Pedaço de papel

Um quê de peculiaridade

É engraçado. Todos nós temos um sentimento forte sobre nossa cidade natal: seja ele de raiva, de carinho ou de nostalgia. Em nosso RG, o registro é da cidade em que você nasceu. As cidades natais contam de tudo um pouco: para as mais elegantes, praças. Para as mais humanas, pessoas humildes. Para as mais agitadas, shoppings e boates. Para as mais tradicionais, construções antigas.

Todas as cidades têm o seu quê de peculiaridade. Outro dia, conversando com uma amiga, descobri o porque de chamarem Barbacena, em Minas Gerais, de BQ. É a abreviação para Barbacena Querida. BQ? Normalmente Barbacena é conhecida, no cenário brasileiro, como a “Cidade das Rosas” ou ainda como a “Cidade dos Loucos” - antigamente, manicômios se instalaram na região, pois acreditava-se que devido a temperatura baixa de BQ, os “loucos” ficariam mais quietos, facilitando assim, o tratamento. Pensar resumidamente Barbacena em uma situação, para mim, é encontrar os amigos para casualmente conversar e se aquecer com chocolate. Doce cidade do Campos das Vertentes, o frio de Barbacena é confortante.

Assim como BQ está para Barbacena Querida, BH está para Belo Horizonte. Da minha casa, tenho visão única. E acredito eu, uma das visões mais bonitas de Belo Horizonte, minha cidade natal: Vejo estações de Metrô, Universidades, casas, vilas, favelas, torres de televisão. Vejo a Serra do Curral, o Aeroporto da Pampulha, o jovem bairro Buritis, o Cafezal. Em uma andada pela Praça da Liberdade, prédios antigos, com arquitetura inexplicável. Pausa para o almoço. Almoçar no Edifício Maletta é grande peculiaridade: por lá, grandes nomes da música brasileira se encontraram - É o Clube da Esquina. Peço um prato típico e observo um casal de namorados discutindo, em uma mesa na Cantina do Lucas, ainda no Maletta. De repente, a música “Um girassol da cor de seu cabelo” na voz de Lô Borges, começa a tocar.

“Vento solar e estrelas do mar

A terra azul da cor de seu vestido

Vento solar e estrelas do mar

Você ainda quer morar comigo?”

Foi cena digna de cinema: a discussão do casal resumida em um beijo e em frases como, “Você ainda quer casar comigo?”, e no clássico “Te amo”. Depois de ir no banco, pegar algumas fotos que deixei para revelação em uma loja, caminho em direção à Praça Sete. O sol começa a ficar fraco, o relógio aproxima-se das seis da tarde. Caminho rapidamente por um desvio da Igreja São José e ao fundo vejo as grades verdes do Parque Municipal. Recordo-me, rapidamente, dos meus tempos de criança: domingo era dia de passear na Feira Hippie e se divertir nos brinquedos do Parque mais charmoso de Belo Horizonte. Já em um ponto de ônibus da Avenida Amazonas, me perco na diversidade: são tantos barulhos, cores, movimentos… Tudo isso é sinal da efervescência de Belo Horizonte. Mais um dia se foi na cidade. Atualmente vejo BH (e não cansando de reiterar, minha cidade natal!) como a Cidade Bondosa. E não como a Cidade das Alterosas. Bondosa, por acolher pessoas de diversas culturas, de outros estados, de cidadezinhas do interior de Minas. Bondosa, por que o clima de vizinhança ainda prevalece. Bondosa, por n razões. Se eu pudesse resumir BH em algumas palavras, colocaria o “uai”, “trem”, “um tiquim, um pedacim, um tantim”, e certamente acrescentaria algumas passagens de uma música do Tia Nastácia sobre BH:

“Bondosa

Bondosa era tão longe

Tão longe ouro distante, distante todas as serras

num Belo Horizonte

Hoje o sonho longe, onde moro é perto

Realizo a vida, Indo aonde quero

zoando quem não sabe, onde sol se esconde

nada disso importa,

tudo é horizonte”

Sendo assim, resumo BH. Mas, veja bem, não defino o que é a cidade Belo Horizonte. Como já foi cantado, definir BH são “coisas que a gente esquece de dizer…”

Soneto de Nostalgia

Um dia chegamos em um determinado ponto de nossas vidas que temos que fazer um balanço. E este momento chega para todos: Vejam só, eu, um jovenzinho de quase vinte anos. Nasci em maio e segundo a astrologia pertenço ao signo da comunicação - sou geminiano. Quando era criança queria ser motorista de ônibus. Tinha medo de helicóptero. Adorava meu travesseirinho do Cascão da Turma da Mônica. Desde sempre, adorava comer massas - nhoque, macarrão, lasanha. É tradição da minha família, descendentes de italianos. Acreditava, inocentemente, nos comerciais da TV. “Panela Penedo cozinha até pedra” - E eu, imponente dizia, “Mãe, compra Penedo e faz sopa de pedras para mim?” Sou de transição: 23 de Maio de 1988. Nasci na década de ‘80, mas minhas lembranças maiores são da década de ‘90. A melhor excursão da minha vida foi ao Detran, onde havia uma cidade de mentirinha e onde carros eram de bicicleta. Me lembro que assistia muito Chaves. Adorava pão com presunto. Domingo era dia de ir na casa de parentes. Adorava meu avô, meu Limãozinho, como o chamava. Avôs e Avós são tudo de bom. Adorava ficar deitado no colo da minha avó. Em um natal, ganhei um ônibus de brinquedo - era o máximo! Sou a criança mais feliz do mundo! E a geração atual que me desculpe, mas não tenho vergonha em admitir que acreditava em Papai Noel. Era fascinado com mágica: Meu tio uma vez fez um truque e fingiu que tirou o dedo dele. Eu fiquei anos e anos tentando descobrir como ele fazia isso. Tenho muitos tios. Me lembro que um desses trazia caixas e caixas de biscoito bauducco para mim. Uma vez, pedi a minha madrinha uma mochila marrom com rodinhas. Ela tinha me prometido me dar no natal. Me deu uma mochila marrom mas sem rodinhas. Tinha ficado maravilhado. Mamãe era professora, mas nunca tive a sorte dela dar aula para mim. Adorava quando ela brigava comigo, exigindo capricho em meus cadernos. E quando veio meu irmão? Como assim, eu não vou ser mais o centro das atenções? Fiquei enfezado! Mas no fim no fim adorava a idéia: Mamãe passava tardes comigo por que eu queria ouvir meu irmão dentro da barriga dela. E eu lá atento com o ouvido: mas ele não vai se mecher mais não? Desde pequeno, sempre tive a companhia de minha prima. Éramos Tom e Jerry. Ela uma vez teimou comigo que a gordurinha da carne de boi era boa para a saúde. Eu, cabeça dura, dizia que não. Ela, para mim, sempre foi exemplo: três anos mais velha, com o sonho de ser médica e cdf. Sempre quis aprender a soltar papagaio. Papai nunca deixou. Prefiria brincar de bola de gude comigo do que soltar papagaio. E eu adorava. Achava tão legal - muito melhor do que papagaio! Aos poucos ia crescendo. Tinha crescido. Minha adolescência foi tranquila: tudo teve seu momento certo. Sempre apostaram em mim, sempre fui um dos referências em minha família. E não podia decepcionar. Acredito que não decepcionei. Uma boa observação: depois que descobri que não queria trabalhar como motorista, descobri que queria ser jornalista. É algo mais forte do que eu. Há algo em mim que insiste em dizer: acredita no jornalismo. Você nasceu para isso. Sempre fui muito tímido externamente. Internamente, arquitetava: Já desejava as menininhas da minha sala de terceiro período pré-primário. Mas sempre fui bobão, adepto não-garanhão em relação aos amores: Meu primeiro namoro só aconteceu em 2001, na sétima série. E não fui eu quem tomou a inciativa. Em 2005, iria me formar. Tempos de vestibular. Não estava aguentando o tranco: escola pela manhã, cursinho à a tarde e mais estudo á noite. “Sander, tá tudo bem? Você pode dar um tempo se você quiser nos estudos” - Mamãe insistia. Não! Nunca fui de desistir. Mesmo que estivesse muito cansado, me recusava. Resolvi apostar em mim mesmo e passei no vestibular - que não é uma das minhas maiores vitórias.

Na verdade, uma das minhas maiores vitórias são meus amigos, minha família. Hoje, se estou aonde estou é por causa de um conjunto de pessoas. Elas me ajudaram em meu amadurecimento, em meu crescimento pessoal. Me deram força, me ajudaram nos momentos mais críticos. Brigaram comigo, porque gostam de mim. Alguns não tenho mais contato. Para outros amigos, pouco contato. Com os novos amigos, novas conquistas. Eu acredito muito neles. São para mim, minha essência. Alessandras, Bárbaras, Camilas, Cristianos, Daniels, Danielas, Déboras, Elisangelas, Natálias, Rodrigos, Fábios, Anas, Marcelos, Fatines, Priscilas, Patrícias, Verônicas, Helenas… A minha fala de Muito Obrigado. Esteja onde eu estiver e onde vocês estiverem.

Um dia, eu só queria reviver meus momentos de quando era criança. A simplicidade de um presente, a simplicidade de um gesto e a inocência de acreditar em publicidades da TV. Eu me recuso, às vezes, de acreditar que o mundo é cruel. Eu prefiro a simplicidade, as verdadeiras pessoas. Eu prefiro acreditar, que um dia, o mundo vai estar bem. Desculpem-me a utopia. Mas precisamos também de viver de sonhos. “E sonhos não envelhecem.”

“É preciso, ter força, ter garra, sempre!”

Uma resposta para “Pedaço de papel”

  1. = ] Ferrari* Disse:

    Meooo…essa barraqueira é clássica!!!

    Conhaci ela pessoalmente…uma figurassaaa!

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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