Casamento do menino, da janela.

Dessa vez é diferente.  Os recém-casados lideram a carreata em cima de uma rural. O que os movem é a força invisível das buzinas. Elas não incomodam e se transformam em música clássica ao anunciar o amor. Acordam a vizinhança com delicadeza. Convidam, “venham partilhar conosco também a sua alegria!” O menino observa da janela. Ele está encantado e um dia sonha também poder participar de um ritual como esse. Imagina como vai ser a festa em seus detalhes. A união de duas almas em uma só. Uma valsa. Gestos de simplicidade e divindade.  O menino também quer se casar na primavera. Pode ser em outubro, em um dia que não esteja nem frio, nem quente. Mas que tenha cheiro de margaridas e que o sol se desabroche na temperatura ideal. Tem que ter grama verdinha. Não precisa ter cadeiras. Assim os convidados se ajeitariam no chão mesmo, em contato com a terra, bem à vontade. A cerimônia deve acontecer sem pressa. Todo cuidado é pouco para que os sentimentos tenham tempo de ser os mais puros possíveis. Ele sonha com a roupa que vai usar. Um terno branco para simbolizar a união e a paz. Quer sua noiva bonita, com vestido sem muita pompa. Se possível, aquele que combine bem com o seu terno. Ele tem certeza que ela vai estar com um belo laço de flores, entrelaçado com o cabelo cacheado. Sem grandes formalismos.  O esperado sim e a benção do padre serão feitos em um altar de pedras. É que quando se conheceram, estavam andando por terras de pedras, no sul de Minas Gerais.  Até parecia acaso. Não foi. É fácil identificar os sinais quando sua alma gêmea está por perto. É o velho e sábio clichê, amor à primeira vista. Enquanto esse dia não chega, o menino corre. Quer ver a continuação da carreata da janela mais próxima. Ele então sorri e percebe que não é preciso correr.  Tudo tem o seu tempo.

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Fim do expediente. Começo da primavera.

(Noite de quinta-feira, depois do expediente, pós-horário de pico, na volta para casa.) Não precisa nem de relógio. Quando o frio aperta e a lua se completa entre o pirulito e o antigo prédio do BEMGE, no centro de Belo Horizonte, Dona Aparecida se recolhe. O banco, o guarda-sol e as memórias de mais um dia de trabalho cabem direitinho no carrinho de pipoca. Para não perder o produto, fez promoção e tentou ganhar o cliente pela necessidade de enganar a fome. O cheiro de amendoim subiu em direção às janelas dos edifícios. Ela então pitou o último cigarro de palha… Bem calma, olhando ao redor. Com um pouco de esforço levou para um lugar especial o que garante o sustento da casa, no Aglomerado da Serra. Observei tudo. Aprendi muito com esta senhora de cabelos loiros e pele de maracujá maduro.

(O termômetro eletrônico marcava 15º graus. Muito adequado para observar mais e mais!) À espera, antes de o ônibus chegar, recordei memórias, achados de seis anos. Eu era apenas um estudante do colegial e descia quase todos os dias a Rua da Bahia para chegar a Praça Sete. Um dia me falaram que na vida tudo é impermanente. Mas hoje discordei. Não! Cheguei a esta conclusão, convicto. Ainda hoje fiz exatamente o mesmo caminho de 2005. Agora, o contexto é diferente: sou assalariado e esse tinha sido mais um prazeroso dia no trabalho. Não hesitei, cumprimentei: “Boa noite, memórias!” Isso em pleno cruzamento da Amazonas com Afonso Pena. Impressionante! Elas ainda continuavam lá, do jeito que tinha deixado quando completava 17 anos. Os prédios, as lojas, o corre-corre da cidade, a beleza das luzes, as árvores, os sons. (A vida pulsa nesse centro de possibilidades).

(Ainda analisando esse meu dia, continuo no ponto de ônibus, com o desejo de voltar à minha querida casa depois de uma semana e quatro dias fora) Ao olhar em direção à Rua Rio de Janeiro, percebi que o microfone tem o poder de celebrizar quem tem o passaporte para segurá-lo. Mais cedo, ainda hoje, entrevistei populares por lá. As pessoas paravam, contavam causos e “segredos” de suas vidas. Algumas confessavam, “já te vi na TV”. Outras armavam um verdadeiro circo para se verem na tela. Mas de noite, quando saio do trabalho e volto para casa, sou mais um anônimo. No ponto de ônibus, às nove da noite, ninguém me reconhece, ninguém desconfia que apareço na TV. Por dentro, dou gargalhadas. Essa última é a realidade que me agrada. As pessoas passam. Nem sequer ousam saber que agora são personagens de minhas crônicas secretas…

(O ônibus chega.) Nada mudou: ainda tenho dificuldade para ler o letreiro luminoso que diz “1509 / Tupi.” Sento-me ao lado de Patrícia. Ela não me reconheceu. Estudou comigo na quarta e quinta séries (1998 – 1999). Talvez só eu – dentro daquele ônibus – sabia que ela tinha um apetite insaciável quando o assunto era namorado. E também, ‘também’ com certeza, só eu sabia que ela já colocou pó de giz no copo da professora. Uma peraltice daquelas, que hoje é insignificante. Mas, na época, significou muito: quase foi pega pela Senhora Conceição que, para variar, chegou de supetão na sala de aula.

(O 1509 acelera, acelera. Meu coração também: quase na casa Mirante Feliz) O ônibus vence a Rua Jacuí. Quando chega a Av. Cristiano Machado, observo que o letreiro do Hotel Ouro Minas já não é tão iluminado como antes. Por falar nisso, há seis anos, nessa região dos Bairros Ipiranga e União, a Avenida tinha mais árvores. Hoje tem mais passarelas e concreto em formato de viaduto. Achei feio. Por salvação, um fusca emparelha com o 1509. Fusca azul, bem conservado, fazendo 60 por hora. Um senhor barbudo é quem dirige. E nem sei o motivo, mas tive a impressão – por um momento – de que serei como este senhor sereno quando estiver com 70. Gostei.

(Casa Mirante Feliz) Gostei ainda mais de ser recebido em casa. Pai, mãe, irmão. Ganhei cheiros e abraços. Como senti falta do meu porto seguro. Revi Belo Horizonte, agora da minha varanda. Lembrei de meus amigos. Agradeci…