Escritas urbanas.

BH.
BH.
Aqui o que antes era uma chaminé.
Aqui o que antes era uma chaminé.
O tempo voltou nesse instante.
O tempo voltou nesse instante.
Tijolos.
Tijolos.
A churrasqueira improvisada.
A churrasqueira improvisada.
As árvores do meu quintal.
As árvores do meu quintal.
Nuvens em BH.
Nuvens em BH.
A igreja sendo construída.
A igreja sendo construída.
Faz um 21.
Faz um 21.
Do meu telhado.
Do meu telhado.
A tomada de decisões.
A tomada de decisões.
A planta.
A planta.
Vitrais.
Vitrais.
O sofá.
O sofá.
Um olhar.
Um olhar.
Minhas ruas.
Minhas ruas.
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Páscoa

Caridade não deveria ser por todo o ano? Vermelho para representar o amor. Me chamou mais a atenção do que o roxo. As sacadas dos casarões cobertas por essas cores. Semana Santa: de renascimento, conversão, mudança, reflexão. Talvez são desses exemplos que a humanidade precisa em tempos confusos. O hipermercado estava tão lotado que desisti das compras em uma noite de quarta. Antes da páscoa, aqueles letreiros de promoção me incomodavam. Ovos de chocolate por todo lado, gente aglomerada – se parecia com formigueiro. O consumismo me constrangeu mais uma vez. Sem radicalismos.

O real significado.
O real significado.

 

A Obsessão pelo “Melhor” – Leila Ferreira (Jornalista)

Estamos obcecados com “O Melhor”.
Não sei quando foi que começou essa mania, mas hoje só queremos saber do “Melhor”.
Tem que ser “O Melhor” computador, “O Melhor” carro, “O Melhor” emprego, “A Melhor” dieta, “A Melhor” operadora de celular, “O Melhor” tênis, “O Melhor” vinho.
Ser “Bom” apenas não basta.
O ideal é ter o “Top” de linha, aquele que deixa os outros prá trás e que nos distingue, que nos faz sentir importantes, porque afinal, estamos com “O Melhor”.
Isso até que outro “Melhor” apareça, e é uma questão de dias, ou até mesmo horas até isso acontecer.
Novas marcas surgem a todo instante.
Novas possibilidades também.
E o que era “Melhor”, de repente, nos parece superado, modesto, aquém do que podemos ter.
O que acontece, quando só queremos “O Melhor”, é que passamos a viver inquietos, numa espécie de insatisfação permanente, numa pressão cotidiana, num eterno desassossego.
Não desfrutamos do que temos ou conquistamos, não dá tempo, porque estamos de olho no que falta conquistar ou ter.
Cada comercial na TV nos convence de que merecemos ter mais do que já temos.
Cada artigo que lemos, cada situação vivenciada e experimentada, nos faz imaginar que os outros (ah, os outros…) estão vivendo “Melhor”, comprando “Melhor”, amando “Melhor”, ganhando “Melhores” salários.
Aí a gente não relaxa, porque tem que “correr atrás”, ah…, de preferência, com “O Melhor” tênis…!
Não que a gente deva se acomodar ou se contentar com “Menos”. Mas “O Menos” as vezes, é mais do que o que precisamos, é mais do que o suficiente.
Se não dirijo a 140 ou 160 km/h, preciso realmente, de fato, de verdade, de um carro com tanta potência?
Se gosto do que faço no meu trabalho, tenho mesmo que subir na empresa e assumir o cargo de chefia que vai me “matar” de stress porque é “O Melhor” cargo da empresa?
E aquela TV de não sei mais quantas polegadas que acabou com o espaço do meu quarto?!
E o restaurante onde tenho saudades da comida de casa e prefiro ir no que tem “O Melhor” Chef?!
Aquele Shampoo que usei durante anos tem que ser aposentado porque agora existe um “Melhor” e dez vezes mais caro?!
O cabeleireiro que sempre me atendeu tão bem, tem que ser agora trocado pelo “Melhor” cabeleireiro?!
Tenho pensado no quanto essa busca louca, maluca, sem noção, essa busca permanente tem nos deixado ansiosos e nos impedido de desfrutar “O Bom” que já temos!
A casa que é pequena, mas nos acolhe e nos aconchega!
O emprego que não paga tão bem, mas nos enche de alegria e não nos estressa tanto!
A TV que está velha, mas que nunca deu defeito e funciona muito bem!
O homem e a mulher que tem defeitos como todos nós, mas nos fazem mais felizes do que os homens e as mulheres “Melhores, Perfeitos e Perfeitas”!
As férias que não vão ser na Europa porque o dinheiro não deu, mas vai me dar a mesma chance de estar perto de quem amo!
O rosto que já não é jovem, mas que carrega as marcas das histórias que me constituem!
O corpo que também não é mais jovem, mas que está vivo e sente prazer!
Será que a gente precisa mesmo de mais do que isso, do que ser simples?!
Ou será que isso já é “O Melhor”, e na busca “do Melhor” a gente nem percebeu?!

O fragmento da Igreja.

Tudo em declive, construído em rochas que podem desaparecer como sal em água. Eu tenho visão torta, distorcida.
Sentidos apurados desde criança. As ruas planejadas são poucas; de tão pequena cidade, me confundo onde são os limites.
Aliás, só vejo limites do horizonte cercado pela serra. Parece labirinto: e eu não procuro, por enquanto, a saída.

A cidade que vez ou outra me sufoca.

Meus pais não sabem que comprei um apartamento. Na verdade, o imóvel está parcelado em prestações a perder de vista. Não sei quando vou ocupá-lo. É um segredo que ainda não sinto totalmente livre e seguro para compartilhar com a família. Em noites de outono penso se tudo der errado. E se perder o emprego e não der conta de pagar a dívida? Quando se é jovem, a gente é uma lousa apagada. Quando envelhecemos… o que fizemos de nós mesmos fica estampado em nossa alma e também nos traços de nossa própria face. Ao olhar para o espelho já me vejo como o tempo me moldou e vem me moldando. As primeiras expressões da personalidade já fazem parte do corpo físico. Uma hora calmo, outra agitado.

Quando ando pela Avenida Afonso Pena, em meio ao caos de pessoas apressadas, o mundo se volta para mim. Do centro da minha existência me pergunto se quero fincar raízes na cidade que escolhi para nascer. Eu me sinto constrangido por ter esse tipo de dúvida. Mas é que Belo Horizonte já parece ser pequena demais para os meus sonhos. A Serra do Curral, de tão imediata simplicidade e formação, me machuca algumas vezes. Qual o motivo de ter fobia, por estar cercado por essas montanhas milenares de minério de ferro? Não que tenha vergonha de minha terra, de minhas origens. É que tenho alma livre e as rotinas me atordoam. Quando pequeno, ficava encantado com as cidades do exterior. Tinha pavor de voar, mas faria se necessário fosse para conhecer outros cantos e culturas. Planejava chegar em uma cidade pela manhã, passar a tarde em uma outra e dormir em um distrito diferente. Me divertia.

Encarar sonhos não é fácil, tampouco concretizá-los. Difícil é também mantê-los com a mesma ingenuidade e descompromisso dos tempos da infância.

Cerca de 2 meses para os 25.

Tenho a impressão de que estamos em uma busca desesperada por títulos. Em todos os âmbitos: acadêmico, profissional e pessoal. Outro dia me fizeram uma dissertação sobre a vida – que devemos planejá-la a cada ano, rever sonhos e pontuar anseios. Eu fiquei incomodado. Cheguei em casa com o som do carro bastante alto para uma madrugada quente de verão; queria espantar todos os meus fantasmas e dúvidas de meu espírito. O calor não deixava. Passei na despensa, subi as escadas e abri uma latinha de chopp (Logo eu que não sou adepto de bebidas alcoólicas comerciais). Eu queria tempo para mim. Afinal, menos de 2 meses para os 25 anos chegarem: qual o motivo para continuar ainda com essa cara de adolescente no ápice de seus 15 anos? Ao beber o chopp, belisquei também um aperitivo. Uma batata frita para colocar gordura e carboidrato no meu organismo depois de uma tarde cansativa… mas prazerosa. Eu me acostumei a viver com a dualidade. Sorrio facilmente. Como da mesma forma encaro de maneira séria o que pede para ser sério.

Fui na varanda tentar encontrar a lua. Não foi possível pelas nuvens e afins. Voltei para o meu quarto em um tom triste. Coloquei uma música qualquer. O que estava tentando fazer era fugir de um questionamento que me perturbou a tarde toda. Será que um dia terei coragem, sem ressentimentos, para realizar todas as loucuras que tenho em mente? A primeira é morar em todas as capitais do Brasil; me sustentando com trabalhos temporários e sem a obrigação de exercer o que escolhi um dia na faculdade. Todas as outras loucuras, como assim defino, são coisas simples e comuns – nada muito fora do padrão: ter um filho biológico, por exemplo. Ou passar novamente alguns dias como voluntário…

Hoje, quando a abro a janela do meu quarto, a realidade que vivo ainda me atrai. Estranho. Uma paisagem urbana mesclada com o verde e o suor de quem deseja viver e conviver. Ao ver Belo Horizonte rente aos meus pés – da varanda e do alto do morro – eu só peço serenidade para continuar. Se um dia  não houver tesão, espero não fraquejar e mudar. Tudo para um motivo: para depois não fazer cortes profundos e reparos em minha própria alma e essência.

Agora não falta mais.
Agora não falta mais.

Da floração.

A cidade me presenteia. Até em momentos de trânsito infernal, de atraso em compromissos ou da correria cotidiana. Eu prefiro os imprevistos perspicazes, como música que você não pede para ouvir; mas que é percebida pelos seus instintos. Em pleno verão, escuto a explicação de um meteorologista sobre a explicação do calor.

– Minas é protegida por muitas montanhas. Para uma frente fria chegar ao estado é preciso que ela seja forte. E todas as nossas serras contribuem, também, para que o calor não vá embora. É uma soma de fatores que a natureza construiu ao longo dos tempos – com ou nossa influência.

Do engenheiro agrônomo ouço atentamente as explicações sobre as 80 mil mudas que a Fundação Zoobotânica tem hoje em estufas e berçários. Tudo fica dentro do zoológico de Belo Horizonte, na região da Pampulha. O profissional me mostra árvores bebês, pequenininhas, em desenvolvimento. Com o tempo, vão ser distribuídas pela cidade toda… dependendo da demanda para a arborização de um determinado bairro. Eu fico impressionado e tento não fazer tanto barulho e falar baixinho para não atrapalhar essa nova geração de plantas.

Na igrejinha da Pampulha, observo a árvore florida. A quaresmeira pinta a cidade de roxo. Eu até me esqueço que é verão. Engraçado: parece primavera… mas meu olhar  e entendimentos negam. É graças a um processo chamado floração. Cada espécie tem sua época específica para lançar suas flores e sementes para continuar garantindo o fantástico ciclo da vida.