Caderno de escola.

– Leve, como a vida deveria sempre ser.

O menino estava cansado daquela rotina: automática e sem novidades. Resolveu fazer um exercício mental. Foi vasculhar os tempos de colégio nos porões de sua mente. O que encontrou, não lhe agradou. Até pouco tempo atrás, poderia lembrar das situações que vivera com riqueza de detalhes. Mas o que aconteceu? Se culpou por esse desencontro, inconformado.

– Como pude esquecer? Essas são as minhas memórias e ninguém pode apagá-las!

Num ímpeto impensado, abriu o armário da escrivaninha. Lá estavam dois cadernos. Um de 1999, páginas amareladas e envelhecidas pelo processo natural das coisas. O outro, dos anos 2000, em arame. A letra parecia diferente. E era! De pré-adolescente que começava a enxergar a vida. Algumas anotações sobre retas paralelas… registros das definições dos tipos de substantivos. Tomou um copo d’água e se acalmou. Essa aventura tinha começado com propósito diferente: queria rever suas memórias esquecidas. E se enveredou por outros campos, o da compreensão.

– É uma seleção natural… não é preciso que me lembre de tudo. Afinal, as principais experiências estão aqui, vivas. Que graça teria lembrar de detalhes de cada dia daqueles anos? A confusão seria enorme. Bem mais do que a capacidade cerebral permite. Eu não…

Terminou com frase negativa. Não para negar o que fora. Mas era uma forma de deixar o não para lembranças que agora não fazem mais sentido. Elas devem ser varridas, com todo o respeito, dando lugar ao novo. É assim que se pratica e aprende a simplicidade. A última sempre foi e será uma busca constante do menino… que agora já é adulto.

Caminhar.

Em outras épocas, teria procurado um templo católico para pedir orientação. (“O que queres que eu faça, Deus?”) Mas diferente do menino afobado, ainda imaturo com o fluir da vida, agora não era portador daquele desespero infindável. O aprendiz ainda não saíra dessa condição. Não estava pronto e nunca estará – essa, aliás, é a razão humana. O que mudou, (e ele tinha certeza!) é que algumas respostas lhe foram dadas. Foi apenas para agradecer e reconhecer como cresceu.

Lembrou de uma tarde em Uberaba, Minas Gerais. Descobriu que o sentido da vida poderia ser outro, mais pleno, aberto, sereno e de caridade. Nunca esteve tão perto de Chico Xavier e de seus exemplos de dedicação às pessoas. Em um centro espírita, recebeu uma mensagem.

– Estamos atentos ao seu pedido. Confiemos.

Voltou à capital. Não com o sentimento de que todos os seus sonhos seriam realizados. Certo de que não estava sozinho nessa caminhada.

40 anos.

A fantástica invenção do universo? A roda – com ela deixamos de ser quadrados. Depois veio os seus derivados. O círculo, por exemplo. É nele que aprendi que a vida não é a arte de viver, é a arte da convivência. É esse o significado que encontro e reencontro nas músicas do Clube da esquina. O tempo passa e as letras que os irmãos Borges e amigos (como Milton Nascimento) compuseram… continuam sendo atuais!

Clube da esquina, hoje e sempre.

A maturidade chega aos 40 anos. Apenas isso e vida longa ao Clube, de Belo Horizonte, de Minas, do Brasil.

Por que se chamava moço, também se chamava estrada. Viagem de ventania. Nem lembra se olhou pra trás. A primeiro passo, asso, asso… Por que se chamavam homens, também se chamavam sonhos. E sonhos não envelhecem. Clube da esquina II

 

A cidade desconhecida

– Não. O medo é uma barreira a ser desconstruída. Venha! Há um mundo de possibilidades, bem aqui.

Tudo parecia tão irreal e absurdo ao mesmo tempo. Como poderia flutuar? O ápice da pretensão! Estava desafiando as leis básicas da física, que foram aprendidas com tanta cautela e parcimônia no colégio. Estava acompanhado por uma mulher de fisionomia serena e de voz conhecida. Um caos organizado tomou sua mente e um caminho se abriu. Ao lado daquilo tudo, um veículo – daqueles que se encontra apenas em museus de antiguidades. Sentia que precisava embarcar, dar passos maiores do que seu corpo permitia.

– Onde estou?

Foi o que conseguiu pensar, colocar para fora o que pensava. A mulher serena então sorriu.

– Você está em sua essência. Vamos! Tem muito o que ver e rever ainda!

Rever? Como poderia rever alguma coisa daquele lugar que lhe parecia familiar, mas que nunca tinha estado ali? Por ora, a certeza de tudo o que construiu até aquele momento em sua vida acabara de voar. Voo de liberdade, pedindo calma.

– Eu vou!

A primeira parada? Um cemitério. Rústico, verde, sem túmulos modernos. Algumas lápides antigas. Árvores que demonstravam alegria. Elas estavam felizes com a presença dele. Não conseguiu ler o que estava escrito em uma placa do túmulo. Parecia efeito de photoshop.

– Por que não consigo ler? Cadê meus óculos? Sempre os esqueço quando mais preciso deles!

– Não se preocupe. É que aqui está parte do que foi alguns anos atrás. Não é necessário ler o que está escrito. Apenas sinta.

A brisa veio como uma luva, protegendo-o da nova certeza que tinha. Aquilo parecia fazer mais sentido do que as aulas de ciências exatas que tivera. Quando olhou para o céu, viu nuvens em formato de coisas. Aliás, o céu estava tão bonito que se emocionou. Nunca tinha visto um degradê tão vivo, dinâmico, de servir como colírio para as vistas. Por fração de segundos, estava mais uma vez flutuando.

– Que cidade linda! Tenho certeza que é alguma da Europa! É a minha cara. Olha aquela senhora lá embaixo… quanta generosidade!

– Sim, você sempre gostou disso. Casas simples, montanhas, verde. Vida simples e de tranquilidade.

Foram transportados para o alto de uma montanha. No pico, uma igreja, católica, antiga, de pedra. O menino tinha descoberto dentro de si que passara momentos inesquecíveis naquele lugar. Soava familiar o sino, o altar, os bancos.

O passeio continuou. Tinha conquistado aquele privilégio. Mal sabia ele que quando acordasse, ia ficar com um gostinho de que precisava fazer algo a mais – para a sua vida, para a família, para as pessoas.

“Sei que não dá pra mudar o começo. Mas o final…”

Elisa Lucinda disse:

– É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz. Meu coração está aos pulos. Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Acertou. Tradução para o momento? Educação vem de berço.  A mulher, pela manhã, me contou como as crianças devem ser educadas (Com rigor, se preciso for). Eu nunca gostei de manuais  – daqueles que a gente encontra na faculdade de jornalismo: como escrever um bom texto, como ter estilo, como surpreender os leitores. Mas para se criar o hábito da educação, abro uma exceção.

As pessoas gritam, falam palavrão desmoderadamente, transpiram bobagens. Acham tudo absolutamente normal? Eu não.