A semana decisiva

O problema é histórico? Dom Pedro mesmo, ao proclamar a independência, estava com uma baita dor de barriga e foi praticamente empurrado às margens do Ipiranga. Depois de uma cansativa viagem do porto de Santos até São Paulo, queria dar o tal do grito logo para repousar e orar: esse piriri vai passar. Amém. Muito menos glamouroso do que a história conta em nossos colégios. Olha o exemplo também do Tiradentes. O cara virou mártir só em 1889 (anos depois de sua morte) em razão da república. É uma sensação de que tudo está errado desde o começo. Hoje re-assisti ao filme “Tropa de Elite 2”. Fiquei realmente incomodado com a corrupção que há por aqui – entre governo e cidadãos ditos comuns.

Tá na hora de a gente praticar a arte da indignação. Já mostramos que, com a união de forças, podemos ir longe. ‘Diretas Já’ e o ‘Caras Pintadas’ provam isso. E a mudança começa com a luta para resolver os problemas regionais, aqueles que batem a nossa porta. Aí entra Elisa Lucinda aqui, de novo. “Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!” Força na peruca (Eu rezo para que a história não seja sombria nessas cidades brasileiras que tanto amo e que sempre me acolheram tão bem). Vai dar tudo certo – claro, se irmos para as ruas e dizermos o que não queremos e o que queremos. Tudo é uma questão de expor e demonstrar o nosso ponto de vista: ganha sempre a verdade. Rumo ao 7 de outubro, com a consciência limpa e transparente.

Maio, 23.

Eu guardava um convite para um dia no circo até pouco tempo atrás. Ele se perdeu – e tenho certeza, foi em uma daquelas faxinas que a gente faz na vida; da tentativa de deixar longe a insegurança, a inconstância, a impermanência. Eu gosto de ter essas pequenas lembranças comigo: do que fomos, do que somos e do que vamos nos tornar. Faz parte da minha essência e do meu ideal – que ainda insiste em não se perder por esses caminhos de dualidade.

Foi muito boa a surpresa de encontrar você assim: já mulher, com ares de independência! Parece loucura, sonhei com seu sorriso até pouco tempo atrás. Redescobri novamente, sem clichês, existem pessoas que marcam. E não é apenas pelo fato de que nós nascemos no mesmo dia ou que somos almas gêmeas… (Pode ser que sim, pode ser que não). Aliás, parando para pensar, o sim e o não sempre me acompanharam. É assim com você? Talvez é pelo fato de sermos geminianos, dessa necessidade de respirar novos ares a todo momento – onde as novidades funcionam como combustível.

Eu me lembro da criança que fui: ranzinza de bom coração. Agora, cá entre nós, me lembro também da sua educação e do seu enorme coração. Hoje, do jeito que o tempo moldou. Espero que não se assuste com as palavras. É que quando a gente vai ficando mais velho, os pudores vão indo embora. Ah, e antes de desejar serenidade e paz, fica o esclarecimento para o início deste texto. O convite para um dia no circo foi seu e foi enviado a mim por seu tio, lá nos idos de 1996 ou 1997. Um grande abraço!

Do tempo e do casamento.

Eu não sou o mais adequado para despedidas. Faço cara de alegre e o inevitável “feliz” pelos novos rumos e caminhos fica exposto. É claro que brindo, sem medos. É questão de se adequar. Estive pensando: Uma despedida se parece com as estações do ano. Verão é tempo de se abrir. Chegou o outono, tempo de fazer um balanço de como tudo está. O inverno é sempre de introspecção. E a primavera? Hora de comemorar, se preparar para as festas. Eu tento negar. Mas essas são constatações apenas para mudanças climáticas. No fundo, não podem se aplicar a pessoas. Cada situação é um ego, único.

Antes da despedida, sofro. Calado e matuto, observando os detalhes e com a expectativa de levar algum suspiro ou imagem do que se vai. Pode ser por qualquer pessoa ou situação; do colega de trabalho, do amigo de longa data, dos meses de férias, do tempo com a namorada. Eu somatizo. Vou escrever para amenizar. As palavras bonitas não surgem. Acho que nem são dignas para uma despedida. Pareço panela de pressão que cozinha pequi. Não! Nela vai uma pedra não moldada.
Nessa avenida, um samba popular.
Dessa vez é diferente.  Os recém-casados lideram a carreata em cima de uma rural. O que os movem é a força invisível das buzinas. Elas não incomodam e se transformam em música clássica ao anunciar o amor. Acordam a vizinhança com delicadeza. Convidam, “venham partilhar conosco também a sua alegria!” O menino observa da janela. Ele está encantado e um dia sonha também poder participar de um ritual como esse. Imagina como vai ser a festa em seus detalhes. A união de duas almas em uma só. Uma valsa. Gestos de simplicidade e divindade.  O menino também quer se casar na primavera. Pode ser em outubro, em um dia que não esteja nem frio, nem quente. Mas que tenha cheiro de flores e que o sol se desabroche na temperatura ideal. Tem que ter grama verdinha. Não precisa ter cadeiras. Assim os convidados se ajeitariam no chão mesmo, em contato com a terra, bem à vontade. A cerimônia deve acontecer sem pressa. Todo cuidado é pouco para que os sentimentos tenham tempo de ser os mais puros possíveis.
Estranho é gostar tanto do seu all star azul.
Ele sonha com a roupa que vai usar. Um terno branco para simbolizar a união e a paz. Quer sua noiva bonita, com vestido sem muita pompa. Se possível, aquele que combine bem com o seu terno. Tem certeza que ela vai estar com um belo laço de flores, entrelaçado com o cabelo cacheado. Sem grandes formalismos.  O esperado sim e a benção do padre serão feitos em um altar de pedras. É que quando se conheceram, estavam andando por terras de pedras, no sul de Minas Gerais.  Até parecia acaso. Não foi. É fácil identificar os sinais quando sua alma gêmea está por perto. É o velho e sábio clichê, amor à primeira vista. Enquanto esse dia não chega, o menino corre. Quer ver a continuação da carreata da janela mais próxima. Então sorri e percebe que não é preciso pressa.  Tudo tem o seu tempo.

Leve, como a vida deveria ser.

– Mais suave!

Foi quase uma ordem – transcendental – de um jeito impertinente e sem piedade. Doa a quem doer: Piano é assim, precisa da calmaria de uma noite de primavera em lua cheia e da suave brisa do mar – o resultado, cá entre nós, se chama música-remédio de se ouvir. De uma vez só, com o espírito de geminiano, decidiu que queria mais. Além do piano, buscou também pela flauta e pela prática de umas dedilhadas no violão. E o violino estava nos planos a longo prazo… quanta disciplina para aprender tanto. Boas doses de água e suor (leia-se transpiração!), alguns calos nos dedos. O professor com ares de exigência? Um desafio a ser vencido! Até mais do que tocar tranquilamente e com segurança de motorista de 50 anos de carteira. Ele usava verbos imperativos, vocativos e tudo o que indicasse, na língua portuguesa, o sentido de ordem. Para um aluno dedicado e perfeccionista… ah, seria uma boa dose certa de planejar onde chegar.

Daqui até os vinte e nove anos, vivia o próprio ano do gato. Era um coadjuvante de um filme de Bogart – e, por isso, aprendia piano e outros instrumentos da música clássica e de raiz. Falta ainda 5 primaveras para chegar ao temível retorno de saturno. O inevitável, com as turbulências, pensa a todo momento que esse processo já fora adiantado. Que bom: assim estaria livre para viver sem os fantasmas de cada idade. Em um fim de semana, leu a seguinte frase:

Quando você fica se convencendo de que não vai dar tempo para fazer tudo que precisa fazer, e que principalmente estaria faltando tempo para realizar o que seria agradável a você, na verdade, você se programa para isso mesmo acontecer. O tempo é o resultado das limitações, de nosso temor de aceitar o infinito, que é a verdadeira matéria de tudo. Imaginar repentinamente que levitamos…

No infinito, perdermos as referências de cima, embaixo, atrás ou em frente é uma condição angustiante e vertiginosa. Por isso preferimos as limitações, nos encerrar em conceitos e crenças. Assim surge o tempo, a lei dos ciclos que fará com que essas limitações sejam superadas e tudo retorne ao infinito e além.

Não encontrou o autor e nem o livro do qual o pensamento foi retirado. Apenas algumas referências incertas na internet. Preferiu não arriscar. Achou bonito, profundo. Um verdadeiro tema para um encontro filosófico. Mas, por enquanto, queria voltar para as apostilas com dicas teóricas sobre os instrumentos musicais. O universo da classificação dos sons lhe soava melhor. Um fantástico mundo! – em que poucos tem o prazer de conhecer. Ou de sentir. Assim, bem leve. Como a vida deveria ser.

A cidade do Divino.

Procurou o alecrim para perfumar o ambiente. Andou alguns quarteirões para encontrá-lo. Observou a mata que havia perto do apartamento. O cheiro de capim cidreira surpreendeu. Retirou, cuidadosamente, 3 ramos da natureza. Com os pés firmes e descalços sob a terra, caminhou até onde lhe era permitido. Quando chegou em casa, viu que a alquimia estava em tudo. No cardápio do almoço, sopa de inhame – o prato predileto dele.

Noite passada fora um momento de reencontros inesperados. Viajou 100 km até a cidade de Divinópolis, no centro-oeste de Minas, para praticar a arte da convivência. Era tempo de se abrir e, mais uma vez, estava em companhia de bons amigos. Fez outros. A primavera tem a característica de deixar tudo mais mágico: o ipê que se despe e logo após ganha nova roupagem; o vento trazido pela brisa da tarde… A energia da luz solar que parece estar mais simpática nesses tempos.

Tinha cheiro e jeito de juventude. Ao contornar a praça, ela ligou para um amigo de muitos e muitos tempos. A cidade já dormia, calmamente. E ainda era por volta das 10 da noite. Um quê de tranquilidade naquelas ruas e avenidas depois de uma viagem debaixo de chuva. O metro quadrado de mulheres mais bonitas do estado, quiça do Brasil. Não faltava modéstia e a afirmação retratava a realidade, nua e crua. Ao conversar em uma mesa de um barzinho na região central, disse que ali se parecia com Belo Horizonte em alguns pontos. Pelo acolhimento, pessoas e sotaque – que se diferenciava pela pronúncia do R carregado.
Depois, uma noite de reflexões.

Assim é na estrada. Mistura de uma atenção necessária e de uma observação para além do extasiar-se. Frio, calor, tensão, alegria. Uma fusão sintonizada de extremos que se aconchegam a tal ponto que parecem intrínsecos, tamanha a intimidade.

Sou devoto da amizade. Ou é oito ou é oitenta. Ser amigo é estar com o outro de corpo, alma e coração. Não existem barreiras físicas ou espirituais. Essa é a verdadeira força motivadora para que descubramos a nós mesmos. Uma viagem sem fim e sem a preocupação de parâmetros – os amigos ditam eles por nós.

Transformar-se.

E se… O condicional nunca me agradou. Motivo pelo qual optei por estar sempre com uma mochila nas costas. Talvez isso é explicado pela necessidade de mostrar que estou aberto para as mudanças… espero que elas sempre venham, amém. Ok, a impermanência existe. Mas de tudo que se vai, algo fica: são as lições, as sensações, as experimentações. Que bom: posso ser grato e reconhecer essas ações que me fazem crescer e amadurecer enquanto homem. Quando estamos no processo de formação para a idade adulta, absorvemos pequenos hábitos de várias pessoas. Bons ou não, são pedaços de cultura que se transformam em uma parte de você e vão ajudar a construir o caminho para seguir aqueles objetivos mais pessoais traçados muito antes de sua consciência formada.

Eu tenho amigos de vários tipos e esteriótipos. Metaleiros, bruxas, praticantes de yoga, professores, alunos de biodança, jornalistas, médicos, nutricionistas, engenheiros, ricos e pobres – financeiramente falando, de hábitos estranhos demais para os padrões da sociedade, normais. O que faz de mim quem eu sou: uma mistura disso tudo. A sanidade me agrada. A insanidade também. Quer definição melhor do que essa para descrever quem você é?

Penso que o fim – de um relacionamento, de etapas, da vida – poderia ser como uma festa dos anos 70. Com ponche, decoração impecável e gente alegre dançando no salão. Música bem alta para deixar longe as energias negativas. Sorrisos, abraços, coreografias inimagináveis. Tudo terminaria, é claro,  ao fim da noite… ou quando a fotografia da turma fosse revelada. Um instante de polaroide.

Andei demais; esse caso não tem solução.

Ex-voto, de Adélia Prado.

Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida
E uivar até me secarem os ossos
Que queres que eu faça Deus?

Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Voce é muito sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo

Respira fundo, insistiu !
Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico

Que ex-voto levo à Aparecida se nao tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.

Eu nunca ia ser budista!
Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?

Minas tem coisas terríveis.
A serra da piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.

O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.

Meu coração é bom mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia.
Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?

Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!
Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.

Me imploram amor Deus e o mundo.
Sou pois mais rica que os dois.
Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.

Quase entendo a razão da minha falta de ar
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.
A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.