Cotidiano

Talvez a cidade respire as músicas de Milton Nascimento e do Clube da esquina. Ou melhor, talvez foram eles os campeões em traduzir  o que esta terra de minério  de ferro e de montanhas milenares tem, em sua essência, de bom. São assim como são.  A corda do violão dita o que está escancarado em nossas ruas e avenidas: Apesar de todos os pesares, somos serenos.

Eu gosto desse jeito nosso falado.  Dessa coisa de comer sílabas. Da maneira de expressar. Falo de Belo Horizonte. É a cidade que, lá no plano espiritual, escolhi nascer. Sou cercado de curral: para me mostrar que minha natureza é de simplicidade, do café passado na hora, do pão de queijo.

Eu posso presenciar todos os dias o encontro de Afonso Pena com Amazonas. Bandeira com Mangabeiras. Observar que em meio a um caos organizado, o topo da serra me orienta, não me deixa ficar perdido – em qualquer lugar que esteja, basta me concentrar  no horizonte.

Bondosa, é assim que a música diz.

Observo.

A preferência é para o café com leite quando se está fora de casa. Parece tão simples de fazer, observando de longe (…) vem o cheiro do pó de café – que vira ‘coado’, na hora. A manteiga tem outro gosto, assim como o pão de sal. Quando se é visita, a saliva faz  questão de sentir e apurar os sabores com calma. É uma pena que o cotidiano não permite que seja sempre com essa suavidade.

Por falar nela, que engano achar que o beijo deve ser invasivo. Escuto a conversa de dois jovens, que estão na mesa da fast-padaria. Eles parecem desconhecer que beijo bom também é aquele dado com suavidade.

Aliás, essa é uma palavra que parece ter sido abolida do dicionário. Para mim, não.

Este é o meu carnaval.

O meu carnaval é feito de sutilezas. Eu só queria subir ao topo da montanha mais alta da cidade. Era para estar em sintonia com minha essência: E fiz. Como recompensa dessa ousadia, ganhei duas estrelas – que fizeram questão de brilhar forte, um céu em degradê (daqueles típicos de verão), uma grande amizade e fotografias para eternizar aquilo que já ficou escrito no passado (e que vai ser cuidadosamente contado aos meus netos e bisnetos).  O meu sapato preferido estava em sintonia com o minério de ferro e com a terra de Drummond. “90% de ferro nas calçadas. 80% de ferro nas almas.”  Eu não entendo tanto sofrimento do meu poeta se só encontrei alegria em Itabira. Sentado em uma mesa de bar, percebi que o movimento da vida é como o da avenida principal em um dia de feriado. Algumas boas surpresas, outras nem tanto. A segurança de estar com alguém.

Por isso sou de ferro.
Por isso sou de ferro.

As fotos antigas que encontrei me revelaram um passado de alegria. Das dificuldades que foram vencidas com amor. Do tempo, que é implacável, e atende a todos, sem pré-conceitos. Uma arquitetura que ficou nos anos 70. E outro dia estava lendo sobre moda; a nossa, brasileira, começou a ganhar identidade na década de 1960. Mas o P&B me mostrou que nem por isso as pessoas deixavam de ser estilosas na década de 50. O casal andando feliz em uma cidade qualquer. Ele segurando um cigarro, terno impecável. Ela com vestido de invejar madames dos nossos tempos modernos.

Nem o pesadelo da última noite conseguiu me abater. Eu estou em casa, eu sei, e meu coração está batendo mais forte. “Se o mundo é grande demais, sou carro de boi. Sou Minas Gerais.”

 

A chuva

Não quis repetir aquele gesto involuntário, impensado, sem despreocupações; Queria ver a chuva da janela, como ela era, (perfeita!) em  harmonia com a natureza das coisas. Um mimo para quem sempre viveu em cidade grande.  As gotas d’água se misturavam a poeira, viravam som nas rodas dos carros e despertavam aquela vontade incontrolável de dormir.

Durante a semana, aprendeu que era preciso deixar se embalar. A vida não segue roteiros.  Ser mais natural se preciso for, com menos essência de pedra para algumas situações. Se pudesse, colocaria a sua frente um espelho e diria em bom tom algumas respostas para muitos questionamentos que fizera no passado. Não que esteja pronto, longe disso. Mas era preciso deixar bem claro o que antes era motivo de preocupação. ((Hoje, é apenas uma resposta clara, como o sol, que se renova todos os dias)).

Via um quê de desajeitado em seus passos e coordenação motora. Mas talvez isso fosse um charme, o zumbido que acompanha a abelha e lhe dá certeza que está viva, com vida pulsando em suas entranhas.

Concluiu que tem vontade de abraçar a todos. As vezes briga, discute. Mas a sua essência é outra, de paz, e de capacidade em não odiar nada e ninguém.

A chuva parou. Só resta agora o barulho da água caindo dos telhados. A filosofia também parou. Pensou na amiga que está há 100 km de sua cidade. Olhou para o céu. Não encontrou a lua. Mas viu um mar de nuvens. Era o universo tentando mostrar que não é preciso se preocupar. Apenas ser maleável e atento as possibilidades. Aliás, possibilidade é uma das palavras mais fortes para ele.

Vim de verso, andei.
Vim de verso, andei.