Tem coisas que vão ficar para sempre,

“Plagiando o escritor João Antônio, digo que algumas coisas agradeço na vida: toda manhã acordo e lembro que não tenho carro, que não morri e não sou diretora de nada. Que bom. Mais: sou dona  de uma louvável preguiça solar que, se não me deixa espaço para intelectual, ao menos me dá uma alegria que, assanhadamente mansa, mistura-se por aí. Ah! E os sustos, mas os de estirpe (ser premiada paraninfa: poder, enfim, ir à tal festa no céu, mesmo tendo boca grande). Melhor que isso, diz João Antônio, melhor, só pedindo a Deus uma velhice irresponsável.”

Marta Neves – Paraninfa da turma 2009 de Comunicação Social da PUC Minas.

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De volta das férias, com BH no peito.

Às 13 horas da tarde quase todo belo-horizontino já ficou em dúvida se passava primeiro no Mercado Central ou na pastelaria mais próxima. É comum, já que respiramos ares de liberdade. Você tem fome de quê? ‘Libertas que será tamem’, ou seja, liberdade ainda que tardia. E essa liberdade deve ser cantada e declamada com músicas de Milton Nascimento e Lô Borges, dois pontos e leia-se Clube da Esquina. E esquinas recheadas de sonhos que não envelhecem você vai encontrar em Santa Tereza. Reforçar nossa mineiridade nunca é demais, uai.

Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim

Às duas da tarde é hora de voltar do almoço. O imponente prédio do BEMGE está lá, no mesmo lugar de sempre, entre duas gigantes: Amazonas! Afonso Pena! Mas agora, na minha vida moderninha de adulto, mamãe já não vai mais lá para procurar por dinheiro. O banco acabou, é hora de procurar o Governo.

Às três da tarde, sinto falta do cheiro de café na rua Jacuí, próximo à um prédio azul e branco, com muitos andares e que parece ser residencial. Cruzo a rua, pergunto aos comerciantes mais antigos, “onde está a fábrica de cafés aqui do renascença?” E o bom observador me responde, assertivamente, “renasceu em outro lugar desde o fim da década de 1990”.

Às quatro da tarde, na Pampulha, não dispenso a boa conversa e descubro a mais importante característica de sobrevivência do ser humano: conviver. E não há nada melhor do que exercitar isso nos jardins da Igreja São Francisco. Parar e contemplar a Casa do Baile é boa oportunidade e experiência única de descoberta para você. Tem que experimentar, com a sabedoria de absorver uma frase que renova a alma, “velho sim! Ultrapassado? Nunca!”

Às cinco da tarde, nos corredores da Universidade Católica, é quase impossível não notar os raios de sol que contrastam com a arquitetura. Não sei se é barroco, se tem um pé no modernismo ou na Grécia Antiga. Sei que são colírios para os olhos. Descobri mais, em um ambiente tão acadêmico: A arte funciona mesmo é com infinitas possibilidades de interpretação. E não posso esquecer que o reflexo da luz nas paredes dos prédios do conhecimento e nas pessoas torna o lugar assim: mágico. Será que acordei no paraíso?

Às seis da tarde, na Praça da Estação, vejo a noite chegar. E é na noite que Belo Horizonte vai se acalmando. Maria volta do trabalho, vai pra longe, lá na periferia, sem medo de exaltar: Grande Belo Horizonte! Tem gente que pega metrô lotado, outros preferem o táxi. E como toda cidade grande, os carros estão lá – maioria de um só passageiro – um motorista solitário, que se junta a tantos outros, em pensamentos e talvez até em plano astral: Encontros, mesmo que no inconsciente, são feitos.


Foi nos bailes da vida ou num bar em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir
Foi assim
Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe, tudo tão bom
Té a estrada de terra na boléia de um caminhão
Era assim
Com a roupa encharcada e alma repleta de chão
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se foi assim, assim será
Cantando me disfaço e não me canso de viver
Nem de cantar

Foto: Liliene Dante