Café da manhã.

Não é que ele seja desatento ou egoísta. Mas para notar uma mulher, ela deve ter necessariamente algo que as comuns não tem. Detalhes que são bem definidos na cabeça do menino: um gesto, um corte de cabelo, uma poesia ou modo de falar – uma lista que se torna unidade. Ele só queria algo a mais do que o velho conto das duas metades de uma laranja; a possibilidade de ser surpreendido todos os dias sem cair no marasmo da rotina.

De tempos em tempos, esse perfil chega e vive tudo o que tem que viver com o menino; quanto mais inusitado for, melhor. Divide os seus encontros como se fosse as estações do ano; verão é amor quente; outono é tempo de serenidade; inverno é mais introspecção e cineminha; primavera é o despertar para compartilhar algo a mais com ela.

– Moça, um café com leite, um suco de laranja e um pão com manteiga na chapa, por favor. Ah, o café com leite primeiro!

Às 7h, em uma padaria, o alinhamento perfeito. Quem tinha esse paladar e essa necessidade de misturar café com leite e suco de laranja pela manhã? O olhar imediatamente foi desviado para uma jovem de cabelos castanhos, encaracolados e de boca marcante. O menino ficou paralisado, em um primeiro momento… e não pela beleza dela. Mas com o pedido que era igual o dele. Ele já tinha tomado  o café com leite e acabado com o pão com manteiga na chapa. Faltava a laranjada, fonte vital para os seus neurônios.

Ela se sentou ao seu lado. Tinha uma bolsa. Parecia tudo muito corrido e respirava ares que estaria atrasada. Mas aquela era uma pausa oportuna, de um momento de tranquilidade ( em um dia de cão que teria).

– Eu também deixo o suco de laranja para o final. Você sabe que tenho uma amiga nutricionista e ela me disse que apenas um copo pela manhã é capaz de suprir as necessidades diárias de vitamina C do nosso corpo para o dia?

Ela sorriu. Pensou por um instante quem seria aquele atrevido que lhe queria ensinar nutrição.

– É. Eu sei. Sou nutricionista. Aliás, você sabia que esse é um momento sagrado? Pena que hoje estou apressada. Mas nesses próximos dez minutos vou me concentrar para tirar o máximo de energia desses alimentos. Gosto de tomar café com tranquilidade, em casa, com mesa posta e cheia de frutas. Só assim minha capacidade cognitiva melhora… e bem. Prazer. Mas quem é você?

– Hummm… Isso lembra a minha infância. Mas depois que cresci, agora é parte do passado. Sou jornalista e minha rotina é corrida. Moro sozinho, não tenho tempo mais para esse luxo. Até o yoga deixei. A qualidade de vida deu um tempo maior em minha vida. Mas algo de que não abro mão é de ter o brilho nos olhos e contemplar sempre a vida.

– Já importa muito. E você sempre toma café aqui? Nunca te notei por essas bandas.

Foi engatada a primeira marcha. O menino esqueceu por um tempo que não tinha mais tempo. E, como ele disse, quis contemplar a vida – nesse caso, nos cabelos encaracolados e no delicado gesto de se beber um copo de suco. Conseguiu até tirar boas risadas da menina nutricionista. Parece estranho? Pouco importa! É que ele tinha bem definido o que chama a atenção dele em uma mulher.

 

INDICADORES CULTURAIS

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Tudo o que vai.

Eles passarão. Eu passarinho. O grito de socorro pela vida vem dos meninos que estão sentados ao meu lado, em uma mesa suja e fria, de uma noite qualquer de sexta-feira. Eu queria ser antropólogo para me dedicar mais a observar essas crianças que, aos 15 anos, já fumam, bebem e roubam. Tento conversar, me mostrar humano. Mas elas parecem não notar minha presença. Estão entorpecidas por algo que só Deus pode explicar. Qual o caminho daqui pra frente? E o planejamento perante a situação preocupante, elas têm? A sociedade tem? O governo tem?

Minas tem dessas surpresas. Ao virar o quarteirão, é a cultura que me acompanha. A cidade cresceu, se reinventou e se transformou. No viaduto de Santa Tereza, em Belo Horizonte, faxina para chamar atenção da sociedade. O viaduto precisa de reforma, de infraestrutura para abrigar melhor as atividades culturais que acontecem ali não de hoje. A necessidade mostra que é preciso sempre lutar para resolver os impasses: nesse caso, inclua um projeto de revitalização para o local – tem projeto, da Prefeitura, mas não saiu do papel até hoje (em fase de orçamento).

Assim começa mais uma semana. Me despeço da outra. Pedindo cada vez mais serenidade e parcimônia.

EX-VOTO, DE ADÉLIA PRADO

Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida
E uivar até me secarem os ossos
Que queres que eu faça Deus?

Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Você é muito sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo

Respira fundo, insistiu !
Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico

Que ex-voto levo à Aparecida se nao tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.

Eu nunca ia ser budista!
Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?

Minas tem coisas terríveis.
A serra da piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.

O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.

Meu coração é bom mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia.
Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?

Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!
Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.

Me imploram amor Deus e o mundo.
Sou pois mais rica que os dois.
Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.

Quase entendo a razão da minha falta de ar
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.

A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.