Uma observação.

Me chama para conversar pela internet. Diz que sou enrolado. Vive me convidando para tomar uma cerveja. Eu logo desconverso e afirmo que me falta dinheiro para tanto. N’outro dia, insiste. Conta algum caso pessoal, como as últimas aventuras amorosas. Me desinteresso e penso como posso afirmar alguma coisa sem a interação face a face. Eu a conheci de uma maneira não muito convencional. É impublicável: por razões íntimas e que não cabem aqui. Cabelo loiro, beirando os 28 – em plena fase do pré-retorno de saturno. Ela nem desconfia das próximas transformações. Tem feições de modelo. Mas se interessou mesmo pelas ciências contábeis. Reclama. No seu trabalho, tudo está desorganizado e não sabe como está lá até hoje. Tem vontade de colocar planos infalíveis em prática… falta um tanto de coragem.  

Intensa, como toda mulher deveria ser. Não esconde sentimentos e dispensa conceitos prontos da sociedade atual. Perfumada. Com o cheirinho de sua essência. Amorosa, como todo ser humano de bom coração. Ela vai e vem pelos corredores do supermercado. Pega, olha, anota. Quer fazer a melhor compra. Dá o máximo de si todos os dias. 

Mas o que me deixa boquiaberto é seu sotaque. De Divinópolis. Lindo: mistura de Minas e São Paulo. Peço para que fale porta. Porteira. Portão. 

Ela sorri e atende, para alívio de meus ouvidos, meu pedido. E o melhor, com humor sensacional. 

Anúncios

Tudo trocado.

Leio no horóscopo que o tempo para o geminiano é de aquietação. O outono traz a temperatura ideal para o signo: noites frias e tardes quentes. Ao contrário do que diz a medicina, a inversão térmica em poucas horas fortalece o nosso sistema imunológico. Nos adaptamos muito bem a mudanças repentinas e torcemos por elas. O interessante é que, pela primeira vez, consegui a inverter a ordem natural das coisas que acontecem em minha vida. Pois bem, tenho uma relação muito forte com as estações do ano. O verão é tempo de abertura, de gastar todas as energias acumuladas nos últimos meses. O outono, época de se preparar para uma fase mais introspectiva. O inverno, o tempo de balanços. O que aprendi nos últimos meses? O que planejar para os próximos dias? E a primavera, a estação do florir. De arrematar todo o aprendizado do outono. De perfumar e se encantar com a vida.

Imagem
Tudo trocado.

Não foi assim. Estranho viver um verão introspectivo: aquele de questionar sonhos e confrontá-los sem medo. De avaliar possibilidades. Agora, o outono. Começou em crise e a tempo de sair dela. De ver quais são as novas possibilidades que a vida coloca para você. De começar a viver metas e vencer etapas. Tudo trocado. Será que o aquecimento global afeta nossa posição natural de ver as coisas?

 

Contabilidade dos sonhos.

E quando dois sonhos se confrontam? Há receita para acabar com esse problema? Vejo a escritora dizer, em um programa de televisão, que sim. É só pedir ajuda ao anjo da guarda. Ela alerta: apenas pensamentos positivos. A explicação é simples: há anjos bons… e também aqueles que são do mal! Conclusão minha? Encontramos até dilemas na hora de pedir ajuda aos céus. Não daria para simplificar? Impossível. Eu ainda nem sei o nome do meu próprio anjo. Mesmo assim arrisco. Peço com fervor e com toda vontade de encontrar a mola no fundo do poço. Agora, realmente: existem algumas coisas na vida que não basta apenas nosso ego querer. É preciso de um jogo de fatores para mudar.

O fato é que quando a vida chega naquele ponto de muitas perguntas é tempo para mudar. A gente é treinado desde cedo para observar os sinais. É o clichê mais presente hoje na sociedade: fuja da zona de conforto – como se tudo fosse muito fácil. Parece que não haverá tempo para realizar todos os sonhos. Cruel é se decidir, por um instante, por apenas um. Como se contabiliza isso?

Vapor dos sonhos. Foto: Liliene Dante
Vapor dos sonhos.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.
Cidade das luzes.

Incêndio na Vila da Paz

A senhora está tão desesperada que até troca o próprio nome.

– Eu me chamo Lourdes.

A sobrinha logo alerta:

– Tia, seu nome é Rute. Rute, tia!

Desconcertada, ela se divide entre acomodar os móveis em local seguro e fazer o almoço para a criançada. Frango frito, arroz, feijão e uma saladinha. O viaduto do anel rodoviário de Belo Horizonte é seu teto. A cada pitada de sal que coloca, a casa feita por tijolos e madeira treme.

– É assim desde o começo. Já me acostumei… Você vai querer um prato de comida?

É vida nua e crua, que nenhum jornal impresso ou televisivo vai conseguir retratar. Dona Rute é bem articulada. Lamenta o descaso por parte do governo. Pede um novo lar. Está ali há mais de 15 anos. Sobrevivendo – ela pede para ressaltar. O fogo começou por volta das duas da tarde. Hora maldita para mais de 10 famílias que perderam seus pertences. Dos barracões, sobrou pouco. Ou praticamente nada. Teve agonia e choro. William andava de um lado para outro. Quando ficou sabendo da notícia, veio correndo do trabalho. Perdeu a TV, a cama, os documentos e as poucas roupas que tinha. De momento, estava preocupado com seus gatos.

– Eu não achei meus gatos até agora… (engole seco!) O que vai ser de mim?

William mora sozinho. Já Damião, com a esposa e os dois filhos. Ele veio da Bahia. Trabalha perto de onde ficava seu lar. Quando viu a fumaça, quis não acreditar que a tragédia estava em seu pedaço de terra.

– É muito triste, menino. Triste…

O olhar é distante. O corpo de Bombeiros faz o trabalho de rescaldo. Nenhuma vítima. Os botijões são colocados longe dali. O cheiro de fumaça é forte e algumas crianças começam a tossir. A Vila da Paz abriga cerca de 100 famílias e fica na região nordeste da capital. Em dias comuns, a única via de lá é utilizada por motoristas que desejam ir do Bairro Universitário para o Palmares. Num 23 de abril, virou notícia. Todos queriam saber o que houve. Talvez um curto circuito em algum dos barracões. Pode ser que sim… ou não.  Essa não é a primeira vez que o fogo leva preocupação aos moradores.

A Defesa Civil chega com colchões e faz o cadastramento das famílias que perderam tudo. O defensor público alerta:

– A justiça determinou que 11 famílias em situação mais grave aqui da Vila fossem retiradas imediatamente… Mas a Urbel não fez isso.

A prefeitura afirma que está esperando o projeto do DNIT para a reforma do Anel para remover as famílias.  A senhora grita:

– Podem nos remover… Mas não queremos ir para o abrigo!

Enquanto a confusão não se resolve, um senhor que tem uma loja bem ao lado da Vila, uma espécie de topa tudo, coloca para tocar música evangélica. Bem alto – mesmo! Da janela de sua casa, ora e reza. Talvez é só com a ajuda Dele que as coisas se resolvam.

O nome da Vila? Paz.

DSCN1418

Quase pronto.

Por um lapso de tempo, me pego analisando algumas possibilidades de trajetórias e caminhos. E se for por aqui… escolher tal jornada… e abrir mão dessa! Como vai ser se (…)?  O bom é que todas as frases terminam com reticências. Há sempre, portanto, o desejo de recomeçar e continuar. De uns anos pra cá, comecei a admirar mais o poder da fotografia. A imagem estática, congelada, é mais enigmática e dinâmica daquela que está em movimento. É sublime quando você percebe alguns detalhes depois de algumas observações. Eu ainda não registrei a fotografia da minha vida. Apenas imagino como vai ser. Pode ser em Montevidéu, a capital do Uruguai. Em meio a prédios, o mar, a avenida central, algumas árvores de fundo e eu: em um pulo pelo ar, abraçando a cultura e os guardiões do lugar. A minha imagem em vulto ou borrada; a típica representação do que sou: o bom geminiano, inconstante e que detesta rotina.

Afinal, sou turbilhão e turbulência. Assim ficou determinado: é essa vontade de abraçar o mundo que me instiga e me faz continuar. Descobri que não quero ficar preso em minhas próprias selas imaginárias. O que assumo aqui é um compromisso comigo mesmo. Gosto da dualidade, do bem e do mal. Da negação e do sim. Eu ainda me recordo do esforço do estudante de jornalismo para caber nos parâmetros do mercado e dos professores. Como era estranho fazer um lead e seguir técnicas que não evoluíram com a sociedade. Talvez hoje esteja um pouco mais pronto. Pronto, por exemplo, para seguir todos os caminhos ao mesmo tempo sem a preocupação de antes. Afinal, se a terra funciona como um educandário, há sempre tempo para refazer. O que não quero é ficar estagnado.

 

Minhas ruas.
Minhas ruas.

Eles passarão. Nós passarinho.

Eu só fui compreender o valor que a amizade tem na vida das pessoas aos 17 anos. Foi descendo a Rua Patriarca, no bairro Ipiranga, em Belo Horizonte, no último dia de aula do colégio. Recém-formado do terceiro ano, o uniforme escolar pingava tinta. Naquela altura, o período pré-vestibular já havia passado e estava aprovado em algumas universidades. O ano era o de 2005 – para completar a sincronicidade, ano ímpar, daqueles em que as transformações são mais pontuais para mim. Era o tempo de me separar de pessoas queridas que construíram uma personalidade ao meu lado. Estava inseguro com o futuro. E agora, como vai ser? Eu convivi com todas as delícias e boa parte dos questionamentos e problemas do ser adolescente.

– Estou com medo, disse para Ana.

– Não é preciso ter isso. Estamos só começando. Eles passarão, nós passarinho.

A frase adaptada de Mário Quintana me marcou para sempre. A turma fez um pacto, o de seguir com serenidade e fazendo o melhor de nós. Foi parecido com a história de Fernando Sabino, no clássico “O encontro marcado”.  Parece ironia, mas perdi contato com todos os meus amigos daquela época. Apenas um “olá” virtual muito de vez em quando. Ainda me emociono ao abrir as fotos daquela época. Constatações? Como eles cresceram e deram o melhor de si no caminho que escolheram. Alguns casados, outros com filhos… Tudo parece que foi ontem! E eu ainda me lembro dos cheiros e dos sorrisos no corredor do colégio. Eram manhãs permeadas com muito estudo e brincadeiras. Não esqueço: A festa de formatura e os preparativos para o tão esperado baile. As gincanas e o aperto para as provas. Tudo está agora no baú das memórias, aberto de tempos em tempos e que vai ser revelado para nossos descendentes num futuro próximo. Crescer e amadurecer é, no mínimo, fantástico.

Eu acordei neste 18 de abril com uma mensagem de Liliene, a amiga-irmã de Itabira, às 9h30 da madrugada. O celular apitou e o meu humor negro logo mudou quando vi o que ela escreveu.

– Estou em Divinópolis.

Aqui cabe apenas parte da mensagem, o principal. Divinópolis é uma das cidades em que Lili tem raízes profundas. Lá, escreveu boa parte de sua história e construiu alicerces que a estruturam. Na semana passada, fomos ao Rio. Celebramos a arte do encontro com Breno, amigo que já nasceu pronto para ser cidadão do mundo. O que mais me admira é a possibilidade de Lili e Breno transitarem entre todos esses mundos com facilidade e com uma boa dose de sensibilidade. Do que levo deles? Uma pitada de um lado cômico e descompromissado, outra medida de drama e várias partes de amor e a vontade de compartilhar parcimônia.

Quando li a mensagem, sorri. E pensei que tenho os melhores amigos bem no dia dos amigos. Eles me pontuam. Me deixam sem ar. São loucos e, ao mesmo tempo, centrados. Têm personalidade forte e me fazem raciocinar. Distribuem conhecimento sem dó, nem piedade. São artistas. Filósofos do mundo possível. Amigos de hoje e sempre: nós estamos passarinho!

O que eu não abro mão: sou devoto da amizade.

Sander Kelsen
Leve como o caminhar.
Aos amigos, dessa felicidade autêntica.
Aos amigos, felicidade autêntica.

Anjo caído.

Como se fosse possível manter raízes e asas ao mesmo tempo. Pobre menino! Qual o motivo da falta de ar, do peito atrofiado de tanta dor e angústia? Não há uma razão aparente. A vida segue seu curso tranquilamente, desde o início dos tempos. O que há então? Apenas uma vontade digna de abraçar o mundo – como o mais legítimo dos sonhos, daqueles, com seres e ideais utópicos. O tempo da inocência dura até a idade adulta. Ele é retirado sem parcimônia. O menino respira, respira… inspira mais uma vez. Grita. Tenta não deixar escapar seus últimos pensamentos lúcidos sobre o mundo. Tem vontade de colocar na mala apenas o necessário. Mas sempre há espaço para o que não faz falta. Nasceu com esse erro de balança, não saber dosar as coisas como elas são.

Não aguenta mais. Suas asas não são fortes o suficiente. A luz do sol lhe ofusca. E ele fecha os olhos, com medo de tudo. Não consegue ver o quanto o mundo é lindo. Vai por aí correndo. É uma prática para oxigenar o cérebro e tentar encontrar uma saída. Por enquanto, não vê nenhuma. Isso tem nome: decepção. Como superar? Sem receitas pré-determinadas! Se lembra quando encarava a realidade com otimismo. Hoje ela é dura feito pedra. Não vê sentido em títulos, formações superficiais e relações idem. São sorrisos e expressões que não reconhece sendo como legítimas. Não. A sua vida, só por hoje, é negação. Para tudo o que aprendeu.

É o absurdo do mundo que o deixa inconstante. Que o motiva e ainda lhe dá forças para seguir. Ele se sente pequeno, quer mudar. Só falta mais energia, mais coragem. Um dia, quem sabe. Agora só vê anjos caídos.

 

DSCN1669