reais em uns quartinhos”. Resolvemos caminhar. Impossível não notar a sujeira nas ruas.

Em uma das igrejas católicas, um anexo que 
parecia um hotel. O moço, com chapéu na cabeça, logo informou: “Ai não é hotel. É a morada dos padres… de muito luxo para um distrito desse tamanho, né, menino?” 

Ao cair a noite, resolvemos procurar um hotel. Pegamos algumas informações em um barzinho – bem estruturado, com TV de plasma e atendimento VIP. Subimos até a parte histórica de Conceição do Mato Dentro, próximo ao pirulito. No primeiro que paramos, ficamos. Fomos atendidos por Rosilene, uma distinta senhora de boa educação. Ela nos mostrou um dos quartos disponíveis. Ficamos por lá mesmo: 40 reais a diária para cada hóspede – um dos preços mais em conta. Dona Ilda, a proprietária, nos contou sobre a história do lugar. “É um prédio que tem mais de 100 anos. Ubaldina, minha tia, era a dona… eram outros tempos. Hoje, o hotel é tombado. Para fazer qualquer mudança aqui, eu preciso conversar demais com as autoridades, com os governos. É um custo, mas eu cuido bem daqui. Olha só a fiação, que beleza. Troquei tudo. Administro tudo. E já tenho 83 anos, bem vividos. Já fui professora, sabe? De educação física. Tem muito aluno que vem ao hotel só para me rever. É uma alegria.”

Quisemos fazer um passeio pela noite. Comemos em um restaurante, digamos, mais elitizado – ou que pelo menos se parecia mais elitizado. A conta final? 52 reais. Uma pizza pequena, omelete e duas latas de refrigerante. Ao andar por Conceição, a descoberta de um novo mundo para os moradores. “Aqui já foi tranquilo. Não mais”. Ou aquela máxima, “a mineração estragou a nossa serenidade. Olha essa avenida, cheia de homens. Parece Serra Pelada”. Outros eram críticos quanto a economia. “Dizem que o dinheiro está aqui… sei não! A gente sempre viveu sem a mineração e chegamos onde chegamos. Tá tudo muito estranho”. 

Ao chegar novamente no hotel, presenciamos uma cena um tanto estranha. Um rapaz, encostado em um poste, dizia ao celular: “Eu quero um revólver! Ele me deu um tapa na minha cara”, exclamava. Ficamos preocupados: tinha uma faca em mãos. Apressamos o passo. 

Uma mulher, de feições sofridas e que também viu a cena, afirmou:

– A culpa é da mineração. O ouro perdido e que está acabando com nossa cidade. A gente só quer paz. E só.

Na janela do meu quarto.

Eu gosto do inverno pelo tempo de introspecção. Por compartilhar com o frio todas as minhas falhas. Sábado! Foi o dia de passar a limpo. Ao conversar com Dona Neide, a mãe do rapaz que morreu ao caiu do viaduto da Avenida Antônio Carlos nas manifestações em Belo Horizonte, uma força me atravessou e me derrubou. Como se eu me emprestaste, de forma temporária e sem pedir licença, à dor daquela mulher – ou de maneira egoísta, quisesse sentir tudo aquilo também. Dor de perder o filho de 21 anos.

Algumas vezes, observando a janela do meu quarto, me pego pensando em coisas que não gostaria de pensar – pelo menos por agora. Como vai ser o meu eu daqui há 25 anos? Se chegar lá, ficarei contente e realizado com toda minha jornada ao projetar o futuro? Será que terei parcimônia comigo mesmo? Tenho amigos que me alertam: aproveite sua juventude. Aí tenho vontade de fazer isso do melhor jeito inconsequente e sem limites. Me alertam novamente: não, não é assim que se chega lá.

Aquele dilema! Mais amigos vão se casar este ano. O meu desespero só aumenta… mas pelo avesso: eles se casam tão cedo, tão jovens! Há que se ver o mundo primeiro, sentir os benefícios de estar consigo mesmo, curtir a ato de estar solteiro. Já declarei aos meus pais: não vim a este mundo para casamentos. Um filho, um dia, quem sabe. Fique claro, não é prioridade. Talvez seja mais egoísmo da minha parte. Nasci com espírito de mochileiro. Falta colocar em prática e parar de ser ranzinza.

Mochileiro, minha outra face.
Mochileiro, minha outra face.