As fábulas…

64 páginas, leitura de meia hora e grandes lições (Aqui em casa, o livro é presente desde sempre). As fábulas chinesas vieram em boa hora – do momento conturbado e pela busca de respostas pessoais. A fábula é uma grande metáfora. É um gênero popular, que surgiu das histórias transmitidas pelas conversas informais e que foram, em algum momento, colocadas no papel. As que vem da China parecem ter um gosto especial: talvez pelo tipo de cultura daquele país, que é bastante diferente da nossa. Algumas fábulas, em especial, me fizeram pensar. Deixo aqui o registro.

O homem que vendia lanças e escudos 

Na região de Chu viveu um homem que vendia lanças e escudos.

– Meus escudos são tão fortes – vangloriava-se ele – que nada consegue atravessá-los. E minhas lanças são tão afiadas que conseguem perfurar qualquer coisa.

Alguém que vinha passando quis saber:

– E o que acontece se suas lanças batem nos seus escudos?

O homem não soube responder.

Observações do cotidiano.

Estar Belo Horizonte é estado de alma. A imensidão da cidade que termina e recomeça no paredão da serra do curral traz uma sensação de segurança tremenda. Ao mesmo tempo, é preciso experimentar a liberdade do mar; a vontade de fugir vem, como tudo o que nos aprisiona. Conviver aqui é estar apto a superar as contradições. Como disse Adélia Prado, “Minas tem coisas terríveis”.

Meu irmão resolveu estudar latim. Disse que era para compreender melhor o que somos. O espanto é que ele tem 17 anos. Uma maturidade que nunca tive. No ano que vem, começa a cursar medicina veterinária. Dessa vez, nenhuma surpresa. Quando era pequeno, nossa casa já chegou a ter, ao mesmo tempo, cachorros, papagaios, coelhos, pássaros e até formigas de estimação. E ele conversava com todos com tamanho amor, como se fossem irmãos de sangue. É o que chamo de dom. Cada um tem o seu. Deus é sábio.

Comemoro um ano daquele inverno de 2011…

(Noite de quinta-feira, depois do expediente, pós-horário de pico, na volta para casa.) Não precisa nem de relógio. Quando o frio aperta e a lua se completa entre o pirulito e o antigo prédio do BEMGE, no centro de Belo Horizonte, Dona Aparecida se recolhe. O banco, o guarda-sol e as memórias de mais um dia de trabalho cabem direitinho no carrinho de pipoca. Para não perder o produto, fez promoção e tentou ganhar o cliente pela necessidade de enganar a fome. O cheiro de amendoim subiu em direção às janelas dos edifícios. Ela então pitou o último cigarro de palha… Bem calma, olhando ao redor. Com um pouco de esforço levou para um lugar especial o que garante o sustento da casa, no Aglomerado da Serra. Observei tudo. Aprendi muito com esta senhora de cabelos loiros e pele de maracujá maduro.

(O termômetro eletrônico marcava 15º graus. Muito adequado para observar mais e mais!) À espera, antes de o ônibus chegar, recordei memórias, achados de seis anos. Eu era apenas um estudante do colegial e descia quase todos os dias a Rua da Bahia para chegar a Praça Sete. Um dia me falaram que na vida tudo é impermanente. Mas hoje discordei. Não! Cheguei a esta conclusão, convicto. Ainda hoje fiz exatamente o mesmo caminho de 2005.  Agora, o contexto é diferente: sou assalariado e esse tinha sido mais um prazeroso dia no trabalho. Não hesitei, cumprimentei: “Boa noite, memórias!” Isso em pleno cruzamento da Amazonas com Afonso Pena. Impressionante! Elas ainda continuavam lá, do jeito que tinha deixado quando completava 17 anos. Os prédios, as lojas, o corre-corre da cidade, a beleza das luzes, as árvores, os sons. (A vida pulsa nesse centro de possibilidades).

(Ainda analisando esse meu dia, continuo no ponto de ônibus, com o desejo de voltar à minha querida casa depois de uma semana e quatro dias fora) Ao olhar em direção à Rua Rio de Janeiro, percebi que o microfone tem o poder de celebrizar quem tem o passaporte para segurá-lo. Mais cedo, ainda hoje, entrevistei populares por lá.  As pessoas paravam, contavam causos e “segredos” de suas vidas. Algumas confessavam, “já te vi na TV”. Outras armavam um verdadeiro circo para se verem na tela. Mas de noite, quando saio do trabalho e volto para casa, sou mais um anônimo. No ponto de ônibus, às nove da noite, ninguém me reconhece, ninguém desconfia que apareço na TV. Por dentro, dou gargalhadas. Essa última é a realidade que me agrada. As pessoas passam. Nem sequer ousam saber que agora são personagens de minhas crônicas secretas…

(O ônibus chega.) Nada mudou: ainda tenho dificuldade para ler o letreiro luminoso que diz “1509 / Tupi.” Sento-me ao lado de Patrícia. Ela não me reconheceu. Estudou comigo na quarta e quinta séries (1998 – 1999). Talvez só eu – dentro daquele ônibus – sabia que ela tinha um apetite insaciável quando o assunto era namorado. E também, ‘também’ com certeza, só eu sabia que ela já colocou pó de giz no copo da professora. Uma peraltice daquelas, que hoje é insignificante. Mas, na época, significou muito: quase foi pega pela Senhora Conceição que, para variar, chegou de supetão na sala de aula.

(O 1509 acelera, acelera. Meu coração também: quase na casa Mirante Feliz) O ônibus vence a Rua Jacuí. Quando chega a Av. Cristiano Machado, observo que o letreiro do Hotel Ouro Minas já não é tão iluminado como antes. Por falar nisso, há seis anos, nessa região dos Bairros Ipiranga e União, a Avenida tinha mais árvores. Hoje tem mais passarelas e concreto em formato de viaduto. Achei feio.  Por salvação, um fusca emparelha com o 1509. Fusca azul, bem conservado, fazendo 60 por hora. Um senhor barbudo é quem dirige. E nem sei o motivo, mas tive a impressão – por um momento – de que serei como este senhor sereno quando estiver com 70. Gostei.

(Casa Mirante Feliz) Gostei ainda mais de ser recebido em casa. Pai, mãe, irmão. Ganhei cheiros e abraços. Como senti falta do meu porto seguro. Revi Belo Horizonte, agora da minha varanda. Lembrei de meus amigos. Agradeci…

Al Stewart continua me emocionando com o seu “The year of the cat”…

A política em Itabira.

Ao parar em uma lanchonete na principal avenida de Itabira, três senhores animados discutem política. Eles gesticulam mais do que é aceitável para os padrões da sociedade. Aos poucos, pessoas observam e alguns até arriscam palpites, intrometendo na conversa sem ressentimento. Pela João Pinheiro passam carros, comerciantes, clientes; é o coração comercial da cidade. O mercado municipal é antigo e contrasta com os novos prédios, altos, um quê de capital. Ao fundo, a montanha chora; é o resultado de anos de mineração, desde a década de 40. Os trens sobem e descem as ladeiras carregando o minério de ferro que vai para o litoral e, de lá, rumo ao mundo.

Esse é o cotidiano: Itabira tem pouco mais de 100 mil habitantes. A terra do poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, é seleiro de grandes escritores anônimos. Seria o ferro responsável pela criatividade e facilidade com que os itabiranos têm com as letras? Pois bem,  talentos por talentos, mais um é a política. Ou melhor o ato de discutir política. Retomo o assunto que abriu este texto – Em ano de eleições municipais, a cidade respira ares de campanhas, propostas, debates e mais burburinhos. Até aí tudo bem, quem é que nunca presenciou isso em um município qualquer?

Reforço, Itabira não é um município qualquer. Dos que já conheço, é o lugar onde encontrei participação efetiva dos cidadãos na política local; seja com a vontade de fazer política ou cientes sobre política. Pergunte um Itabirano: O que é “grupão”? O que acham sobre os cargos comissionados? A relação entre PT e PSDB… Opinião sobre Damon e Ronaldo! A emoção de um comício (que aliás, reúnem milhares na praça do centro de 4 em 4 anos). Política é assunto 24 horas por dia, tal como um plantão de hospital que não para. A população que fala “acá” para demonstrar “preste atenção aqui” está na internet… e mais uma vez, debatendo. É o caso do Sugestões de Itabiranos para Itabiranos, no Facebook.

Essa é só uma pequena observação e que me chamou – muito – a atenção. Estar atento e se engajar em algo é um bom começo para mudarmos, nem que seja um pouco, a realidade nua e crua deste país. Serve de exemplo e inspiração para os que consideram política um assunto desimportante.

Por isso sou de ferro.
Itabira, 20h30: Por isso sou de ferro.

Aventuras de turistas.

  • Quando visitei o Rio de Janeiro pela primeira vez, deu vontade de escutar rock, daqueles que balançam o corpo involuntariamente com seus agudos de guitarra. Parece ironia. Não é. Na deliciosa terra do samba de sotaque malandro, “chocrível” pra mim foi ver motoristas furando o sinal vermelho em todos os horários. Passei pela Penha, Ramos, Gasômetro. Quem me conduzia era a Avenida Brasil. Ao fundo, a ponte Rio-Nitéroi e ao lado, lá no alto, o Cristo Redentor.
  • Da segunda vez, levei uma amiga, de hábitos bem mineiros. Não deu muito certo. Eu achava o máximo a terra carioca, não desprezando toda a minha essência de Belo Horizonte – apenas um turista encantado. Ela tinha medo de ser vítima da violência urbana. Não via graça na praia do Leme e preferia, mil vezes, estar em uma cachoeira na serra do espinhaço. Ficou horrorizada com a telefonia celular da cidade. Nada funcionava! Passava das seis da tarde, o sol se pondo numa poesia complexa e tínhamos que encontrar um amigo e uma casa para se refugiar (Refugiar foi o melhor verbo que ela encontrou para dizer o que estava sentindo naquele lugar que misturava natureza com a selva de pedras!). Fora o medo dos bueiros, que voavam e levavam tudo e todos a sua frente. Se minha amiga tivesse habilitação para dirigir carro, pegava o meu e voltaria rumo as montanhas imediatamente. Eu a tranquilizei, calma, tudo é relativo e é coisa da sua mente. Energia ruim atrai energia ruim. Deixe o psicológico de lado e curta a brisa que vem do mar. E ela completou, brisa com cheiro de esgoto.
Rio de Sol.
  • Em meio aquele caos organizado que eu adorava, nosso amigo nos levou para um ponto de natureza boêmia, perto da Lapa. O lugar mais plural que conheci. Mendigos, prostitutas, travestis, gente da alta sociedade, cults.. tudo ali, ao mesmo tempo, agora. Impressionante era a energia de união entre todos. O sentimento de permissão para o fim de semana anunciado pela sexta-feira: muito bom. A mulata sambava descompromissada e atraia olhares de estrangeiros. Um grupo de artistas chegou e espalhou literatura pelo local. Nos prédios, moradores jogavam ovos nas pessoas que estavam nas ruas – Muito barulho para quem queria ter algumas horas de descanso.
  • De repente, os travestis, que estavam no início da avenida, começaram a correr e a gritar. Foi o estopim para que eu e minha amiga levantássemos da mesa do bar, aos berros também, em direção ao desconhecido. Nessas horas, passa tudo pela cabeça de quem foi sugestionado a encontrar um lugar violento. Eu a segurei pelas mãos e, no primeiro carro que vimos estacionado, nos jogamos debaixo dele. Tentamos nos esconder de balas perdidas, de um assalto, de não sei lá o que. Fato é que conseguimos a proeza de assustar todas as pessoas que ali estavam. Quando os travestis passaram, todos concluíram que não se justificavam os motivos para o pânico. As meninas resolveram brincar… e de assustar turistas mineiros, arredios e desconfiados.
  • A minha amiga jurou que nunca mais botaria os pés na cidade maravilhosa. Um desabafo de momento. Voltei com ela mais uma vez, em 2012. Fomos de avião e, ao desembarcar no Aeroporto, outra probleminha: nenhum taxista queria nos levar até o bairro de Santa Tereza, há 7 km dali. As ladeiras eram fortes demais para os carros. Ela, petulante, emendou: é, então nunca vá a Minas e continue com sua cultura de praia. Mesmo com todos os pesares, eu continuo amando o RJ; assim como é.

O bebê, o pai e a esposa.

Junho de 1995. O médico afirmou sem rodeios:

– Ou ela ou o bebê.

O pai percorreu o corredor do hospital até chegar a um jardim. Suspirou. Não queria pensar em nada. Apenas repassava consigo o filme do que havia vivido com sua esposa. Não tentou questionar e também não falou com ninguém. Era um caso de eclâmpsia. A mãe, antes do parto, desconfiou: algo estava errado. Não era o primeiro filho. As contrações estavam fortes demais. A equipe médica não tinha a afinação como a de uma orquestra. Existiam ruídos e isso a preocupava. Só pensava que queria salvar aquele ser que carregara nove meses em sua barriga.

– Os dois.

O pai foi recebido em uma sala branca e sem vida. Assim disse categoricamente.

O trocador (e mais tarde motorista de ônibus) – desde a juventude na década de 80 – conheceu a recém-formada do segundo grau (e estudante de magistério) próximo das seis da tarde. Ela pegava a linha 79 na Avenida Amazonas, na Praça 7… Na volta do trabalho, encontrava com uma amiga de infância próximo a uma papelaria. As duas seguiam conversando até o ponto. Naquela época, a situação financeira da família não era boa. Perdeu a conta de quantas e quantas vezes teve que fazer economia para o orçamento mensal não apertar. Ao subir as escadas do transporte, abria a bolsa e se preparava para enfrentar 40 minutos de viagem.

– Boa tarde. Não temos dinheiro suficiente… podemos passar nós duas pela catraca?

– Ok, vai. Só por hoje.

A troca de palavras foi suficiente para descobrir que aquelas eram almas gêmeas. O trocador morava no mesmo bairro que a estudante de magistério. Que sorte! Em três meses, engataram um relacionamento. O tempo para a paquera era no ônibus mesmo. Ela ia até  o ponto final e lá selavam o compromisso com o beijo. Namorar, naquela época, era difícil. Pais rígidos… prevalecia a lei da educação familiar tradicional.

A manhã estava ensolarada. Graças a teimosia do pai, o filho nasceu saudável e a esposa estava se recuperando bem da cesariana. Tinha fé que tudo seria superado.

O menino veio com bochechas rosadas e cheirinho de bebê – claro. Ambos tiveram alta logo.

A rodoviária e a vida.

As nossas despedidas sempre são feitas na rodoviária. Frase minha e que pertence a ela. Falo de um momento íntimo, compartilho o que é bastante significativo. Lá, entre rodas e pessoas, não há tempo para racionalizar. A entrega é completa na plataforma de indas e vindas. Até que alguém buzine: o último abraço, o penúltimo olhar. As malas representam a dor do ato “ir embora”. A certeza do até breve está na bilheteria, na remarcação dos bilhetes para uma data próxima. Contudo, fica a esperança de que somos meros passageiros ao descer as escadas bem apressadamente para não perder o ônibus. E ele nos leva para um destino que muitas vezes desconhecemos. Ou por puro charme, conhecemos. Mas queremos explorá-lo como se fosse a primeira vez. Ah, vale aqui uma observação. Se tem amor, e sendo ele verdadeiro, pode esperar! O telefone celular vai tocar… tocou. E é para desejar, mais uma vez, a necessária certeza de uma boa viagem.

Dos encontros, eu não paro de projetar como seremos daqui há 20 anos. Um futuro próximo e distante. Como estaremos?

Por que a sexta-feira parece caminhar mais depressa quando você vive uma eternidade nesse mesmo dia e ainda em boa companhia? A semana estabelece limites, nomeia espaços. Assim continuamos.

O tempo passa. A vida passa. BH passa.
O compasso do passo.

Café, um violão e os reencontros.

O cheiro do café coado me acordou. Raridade. Em casa não tinha o hábito de fazer isso logo pela manhã – nem à tarde, tampouco à noite. 3 pães de sal, outros de queijo. Um frio gostoso se enredava com o sol – esse último insistia mostrar toda sua potência entre as nuvens nubladas. Ventava forte: O meu quarto estava aconchegante e era isso que importava. Na última noite, ela se deitou em conchinha no colchão de solteiro e dormiu o sonho dos deuses. Sem ajustes, sem cortes: se permitiu, apenas!

Ao amanhecer, quando ainda estava de pijama e depois de tomar o seu sagrado café, já estava na sala, tocando o violão. Delicadamente, passava as unhas nas cordas e produzia um som. Músicas clássicas e barrocas, de acordo com a sua sensibilidade e habilidade. Tinha um aparelho engraçado, o metrônomo. Ele media o tempo e ela adequava o ritmo. Disse que era para treinar. Estava na escola de música desde o início do ano. Talvez não tinha percebido: tinha um quê de perfeccionista e, por isso, iria conseguir um de seus objetivos a médio prazo: tocar bem.

A cena me transportou para alguns dos momentos que já vivemos. para o Rio de Janeiro, quando fomos visitar um grande amigo. Esticamos até o parque nacional da tijuca. Iríamos conhecer uma cachoeira tipicamente carioca… e quanta decepção. Não chega aos pés das cachoeiras de Minas Gerais. Sem ressentimos ou críticas baratas. Cada um com sua natureza. Fizemos uma trilha, com o pé na terra molhada; fenômeno produzido pelo orvalho das árvores que balançavam lá do alto. Clima de verão, paisagem puramente verde. Por ser bruxa (e esqueçam o tom pejorativo!), adorava as árvores. Viu um portal e oportunidades. Me convidou para um passeio de reflexões internas. Me fez descobrir as possibilidades da mãe natureza. Foi uma viagem fantástica – de fraternidade, amor e paz. Quem é que não quer viver momentos como aquele diálogo do seu filme predileto?

Todo mês visitava minha casa. Meu ponto de apoio. Sempre ao acordar, me abraçava. A troca de energias era um fator básico para começar bem o dia. Pena que o resto do mês não contava com sua presença física, bem ao meu lado. Era a prova da mais pura amizade ao longo do tempo e de reencarnações. Eu reencontrei minha velha e grande amiga. Uma permissão, minha terapeuta.

Nós nos entendemos. O tempo, sempre ele, fez questão de deixar isso claro: a necessidade, reitero, dos reencontros – para continuar com serenidade o caminho.