A lua e a estrela

O carro acaba de ultrapassar os 60 km/h e desrespeitar a lei. Assim como as placas de fiscalização eletrônica, ele quer deixar explícito; espalhar aos quatro cantos da cidade: sempre fica assim toda vez que pensa nela – (Eufórico, carente, filósofo).

“É ela” – que ele não sabe a sua altura. O sorriso tímido, os olhos vivos e que procuram se atentar aos detalhes. Aliás, a beleza física não importa. A menina morena tem um diferencial que está dentro, vem do coração que pulsa, e é isso que interessa.

Gosta de conversar com ela. E já perdeu a conta de quantas vezes deixou se enveredar por suas palavras, ideias e convicções.

Na mesa do bar, ele se despede. Os olhares se cruzam, pedindo bis. As mãos gesticulam mais do que o normal. Deixar transparecer isso, no infinito particular dele, é quase uma denúncia de suas intenções secretas.

Se alma gêmea existe, ela provavelmente é a dele. Como a lua e a estrela, que estão lá em cima, a conversar. Se complementam perfeitamente, como música de Vivaldi. É claro que tinha que ser assim: são na verdade apenas um.

 

Até a lua e a estrela sabem.
Então você a toma, para encontrar o que está esperando por dentro...

Do sotaque.

Estranho é quando as pessoas me perguntam se sou mesmo de Belo Horizonte. Eu faço questão de colocar em prática toda a minha mineiridade: e inclua nisso o meu sotaque. Foi cuidadosamente concebido entre as velhas montanhas da serra do curral e aperfeiçoado em lugares como a Praça Sete, da Liberdade e Raul Soares.

Vejam só Carlos Drummond de Andrade, em suas raras entrevistas que agora estão postadas no youtube, aquele tom macio de se expressar (…) que só mineiro sabe fazer. Chico Xavier, de Pedro Leopoldo, exemplo de caridade e sapiência, demonstrava com tranquilidade esse nosso jeito de falar. E Elke Maravilha, mineira nascida na Rússia, vive no Rio desde a década de 70, ainda preserva a sua língua-mãe, o mineirês (Lapidada entre Ipoema e Itabira).

Ora! Ora! Se tem coisa que me deixa bravo é paulista ou carioca desprezar ou vir com piadinhas irônicas contra esse nosso patrimônio. Eles devem mesmo desconhecer – o que corre em nosso sangue é minério de ferro e o nosso símbolo de força é o trem.

 

Dos rascunhos da vida – II

Rever minhas fotos: Muitas vezes eu tenho que voltar no tempo para redescobrir que, apesar de tanto crescimento e amadurecimento sobre minhas concepções de mundo, sou uma única essência. Esta, que está aqui desde maio de 1988.

Mas quem sou eu? Talvez depende do dia, do enquadramento, da luz. Fato é que algumas características sempre estão presentes, como a curiosidade e a inconstância. Assim são os geminianos, preparados para uma nova ideia, um novo desafio. É aquela vontade de oxigenar com novos ares qualquer ambiente empoeirado.

Me enquadro naquele perfil de eterno aprendiz. Não tenho vocação para ser professor, como mamãe foi. Apenas quero ouvir, ler, absorver e aprender. Escolho aquele tipo de aprendizagem livre, que a gente encontra – por exemplo – em um encontro com os amigos.

Liliene Dante, Sander Kelsen e Breno Procópio - Amigos reunidos na mesa do Bolão, em dezembro de 2012. "O tempo e o espaço são relativos. Mas a nossa essência, não!"

Gosto de escrever minhas crônicas secretas. Não tem um tema específico. A morena que tem sorriso fácil e jeito tímido é sobre o que coloco no papel ultimamente. Não a conheço bem; apenas duas palavras foram trocadas com a garota: bom dia.

É aí que fica mais instigante. O que há por trás daquela beleza distinta e que me agrada tanto?  Tímida, alegre e de aura pura. O ego toma conta e diz: “É o meu tamanho”.

Ela diz que adora se perder, procurando.
Ela diz que adora se perder, procurando.

Ouvindo Paulinho Moska. Talvez tem razão: Tudo novo de novo. Vamos começar colocando um ponto final? Pelo menos já é um sinal de que tudo na vida tem fim.

Dos rascunhos da vida – I

Escrever em tempos natalinos é diferente. De tanta gente feliz e desejos sinceros para a felicidade, parece que a essência do coração se transfere para as mãos. Tanto incentivo cai bem e o texto corre melhor. Nesses dias, talvez é mais fácil se emocionar – mesmo com palavras duras.

Quando um enredo é bem contado, a gente se torna parte da história.  Sempre admirei quem escreve bem. E sempre tive exemplos bem perto de mim. Quando alguém começa a escrever ao meu lado, vejo o que ninguém vê. O escritor cria um egrégora em volta de si: um clima inexplicável. Mas não percebe isso. Não é por menos, fica horas e horas colocando no papel o que quer deixar eternizado.

Por falar em eternidade, o que quero levar de 1994*?

(*Bom, 1994 é um ano aleatório que escolhi. Assim sou eu: descompromissado de continuidade nos textos livres. O asterisco e a explicação vem logo junto, assim mesmo. Na faculdade me recordo que sempre pediam para fazer algo novo, de oxigenar o mercado. Mas sempre os trabalhos tinham que ser colocados no papel, devidamente digitados e rigorosamente de acordo com as regras da ABNT. Foi um tempo de contradições que me fizeram amadurecer – em muitas coisas. Mas essa é outra história!)

A foto da formatura e da turma reunida!  Aquelas faces nunca serão esquecidas. Já os nomes, se foram. Quem importa? É que eles ainda são parte da minha vida. E me fazem lembrar de como era apegado… No primeiro dia de aula (na escola Bola Azul, 3º período de 1994) não queria deixar minha mãe ir embora. Como pronome possessivo, pobre de mim, a vida tinha que seguir seu curso. E mamãe também.

Ainda guardo o nome da professora. Maria do Carmo. Foi quem praticamente me alfabetizou. Gostava dos livros e da sala de aula. Estudava pela manhã. Tomava café assistindo a Globo. Era um desenho que falava sobre o corpo humano e passava antes das seis. Nunca mais tive a oportunidade de revê-lo… Nem pelo youtube.

Em 1994, tinha medo de helicóptero e avião (Mal sabia que 17 anos depois iria trabalhar como repórter aéreo em uma rádio de Belo Horizonte).  Descobri que sou espírita e, tanto pavor pode ser explicado por causa de experiências que tive em vidas passadas. Mas o que importa é o agora, esta, em que sou Sander.

 

 

Vivaldi

Para entender os efeitos do tempo lá fora, nada como Vivaldi. A chuva, pela primeira vez, caiu em tom de caráter forte. O menino ficou com medo quando olhou pela janela.  O que ele viu, nunca mais vai esquecer: Neblina, que escondia a montanha que protegia a cidade.

Os velhos hábitos precisam ser superados.  Mas o pensamento foi interrompido por uma ligação de um amigo do Rio. Um burburinho entrou na mente e, o raciocínio não se pode concluir. Respirou incenso: Primavera, verão, outono e inverno.

Estava com saudade da alma gêmea. E este vai ser 2012.