Alguns relatos sobre a fé: Santa Rita de Cássia

A fé: Mamãe subiu por várias vezes as ladeiras do Santo Antônio, em Belo Horizonte, para pedir bençãos à Santa Rita de Cássia.

Eu sempre desconfiei: Fui um bebê teimoso, que não queria nascer. O médico marcou a data para abril. Fui chegar em maio. 1 mês de atraso. Talvez, por n motivos, me arrependi de última hora: não queria estar mais uma vez neste mundo. Aprendo grandes lições desde pequeno – aliás, estamos na terra para o aprendizado.

Nasci em 23 de maio. O dia de Santa Rita de Cássia é 22. Ela intercedeu para que estivesse hoje onde estou: segurando minhas dores, me amparando… orando para me dar forças.

Essa minha história descobri a pouco tempo. Mas eu sou grato. Por tudo.

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A jornalista.

Ela briga com o lead: daquela necessidade urgente de se reportar em poucas linhas. Defende a tese de que se lutamos para sermos seres humanos mais completos, temos que começar com a leitura; completa, fiel, saborosa e acrescentadora de cultura e visões de mundo – seja ela no jornal, em forma de reportagem, em artigos, livros ou matérias mais simples.  Das minhas falhas, uma das piores foi não desenvolver o hábito de escrever para o impresso. Não tenho texto para sustentar uma revista. E novamente ela questiona, a hora de começar é agora.

O sol de inverno veio mais forte este ano. Como é que se dá tempo à introspecção em climas que se parecem com o verão? Da minha casa, vejo o céu limpo e percebo que a lua vai ser cheia pela noite. A serra da piedade é envolvida por uma neblina em pleno horário das três da tarde. Belo Horizonte está ao fundo. Mas não penso nela. Estou na internet, farejando por cidades nunca antes conhecidas por mim. Brasília, Salvador, Curitiba. Vale comprar a passagem que está mais barata. O bom do boom das empresas aéreas no Brasil é justamente esse.

A jornalista passa a minha frente e me observa. Finjo que não noto, arquitetando pensamentos. Escapo-me:

– Por que jornalista sempre se casa com jornalista ou por que jornalista sempre namora jornalista?

– Vai ver que os dois se completam. Gostam de notícia, adrenalina 24 horas por dia.

Ela olhou atordoada, quase não respondeu. Quando a gente fica mais velho, se vão mesmo os pudores! Não devia ter comentado nada – ainda mais em voz alta. Ela se senta ao lado da minha cama, no chão. O que gosto na jovem jornalista é o compromisso com a notícia e com a liberdade. E assim estava: de roupa íntima, comendo pão, com pés descalços, assistindo o noticiário da TV que falava sobre as Olimpíadas de Londres. Por um instante, me esqueci que sou jornalista também.

Sem ela saber, analiso toda a cena, pareço psicólogo. Acabei de mudar para minha própria casa, alugada – filho que resolveu sair aos 24 anos da casa dos pais (o que já era hora!). A comemoração veio em bom tom, espaço e companhia. Convidei apenas ela e somente ela para conhecer o ambiente. Gostou. Cada um com seu notebook e falando sobre alguns desdobramentos políticos.

Bem ao estilo jornalístico, se levante, bebe um copo de suco e vai para o banheiro. De portas abertas, toma uma banho. Provocadora, como toda essência do jornalismo. Eu coloco uma música para ajudar no clima.

(…) Depois, ela lê o meu texto. Aponta falta de coerência em algumas sentenças e erros de pontuação.  Eu a relembro que este é um espaço livre, sem a chatice das regras, para guardar minhas anotações diárias. Falo que gosto da inovação, de liberdade também e simplicidade. Quanto mais, melhor! E pronto. Pontuar é o nosso trabalho, saber respeitar é hábito de poucos. Por sorte, tinha o último.

E assim foi a tarde. Quis ler um livro e descansar sem compromisso: domingo!  A semana seria dura, porém bem mais fácil depois do descanso em uma casa nova.

No supermercado

– Você é de Belo Horizonte. Me lembro que contou… e foi da primeira vez que esteve aqui. Sua família, como está? Me disse também que seu pai é comerciante. Acá, está no sangue e é impressionante, certo? Quase um dom!

– Seu Diógenes, é praticamente um dom. Coisas de Deus e escolhas nossas antes de colocar os pés aqui novamente…

– Sabe o que me impressionou? Como é que vocês conseguem vender à moda antiga nos dias de hoje? E ainda em uma capital, cidade grande como Beagá?

– Essa receita o senhor sabe muito bem. Não é um dos fundadores da maior rede de supermercados do interior de Minas?

– É, mas eu optei pela simplicidade do negócio!

– Pronto, Seu Diógenes! Tá vendo? Simplicidade é a palavra-chave.  As pessoas não querem apenas comprar. Buscam por amizade. Elas querem compartilhar o que deu certo e errado na receita sugerida. Ou até mesmo falar sobre os problemas pessoais. É isso que faz a diferença. Do outro lado do balcão, pessoas como você: prontas para ouvir e atender bem.

O diálogo era observado pelo assistente do caixa, que embrulhava em um papel de jornal o rum que eu havia comprado. Enquanto tentávamos encontrar qual era o segredo do negócio para mercados de médio porte com ares de armazém fazer sucesso em Minas, o rapaz observava tudo, com um grande sorriso no rosto.

– Tchau pra você também moço! Obrigado por empacotar a bebida!

– Brigado seu menino. É um prazer pegar na sua mão, gente da capital, de importância. Uma boa noite pro senhor.

Toda vez que alguém me chama de senhor conquisto alguns pontos de credibilidade na minha cara de adolescente. E numa mesma frase, senhor e menino. Chamou a minha atenção. O assistente só ainda não descobriu que gente de importância é ele – vivendo no interior, com tranquilidade e levando a vida com serenidade – o que parece ser!

Das contradições.

Há um eu dentro de mim mesmo que grita por justiça. O outro, clama pela parcimônia. Definição maior de contradição não há. O resultado é um ser incompleto, de angústias e alegrias. Quem é que busca pela total perfeição neste mundo de possíveis e impossíveis?

INDICADORES CULTURAIS

Ela me reencontrou longos anos depois – pela internet. Os familiares achavam que ia acabar em casamento. Mas o destino desenhou outros caminhos. Quem é que disse que nossa vida não dá história de cinema?

    • Eu guardava um convite para um dia no circo até pouco tempo atrás. Ele se perdeu – e tenho certeza, foi em uma daquelas faxinas que a gente faz na vida; da tentativa de deixar longe a insegurança, a inconstância, a impermanência. Eu gosto de ter essas pequenas lembranças comigo: do que fomos, do que somos e do que vamos nos tornar. Faz parte da minha essência, do meu ideal que ainda insiste em não se perder por esses caminhos de dualidade. Foi muito boa a surpresa de encontrar você assim: já mulher, com ares de independência! Parece loucura, sonhei com seu sorriso até pouco tempo atrás. Redescobri novamente, sem clichês, existem pessoas que marcam. E não é apenas pelo fato de que nós nascemos no mesmo dia ou que somos almas gêmeas… (Pode ser que sim, pode ser que não). Aliás, parando para pensar, o sim e o não sempre me acompanharam. É assim com você? Talvez é pelo fato de sermos geminianos, dessa necessidade de respirar novos ares a todo momento – onde as novidades funcionam como combustível. Eu me lembro da criança que fui: ranzinza de bom coração. Agora, cá entre nós, me lembro também da sua educação e do seu enorme coração. Hoje, do jeito que o tempo moldou. Espero que não se assuste com as palavras. É que quando a gente vai ficando mais velho, os pudores vão indo embora. Ah, e antes de desejar serenidade e paz, fica o esclarecimento para o início deste texto. O convite para um dia no circo foi seu e foi enviado a mim por seu tio, lá nos idos de 1996 ou 1997. Um grande abraço!

Quando o corpo somatiza.

Fui diagnosticado com melancolia.

Manchas roxas apareceram por todo meu corpo, principalmente nas pernas e nos braços. Uma resposta do organismo: são questões que não foram resolvidas e com uma boa dose de stress do dia a dia. A primeira reação, sempre negar. Somatizei, somatizei.

A mudança vem da nossa força de vontade. De reconhecer que preciso de ajuda. Muito jovem ainda para se deixar vencer. E como gosto de desafios, coloquei em pratos limpos.  A namorada que se foi para outro plano, solidão, auto-estima baixa, pressão no trabalho.  Notei que estou sem paciência ultimamente, com preguiça de fazer coisas que antes eram prazerosas; nada está bom e reclamo demais dos outros e de mim mesmo. Essa nunca foi a minha essência… Dessa urgência de atropelar as coisas e os outros… Eu me descuidei. Agora,  uma nova etapa, de descobertas internas. Não é o inverno, tempo de introspecção?

Resolver pendengas não-resolvidas. E deixar de lado o sorriso meia boca. São grandes metas para os próximos meses. Estarei na oficina, cuidando do que é mais precioso para mim. De tempos em tempos, isso é bom.