Minhas tralhas.

Eu desejo deixar todas as tralhas que atrapalham o meu ato de caminhar. Não consigo desfazer de todas ao mesmo tempo: sou julgado, condenado e menosprezado por isso. Queria não fazer parte dos chamados jogos de poder. Não posso: sou ser humano e com fraquezas como todos os outros. O indicador de negatividade tem sido muito presente. Quantos não’s consegui mês passado? Uma infinidade! Por um lado, foi bom. Ser bonzinho o tempo todo cansa e a saúde fica comprometida.

Eu não fiz um planejamento de vida como os administradores fazem. Pretendia chegar até os 30 anos… sem mais, nem menos. Toda vez que vejo no jornal que a expectativa de vida dos brasileiros vem aumentando, me preocupo. Faltam 6 anos para chegar a ser um balzaquiano. O que fazer com mais de 70 anos nesta terra?

Há uma série de coisas que me prendem aqui. Belo Horizonte é minha cidade-berço e não abro mão. Mas nasci com espírito de aventureiro. E ficar preso entre essas serras me adoece algumas vezes. Me imagino como viajante sem dinheiro e sem destino. Esperando do amanhã apenas uma bela paisagem.

Notei que este texto tem ego demais. Pode ser que sim, pode ser que não. É a minha terapia diária. Pelo menos sou editor da minha vida – mesmo não sabendo o conteúdo dos capítulos que estarão nas próximas páginas.

Novembro.

Belo Horizonte adormeceu com ares cariocas. Estava assim desde a manhã. Por isso que quando entrei no meu carro logo quis ouvir Tom Jobim. A montanha parecia ser um pé de mar. A lua aparentava ser uma nave espacial – daquelas de filme. Não sabia se me divertia com ela ou se prestava atenção no trânsito. Meu novembro acabou. Agora é esperar pela lua cheia do próximo mês. Mais nova do que nunca.

Liliene Dante  (a melhor jornalista que já conheci) e Dona Daria.
Fizemos foi carnaval. Foto: Liliene Dante
Combinação quase perfeita. Foto: Liliene Dante
Mudança alimentar.
Meus queridos irmãos: o que seria eu sem vocês assim, meio embaçados?
Eu gostei desta foto. De Liliene Dante, com amor, em uma rua do centro de Belo Horizonte.
Sou dela e sem ela eu não sou.
Leve… como pluma!

1 ano daquela experiência que transcendeu meus olhares. Descobri que gosto de voar e ser mais livre o possível.

Noite.

Eu conheci uma garota chamada Noite. Estava como profissional – trabalhando mesmo – vestido de repórter, com gravata vermelha e terno preto. Ela era a minha fonte e, por isso, deveria ter aplicado algumas técnicas jornalísticas – como me manter distante. Não consegui. Achei de uma delicadeza tamanha os pais escolherem esse nome. Primeiro, por não ser convencional. Segundo, pela delicadeza – mais uma vez. Terceiro, pela sonoridade e força do nome. Uma jovem linda, com energia notável. Era também inconstante, assim como a noite é. Herdou as características do luar, do céu estrelado, da vida que pulsa no horário noturno. Um esperança de renovar-se brotava de seus gestos delicados.

Quando me disse seu nome, pedi para repetir.

– É seu nome.

– É o meu nome! Escreve aí no papel, Noite.

Eu fiquei extasiado, como nunca tinha me sentido antes. Olhei-a fixamente querendo não acreditar. Olhos arregalados. Sorri! Mas a ficha caiu. Se conhecesse mais, pediria a carteira de identidade para tirar uma foto e deixar registrado. É que uma Noite personificada e como substantivo próprio aparece na vida de uma pessoa quase nunca. Queria falar alguma poesia para ela, descompromissado. Deu vontade… Tive que me conter.

Quando a noite chegar, vai ter lua cheia hoje.

Frações de uma mesma história.

A mãe grita e não acredita. Faz um esforço físico impressionante; bate os pés e quer de volta o filho – morto há poucas horas. A mulher joga água no sangue (que se espalhou na porta de sua casa). Ela pensa com olhar distante! Deseja um pouco mais de tranquilidade e um mundo melhor. O sabão se torna espuma e escorre. Leva o pedaço de roupa, os vidros quebrados e a paz de toda uma comunidade. A menina comenta: “Portelinha é destaque mais vez. Conseguiram!”. A senhora repete, incessante, “ele era inocente. Trabalhador… A família não merecia!” A aglomeração se forma e os repórteres querem informações: o que houve? O policial explica que só as investigações por parte da corregedoria vão mostrar as respostas para o questionamento. Do outro lado da montanha, bem na parte onde há uma rotatória, um ônibus queimado por não se sabe quem.

O menino, lá do alto do morro, observa sem entender muito. Na praça, duas crianças dão informações: “É ali em cima moço… Aconteceu lá! Tá ‘fresquim’ o caso ainda… Pode ir sem perigo.” O carro quase não sobe a ladeira. “Bota a primeira e vai de uma vez só”, alerta o co-piloto. Pelo caminho, motos, gente chegando do trabalho, gritos e sede de justiça. A mulher se exalta da esquina e lembra a todos que estamos no Brasil. A igreja evangélica vai chamando seus fiéis. Só o clamor e a oração nessas horas é que o parece ser mais sensato. O pastor usa um microfone e lembra da história exemplar de Jesus para a humanidade. Muita gente parece não se interessar.

A menina sorri timidamente. Ainda há um quê de esperança mesmo com tanta confusão e desarmonia.

Enquanto houver luz…

Carta escrita e não entregue.

Sim, eu tenho um grande encanto pela palavra escrita. Também pela lua. Mas agora, da janela do meu quarto, não a vejo. Está descansando, serena, entre as nuvens carregadas de chuva. Você já observou ou percebeu que as árvores formam portais? É isso mesmo. O que caracteriza um portal? Bom, as folhas tem que balançar alegres. O ambiente é obrigatoriamente todo verde: grama no chão, horizonte de montanhas. Se for o verão, melhor. É vida que pulsa. Ah, não vale paisagem de cidade grande. Eu tenho os meus, escolhidos a dedo e com muita ternura. São duas árvores próximas a um riacho em um clima típico de Minas. Lá, a água tem cheirinho de chá gelado quando amanhece. As pedras não parecem ser rígidas ou duras: são verdadeiros mantos, travesseiros para os pés.

Me perdi novamente. Tenho que falar sobre os portais. Pois bem. Quando você avistar, ao andar distraída em um dia no campo, duas árvores que se encontram, se entrelaçam naturalmente formando um caminho, fique atenta. É o sinal que precisa para se transportar… Depois basta que imagine. Se pergunte para onde seu ego quer ser transportado. É a viagem mais barata e bacana que pode fazer. Medite! Assim estará com você mesma, conhecendo caminhos pessoais nunca antes descobertos.  É o que chamo de essência. Todo ser humano tem uma. Encontra-lá é a metade do caminho para a felicidade. (Não querem uma receita para a felicidade? Aí está!)
A vida deveria ser como a primavera.
Ao se aproximar o fim de ano, costumo escrever cartas para meus amigos. Um exercício para estar em dia com nossas outras metades, espalhadas por aí. E já que você gosta de receber uma, aí está. Daqui, de um novembro de 2012, desejo a você parcimônia e amor para seguir. Foi muito bom conhecer você. Obrigado pela aprendizagem e atenção dedicada a mim. Deixo aqui um sentimento nobre: a gratidão.
Encantado,

Estado de alma.

Meus olhos se perdem quando estou Mercado Central de Belo Horizonte. Sim, é um estado de alma. Combina mais comigo aos sábados de sol. Eu me preparo com a roupa mais alegre que tenho – um azul ou verde, tudo combinando. Se parece com um ritual e talvez seja. Da avenida Paraná, vejo os tijolinhos e o telhado do Mercado. Minha boca saliva: quero abacaxi que custa 2 reais. Café da manhã saudável e rico em fibras.

O burburinho no mercado é diferente. A mulher oferece jiló e fígado. Desce mais uma cerveja. Será que os cientistas consideram que isso é qualidade de vida? Do outro lado, os temperos: tem colorau, gengibre, alecrim, orégano, salsa desidratada (…) O queijo Minas espalha seu cheiro pelos corredores. O sotaque mineiro, aquele gostoso de se ouvir, é o charme do lugar. Dona Terezinha abre e fecha as portas do elevador. Dona Hanna vende suas delícias há décadas. Tem receita natural para os males do mundo moderno.

Das idas, sempre faço uma nova amizade. Lugar para compartilhar medos e anseios… E por aí vai. Esta é dona Daira, barranqueira, das terras do Rio São Francisco em Minas Gerais. Veio para BH como empreendedora. Aos 79 anos, ela vende roupas do norte aqui na capital. Simpática, ativa, de costumes e tradições firmes. Uma representação da pluralidade daquele lugar.
Aqui é o mundo em metros quadrados. A foto é da amiga e jornalista Liliene Dante, que compartilhou comigo bons momentos no Mercado Central em um sábado de sol e chuva.

 

O apartamento e uma entrega.

Destranca com a chave: corre, a campainha chama. Ela desce menos de 10 andares no elevador. Pra que tanta afobação? Vira e se percebe como mulher. Olha para o espelho e observa todos seus traços e características. O sexto sentido feminino pode ativar uma área do cérebro capaz de coordenar todas essas funções ao mesmo tempo: corrigiu o batom (que estava um pouco borrado), passou a mão no cabelo e ajeitou o vestido preto. Passaram apenas dois minutos desde que ele ligou.

Do carro, logo encontrou a vaga para estacionar. Andou acima da velocidade permitida na Cristiano Machado. Cruzou o complexo da Lagoinha em um triz – não que isso seja recomendável… é que estava realmente com pressa. Ela sairia às 19 horas. Faltavam apenas 25 minutos para chegar até o apartamento antes da mulher de vestido preto ir para uma festa familiar.

Aliás, tempo necessário para todos os ajustes de ambas as partes.  Estavam preparados para enfrentar um tribunal, um dia de julgamento daqueles casos que envolvem mistério e ambição. Seria até poético… Mas estavam de folga, coisa rara nos fins de semana.

Quando ela abriu a porta, não resistiu. Não havia ninguém na portaria. As câmeras? Em manutenção! Nenhum vizinho no elevador. O vidro escuro – que faz divisa com a rua – não deixava as pessoas assistirem o que acontecia naquele ambiente. Calculou (…)  Uma cena perfeita de cinema para agradar o condômino mais rabugento.

– Você é linda. (Não teve como pensar em outra coisa. Um clichê, mas nada mais objetivo para se expressar naquele momento).

– Obrigada. Tome, aqui está o que pediu. Tenho que subir, daqui a pouco…

Foi interrompida sem dó nem piedade.

– Shhhhhhh! Você ouviu? Você é linda!

Sorriu e logo foi empurrando a garota com cuidado. É o que a sociedade chama de ‘pegada’. Aplicou uma.

– Espera, aqui não! Alguém pode chegar.

-Shhhhhhh! (Insistente)

O garoto tinha um quê de petulante. Fechou a porta com os pés. Colocou a menina contra a parede. Olhou e a beijou. Ela tentava fugir com as palavras de negação. Mas o seu corpo entregava. Queria beijo, carinho e troca de energias.

– Obrigado.

Ele pegou o que tinha pedido a ela. Olhou-a fixamente, de novo, e fechou a porta. A mulher ficou sem ação. Subiu o elevador não pensando mais em beleza. Queria reviver o instante acalorado e de coração. Foi diferente.

– Será que mando uma mensagem para ele?

O elevador parou no oitavo andar. Já não era mais tempo de dúvidas para o que fazer naquela noite.