A pedra, o riacho, uma conversa.

Subiram a trilha em algum lugar de Minas. Inesperadamente, encontrou, junto a ela, um riacho de águas claras e cheio de cristais. Pedra, primeira essência. Quartzo que, durante anos e anos, se transformou em um verdadeiro transmutador de energias. A brisa estava ideal e o sol na temperatura certa para uma manhã de outono. Pegou uma rocha qualquer e a ajeitou como banco. Ela se sentou nos pés deles; o tempo parou. Logo em frente, uma paisagem dos deuses. Árvores, verde, pássaros e a vida que pulsava. Aqueles eram raros momentos de tranquilidade e paz para quem vivia na cidade grande.

– Eu gosto de Drummond. Não porque ele é Itabirano. É por uma razão bem mais complexa: o fato de ser gauche na vida. Ele, uma pessoa observadora, atento aos detalhes. Eu, um reflexo do poeta-maior em suas dores humanas, tímido. É por isso que preciso de um porto seguro como este riacho.

– O seu médico me disse que sua rinite alérgica tem um fundamento. E é psicológico. Você parece se fechar para tudo e todos. Quer ser gauche por toda a sua vida? A beleza disso só está na poesia. É a função dos poetas externalizarem o que sentem. Quase tudo é temporário. Aliás, vou sempre reforçar. Você precisa de mais vivências como a de agora. São aparos necessários a nossa alma.

Pegou uma pedra pequena e a jogou na água com força…

– É assim que me sinto, como a onda que se formou na água com a pequena pedra. No começo, muita energia; a vontade de fazer a diferença e sair da zona de conforto… Mas depois, a onda perde energia e desaparece.

– O importante é que ela imprimiu a sua marca. Viu? Aquele peixinho logo ali mudou de lugar. Pareceu incomodado… mas a pedra remexeu o fundo da terra e trouxe mais alimento para a água. Você também alterou a ordem das coisas desse lugar. Pegou uma pedra e a jogou no riacho. Sugeriu uma coisa nova na natureza. Ação! Por que você se sente tão cansado, com espírito daqueles que já realizaram tudo? Você ainda é onda cheia de energia, capaz de mudar o ambiente que vive.

A garota de olhos castanhos e sorriso doce tinha razão. Ele ainda era um menino, em sua plena juventude. Por que tanto sentimento de melancolia? Era hora de mudar. De ser menos inseguro consigo e com as coisas.  Afinal, ele não se passava de um eterno aprendiz.

Vou fazer meu outubro de homem.

Eu celebro a vida, a amizade, o amor. “Vou matar com amor essa dor. Vou fazer desse chão minha vida. Meu peito é que era deserto. O mundo já era assim.”

O título faz referência à música “Outubro”, de Milton Nascimento. Esses foram alguns poucos fragmentos do meu outubro. Ou como diz Bituca, meu outubro de homem.

As surpresas do caminho. As despedidas. Vida de repórter tem dessas: a honra de ter a confiança de pessoas – para que elas nos contem histórias.

Outubro foi mês de incêndio na querida Serra do Cipó, há cerca de 100 km de Belo Horizonte. Grande área do parque foi consumida pelo fogo. Bombeiros, brigadistas do Instituto Chico Mendes e voluntários trabalharam duro para preservar esse patrimônio mundial. A preocupação era com que as chamas atingissem o topo das montanhas – onde existem espécies ainda desconhecidas pela ciência. O calor e o tempo seco contribuíram para essa tragédia. Tudo acabou depois de uma chuva. A suspeita é que o incêndio foi criminoso. Uma pena.

Helicópteros se mobilizaram com bolsões de água para chegar aos lugares de difícil acesso.
A serra do Cipó ficou fechada por tempo indeterminado para turistas.

Tempo de eleição em BH. Marcio Lacerda venceu no primeiro turno. Fui acompanhar o discurso de Patrus Ananias, no Bairro Santo Agostinho, depois da derrota.

A democracia é isso.
No comitê de campanha, muito choro com a derrota do candidato do PT.
Patrus declarou que a partir de agora a atual gestão da prefeitura de Belo Horizonte terá oposição.

Campeonato Banco do Brasil de Vôlei.

A estrutura foi montada na cidade administrativa, região norte da capital.

Este é o meu céu de outubro.

Leve, como a vida deveria ser.
Minha chaminé.
O céu de Belo Horizonte.
A virgindade dos dias.
Céu em degradê.
A lua, o telhado e a antena.
Sempre ela.

A nossa força impulsionadora.

Eu não tenho memórias exatas da primeira vez que vi a serra do curral. Quando pequeno, sabia que uma grande montanha existia e que era a força impulsionadora da cidade. Nos intervalos dos telejornais locais, ela pouco é mostrada. Patrimônio histórico, cultural, regional, mundial. Estou em paz quando subo a Avenida das Agulhas Negras. (Não totalmente ao saber que a mineração, do outro lado, vai aos poucos tirando a vida da Serra). O bandeirante que chegou aqui nos idos de 1700 deve ter sido inspirado pelos deuses ao acertar que aquele era um belo horizonte propício para se construir raízes. O verdadeiro fundador da capital das alterosas. Montou sua fazenda e atraiu outros aventureiros como ele. Nasceu ali um curral. Mais tarde, uma metrópole.

Ela inspirou a arquitetura moderna. Oscar Niemeyer construiu um edifício em sua homenagem e a todas as outras curvas de essência mineira. Drummond, meu amigo itabirano, nos alerta desde sempre.

“Olhai as montanhas, mineiros.

Como a Serra do Curral, mutilada

Vós que não as defendeis

Olhai-as enquanto vivem pois,

A golpes de tratores vão sendo assassinadas,

Pela culpa única de suas entranhas de ferro.

Mineiros, por que não percebeis

Que essa ferrugem que vos empoeira os olhos,

Essa terra, vermelha, é o vosso sangue,

Injustamente derramado, na luta que vos abate?”

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Sábado à tarde

– Ei, onde é que você conseguiu um desses?

O garoto esperava a amiga em frente ao cinema de rua, na Gonçalves Dias. Depois de caminhar da Augusto de Lima até a Bahia, se sentia esgotado – A mochila levava um notebook e alguns tantos papéis. Ânimo iria ganhar apenas assistindo a um bom filme. Era o que ele acreditava. Um sábado de calor, sem tempo chuvoso. Brisa de primavera, mas abafado. Não pensou duas vezes. Logo se sentou no chão, perto da bilheteria. Observou alguns passos e figuras: a menina com cabelo verde, o rapaz com calça xadrez. O senhor que estava bêbado e o perguntou onde estava o palhaço. Uma aula de antropologia e de relações sociais.

Pegou o caderno com a programação do cinema e se abanou. Queria vento na cara, o gosto da liberdade. Chamou a atenção da advogada. Ela vestia sandálias confortáveis e uma blusa leve. Nada parecido com o esteriótipo esperado para quem é dessa profissão. Terno? Roupa formal? (…)

– Acabei de ver uma palestra ótima. De um cineasta espanhol com residência no México.

– Você estuda cinema?

– Cinéfila. Gosto e admiro. Fala sério, cinema é arte, cara.

Ela então avistou uma amiga que passeava, do outro lado da rua, com passos firmes e seguros.

– Veja, esse é o meu colega. Diz ele que vai estudar direito no ano que vem. Eu contava o que de negativo a nossa profissão tem.

– Eu também sou advogada, menino. Trabalhei em grandes instituições mineiras. Ganhava 25 salários mínimos por mês. Larguei, tudo. Estava infeliz. Formalidade demais cansa. Eu sempre fui assim, livre. Aos 20 anos, saí de minha casa, lá em Montes Claros. Viajei o mundo todo. Cheguei em BH. Estudei direito… Mas meu sonho mesmo era ter feito jornalismo… ou cinema!

A última advogada vestia algo simples. É o que aparentava, sem dualismos. Se despediu para não perder a próxima atração da mostra de cinema.

– Eu só apresso o passo para o que eu tenho prazer de fazer. Vai por mim, vale a pena.