Desconfianças.

Deixei combinado com os anjos 9 meses antes: quero nascer sob as bençãos da lua. E é por isso que sou da noite. Perdi um hábito com as obrigações de adulto. O de puxar um banquinho, colocá-lo no quintal, me assentar e ficar olhando as estrelas. Era ainda criança e, quando olhava bem para o alto, parecia que me faltava algo aqui, em terra. Pode parecer loucura, mas tenho 1/3 de certeza de que este não é o nosso berço. Pela diversidade dos seres humanos cogito que pertencemos a outros planetas… e estamos aqui talvez por uma viagem de férias.

Eu mesmo (…) sou do planeta das pedras! O meu quarto é cheio delas: tem quartzo, tons verdes, formatos irregulares, cristais. Quando é dia de verão e está bem quente, coloco algumas no sol. Depois de energizadas, elas vêm direto para o meu corpo: uma forma de matar as saudades da minha terra natal. É uma sintonia perfeita: pele, a cama, a janela com brisa e o luar que despeja esperança.

A hora-limite para se recolher era às 21h. Vovô pegava o seu radinho de pilha e fechava o portão. Descia para a rua e tinha um banquinho no passeio – chegava ali por volta das 20h… era uma hora dedicada para ver quem chegava ao bairro. Não que fosse um pretexto para tomar conta da vida dos outros. Tinha mais uma característica de gente que sempre morou no interior e gostava de uma boa prosa com os vizinhos. Ah, década de 90: não haviam ainda tantos carros na rua. Antônio ouvia Itatiaia e vez ou outra passeava pela rádio Inconfidência. Eu ficava observando a cena. Sentado ao lado dele, aprendi lições que vou levar para a vida toda.

O céu é assim desde quando? As estrelas que se acendem, os astros que passam e formam luz. Os planetas e constelações. Lamento por não me planejar melhor para esses prazeres. A cidade cresceu também; da metrópole é impossível ver o quão claro o universo é… as luzes daqui – das casas, dos carros – ofuscam demais o que é natural.

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A consulta.

De tempos em tempos – novo paradigma para a minha evolução – costumo me trancar em meu quarto para que minha alma se coloque no centro de sua própria vida (Assim como sugere Adélia Prado). É também um esforço para manter os bons pensamentos no meu eixo. Reflito: antes de aprender qualquer técnica para seguir uma profissão, é preciso compreender – mesmo! – que todo e qualquer campo de trabalho envolve o ser humano: lidar com o dual, de um processo, de um fenômeno em andamento não é e nunca será fácil. A gente está em mutação; não se pode pensar em conclusão para quem é feito de carne, osso e sentimentos.

Outro dia me contaram sobre a homeopatia. Resolvi saber por conta própria. Abri o católogo online do plano de saúde e marquei uma consulta. A médica atende no edíficio Maletta, em Belo Horizonte. Peguei o elevador e, ao esperar pela consulta, resolvi não pensar em nada. Abri um revista sobre sustentabilidade. Nela, promessas dos governos para despoluir a lagoa da Pampulha até a copa do mundo. A publicação era de 2009. 3 anos se passaram e nada. A médica abriu a porta com um sorriso; perguntou pelo nome e o motivo pelo qual havia buscado a especialidade.

– Nunca estou pronto. É por isso. Preciso de um suporte. Não quero essa medicação pesada… e talvez é o que me atrai na homeopatia, esses remédios naturais.

Ela coloca um maço de papel em cima da mesa.

– Que interessante! Conte-me mais.

A médica se parecia como a Esfinge! Paro, penso e sigo. O que eu não resisto é quando alguém se interessa por minha história. Eu falo, sem pudor algum.

As casas do meu eu.

Vários de mim estão espalhados por este estado – até em outros, também. São a garantia de minha pluralidade. Ora, quem é que nunca teve o gostinho de chegar em uma cidade desconhecida com a certeza de ser recebido por alguém? Se ainda não passou por isso, é um bom motivo para ligar o alerta e rever algumas posições na vida. Faça preces para que encontre uma amizade verdadeira, daquela onde não se espera nada e tem tudo. Falo da capacidade de sobrevivência, do ato de estar em grupo, compartilhando segredos e anseios.

Quando viajo, não gosto de criar grandes expectativas… nem na hora de arrumar as malas. Normalmente escolho a sexta-feira como o dia de ir e descobrir o além do meu horizonte. Coloco na mochila algumas blusas, produtos de higiene, dinheiro. Pronto! Sem essa de ficar checando demais as coisas. Faço questão de esquecer os remédios. Liberdade, em boas doses, é batata para tudo o que não há solução.

Aos pés da Serra de Tiradentes/MG, uma casa que foi construída há 20 anos. O portão é automático e o carro desliza suave na rua que é de pedra. Uma casa simples de dois andares – num cenário convidativo. Foi decorada com zelo por seus donos, artistas plásticos. Ao amanhecer a neblina toma conta e o frio é o anúncio, na verdade, de que o dia vai ser de calor. Existem duas portas de entrada. Uma com a fechadura normal, daquelas que se encontram em lares de grandes cidades. A outra parece antiga, com uma chave de castelo e tranca grande. A porta é reforçada pela madeira e tem contornos azuis. Bem ao lado, um armário que aparenta ser do tempo da fundação da cidade de Tiradentes. É verde de tons claros e escuros: há um detalhe esculpido em sua extensão… mas não pude identificar o que é.

A casa é cheia de surpresas, parece de sonho. Uma mesa, algumas peças de decoração na parede. Quadros com linhas retas e abstratas. É coisa de Minas: as panelas nas prateleiras enfeitam o espaço da cozinha e contrastam com a geladeira moderna. O teto é forrado: o que dá ao ambiente ainda mais uma sensação de conforto. Tem muito artesanato por onde você olha… Os corredores são pequenos e aconchegantes. A cortina é feita de coração. O visitante encontra logo uma mensagem: nessa casa só tem alegria.

Para subir ao segundo andar, uma escada com ares europeus. O quarto, lá em cima, é um tanto apertado… mas tem seu charme com uma cama que cabe muito bem ali e sem problemas. Há livros na estante. Um objeto para colocar roupas. Ou seria mesmo um móvel? A porta do banheiro é enorme: tem que se fazer força para abrir e fechar. O telefone é da época onde ainda se usava ficha para se falar.

É o meu lar mais recente. Sem o sentido de possessão, confesso!  Riqueza pra mim é isso: ser dono também das casas de seus amigos e, se vergonha nenhuma, poder fazer um cafezinho, abrir as portas e usar o banheiro sem nenhuma cerimônia.

Fé na fé.

Vovó sempre falava de fé. Católica fervorosa, eu retrucava:

– O catolicismo chegou ao Brasil pouco tempo depois que fomos descobertos. Imposto pelos portugueses, tinha como missão erradicar outros cultos, como o dos índios e, mais tarde, daqueles que chegavam à colônia trazidos da África como escravos.

– E mesmo assim se construiu um país, não é mesmo? As dificuldades, meu filho, existem para serem vencidas. Viemos para cá e não estamos prontos. Por isso a história se escreve assim. Independente de ser católica ou espírita ou budista, existem duas palavras que podem mudar a realidade: o amor e a fé. Essa última não sendo voltada unicamente para religião. Fé que é transformadora, em seu sentido venal. Só pra não esquecer: a mudança é feita nas entrelinhas, nada muito drástico. Você vai compreender um dia: é inteligente.

Assunto encerrado para mim. Ela voltava cuidadosamente ao seu bordado. Colocava a linha na agulha, passava para a máquina. Ia dosando a velocidade com os pés. Costurava para fora. Uma renda extra no fim do mês. A descendente de índios viveu trabalhando em casas de gente com posses… É a história mais aproximada que sei.

Quando me descobri Kardecista, em maio de 2011, tive a absoluta certeza o quão sou pequeno. Uberaba, no triângulo mineiro, é uma cidade plana, de ruas alargadas e que inspira – ao mesmo tempo – ares de interior e cidade grande. Fiquei encantado. É lá que Chico Xavier, um dos grandes difusores do amor, passou seus últimos dias na terra. Aprendi: ter cuidado com o próximo é o mínimo que podemos fazer. Ele mesmo, Chico, dedicou sua vida ao outro. Na hora de ir embora fiz uma prece no ônibus. A estrada começou a chegar; me despenquei em lágrimas. Ainda não tinha vivido algo tão intenso. Havia uma incerteza: como explicar tudo para os amigos que ficaram em Belo Horizonte? Era preciso passar por tudo aquilo. Hoje entendo o motivo de Vovó ter sido católica praticante. O mundo se move a partir de ideologias, causas, crendices.

Resolvi então cultivar os pensamentos positivos. A fé no ditado de que tudo tem seu tempo. A gente passa por provações e delas nascem diferentes etapas de nosso amadurecer.

Sobre raízes e asas.

Alguns vídeos me arrebatam – mas no sentido de ficar extasiado, enlevado! Enobrecem minha alma e me fazem derramar lágrimas de tanta felicidade. Falar da própria raiz me traz emoção pura. Gosto de experimentar memórias guardadas no fundo do inconsciente. Eu abro as portas e deixo arejar pelo período que for. Sem medo de exagerar. Eu tenho, sim, saudades da infância. Que bom: isso é fruto de que ela foi bem vivida, aproveitada em seus mínimos detalhes (com o abuso da redundância mesmo!).

Encontrei o vídeo que se segue em uma madrugada de quarta. Disse muito de mim. Não tenho um fusca, tampouco sei andar de skate. Mas fala sobre renúncias, descobertas, o ato de crescer… os cheiros e músicas que passam por nossa vida. É digno de prêmio pela bela fotografia e mensagem.  Demonstra o que quero ser quando crescer.

Com simplicidade,

Do amor.

O todo que chega ao meio: Fevereiro está pela metade. Pouco mais de 45 dias vividos em 2013 e um grande esforço para deixar as promessas em dia. Na virada do ano pedi aos orixás, deuses e divindades para que não me deixasse encontrar alguém – ou na tradução crua e nua, me apaixonar (e novamente). Estranho: parece que foi sistemático, impensado: como seria possível? Minha mente pedia o não-encontro… já o meu coração, explodia na vontade de ser e ter alguém.  Pedir isso a um geminiano pode ser fatal, já que não gostamos de seguir coisas pré-estabelecidas ou regras que podem parecer sem sentido: apenas tire de nós a ditadura da rotina. É como se houvesse uma mordaça para abafar os gritos desesperados desse nativo incompreendido. Não funciona. A gente quer o encontro, seja ele como for: inesperado, marcado, calculado, descompromissado. Essência primeira da gente: o outro.

Sigo conforme à razão o que ficou pré-estabelecido naquele 31 de dezembro de uma dia com temperatura ideal. Se amor é integração de dados, como disse Quintana, quero que minha síntese se disperse por vários lugares. A inquietação do que é real e imaginário permeia minha mente. O receio é daquelas bulas, receitas de bolo. “Para achar um amor, você tem que se amar primeiro”. Mas o que a frase quer dizer? E se mudar a forma de me amar e deixar as coisas fluírem mais, não se importar como se não houvesse o amanhã? É isso?

Estou na máxima de fazer tudo diferente. A começar pelo meu quarto. Troquei livros, móveis e eletrodomésticos de lugar. Arrastei tapetes e mudei a posição das fotos. Mudei a minha aparência. Alguns cortes aqui e acolá – de forma geral, foram no físico. Vovó, com toda sua delicadeza e no auge de seus 90 anos, disse a meu pai que eu estou cuidando do meu jardim. E que ela ficava feliz, com a benção de Deus, lá do alto e observando tudo. Na verdade, quando comecei a rever alguns mitos, as possibilidades se multiplicaram… e as tentações também. Hoje enxergo um mundo com muito mais cor:  a começar pelas bocas carnudas com batom, depois passando pelos rabos de cavalo e pelos vestidos florais que se balançam entre os ventos.

Uma colega disse que tenho um quê de sedutor. Que nem eu ainda percebi esse meu potencial… A dica que deixou? Explore! As mulheres gostam e muito de homens assim – com conteúdo, simpatia e digamos, pegada. Quanta avaliação! Se fosse um bate papo virtual diria que ela estaria com vontade de sair comigo e se perder na noite de sábado em um canto qualquer. Mas preferi sorrir e prometi avaliar o meu próprio caso. Não me considero cafajeste.

Em suma, o fato é que quando se tenta negar e repudiar o amor, ele vem e se torna mais forte. Não é possível pedir essas coisas para o anjo da guarda. Amor acontece, independente de escolhas e pedidos. Fechar as portas é burrice. Por isso, nessa metade de mês, o anúncio de uma renúncia. Estou aberto novamente e definitivamente ao amor: de todas as formas, tempos e ventos!

As escolhas.

A primeira lágrima caiu e ela logo se questionou:

– E agora?

Nunca havia tido o sentimento (ou a sensação!) de que estaria sem rumo… Sempre foi forte e, nos piores dos momentos, acreditava em uma força maior. Não que essa condição tivesse mudado. É que as mãos se tornaram calejadas ao caminhar.

– Me deixe por hoje. Quero chorar igual criança. Quero fazer manha e bico para que as mazelas de minha alma se escorram.

Até chegar em casa, um silêncio tomou conta do banco do carro. Nem o vento que sussurava pela janela foi capaz de mudar aquele clima. Comungava algumas possibilidades mentais. Era ela com ela mesmo, nua, sem fugir: O que fazer? Para onde seguir? O que desconhecia é que tinha a faca e o queijo em mãos. Solidária, passou muitas vezes oferecendo conselhos, distribuindo palavras amigas. Tem uma visão espetacular sobre as coisas. O que havia mudado?

– Tenho perguntas demais e poucas respostas. Isso me agoniza.

A verdade é que ninguém poderia encontrar as respostas por ela. Ninguém também poderia descrever o que vivia ou julgar suas escolhas.

Poderia ser assim, como a noite: desesperadora ou tranquila.
Poderia ser assim, como a noite: desesperadora ou tranquila.