Elke Maravilha: Um apartamento no Leme, um gato, uma forma de bolo, fotos e experiências (PARTE I)
Estudantes de comunicação da PUC Minas Gerais no Rio de Janeiro, da Penha ao Leme, com escala em Copacabana
A localização não poderia ser mais privilegiada: no Leme, alguns passos de Copacabana. Antes de chegar ao apartamento de Elke Maravilha, o GPS nos ajudava: Sander é o motorista, Everton (primo da verônica) opera o aparelho que nos localiza, Verônica fica atenta quanto a numeração da rua, assim como Gersimara. O carro é estacionado em frente à um supermercado. Já que o Rio de Janeiro é cidade grande, logo o flanelinha chega, “e aí, parceiro, tu quer que eu olhe?” (…) “Manda a ver amigão!”, respondo.
As pernas já não parecem mais responder e em bom carioquês, “caraca, estamos indo conhecer Elke”. Na noite passada, refletimos. “É a concretização de um sonho, que começou há um ano atrás”. Achamos o apartamento. Não pudemos entrar pela entrada principal: “em reforma, utilize a entrada de serviços”, é o que dizia a placa. O porteiro perguntou, “onde vocês vão?”. Daí ele entendeu tudo, o elevador chegou e parou no 2º andar.
Três batidas na porta… Ouvimos passos e tosses. A chave entrando na maçaneta. E, para abusar do clichê, nossos corações estavam quase saindo do peito quando, “Olá, crianças!”. Elke estava vestida com um vestido em tom azul, parecia algo floral, um óculos redondo e claro, sua cabeleira loira. Estava light! Quem nos recebeu também foi Kalunga, um gato de olhos bem abertos, preto e gordo de tanto pelo. “Entrem!”… E cada um abraçou Maravilha.
As paredes da sala eram vermelhas. No chão, caixas e mais caixas do recém novo lar no Leme. “Crianças, não reparem a bagunça!”. Fomos para o quarto… Abrimos os presentes: Uma mandala, Osama Bin Laden, um colar e o protagonista: Cachaça! E assim fluiu a conversa…

Verônica Fraga, Sander Kelsen, Gersimara Coelho e Elke Maravilha: no Leme, às 15h
Sentem-se e fiquem à vontade
“Meu irmão está me ajudando na mudança”. A cama é de casal, mas Elke está separada. “O meu ex-marido agora é meu amigo… não temos mais nada, a não ser a amizade. Ele dorme nesse quarto aí do fundo. Sentem-se crianças!”, trazendo meia dúzia de almofadas. Um peculiar artigo Kitsch para as cinzas dos cigarros consumidos. “Uma forma de bolo sim… é tão mais prático!”. Uma TV à cabo, um guarda-roupa, uma escrivaninha… tudo fazia do quarto de Elke um cenário mágico. Chegamos por volta das 3 da tarde.. e fomos sair de lá só de noite.
Se Elke não é Kitsch, é universal
Perguntamos, “Elke, você é Kitsch?”. “Eu sou tudo o que você quiser, sou universal”. Na concepção dela, o Kitsch é algo engraçado, que pode gerar o riso. “Em algumas fantasias eu sou totalmente Kitsch”, mostrando como exemplos uma fantasia de Alce (já que o nome Elke, em russo é Alce, um tipo de veado) e uma caracterização de Iemanjá (a protetora das águas, fazendo uma paródia já que ela é a Deusa que os portugueses trouxeram). “Mas em outras já não sou Kitsch, por serem caracterizações mais sérias”, apontando uma vestimenta de Nossa Senhora.

Só não gostaria de ficar ultrapassada.
“Procuro fazer uma obra de arte, gosto de fazer de mim uma obra de arte por dentro e por fora. O kitsch é basicamente engraçado. Como exemplo, Falcão é mais Kitsch do que eu… mas nem sempre sou engraçada em muitas fantasias.”
“O kitsch é o meu lado profano”. Algumas características ‘genéticas’ e de formação cultural podem explicar as características de Elke. “Eu sou russa… e o povo russo é louco. Há muito tempo atrás, Carlos Drummond de Andrade me questionou, ‘Elke, você como mineira é tão diferente… o mineiro é contido, é na dele, é tímido… fico matutando a razão de você ser assim’ (…) aí tive que explicar, ‘mas eu tenho sangue da Rússia Drummond… e genética é algo que não se pode negar!’ Daí ele entendeu tudo! Mineiro é aberto até a página 2”
Mas Minas Gerais está com ela, apesar de ter nascido na Rússia e morar no Rio. “Vim para Itabira com seis anos… fui desmamada no alambique! E vocês hoje me deram um presente. Álcool em grego significa espírito. E com a cachaça que trouxeram, me deixaram toda espiritualizada… Meu amor, o álcool tira tudo do corpo, faz uma limpeza. Vocês já ouviram falar de espírito de porco? Pois é, purifica tudo!”
A conversa rendeu… Tivemos, muitas vezes, pedir para voltar ao nosso objeto de estudo. Ela contou sobre toda sua vida. Mas foi proveitoso os ‘causos’ que apresentou. Acredito que fomos mais entrevistados do que ela. “Qual é o seu signo criança?”, e deu a característica de todos pelos signos dos zodíacos.
“Eu nunca escolhi o que ia fazer na vida. Sempre fui a escolhida. Papai, aos 12 anos, me deu o pontapé inicial para a vida… Com os idiomas que me ensinou, fui dar aulas na Aliança Francesa. E era muito boa como professora! Logo depois de um tempo, fui trabalhar em um banco. Estava passando na rua quando uma pessoa me disse, ‘você quer trabalhar aqui com a gente, atendendo pessoas?’ E logo respondi que sim. Adoro pesssoas… Adoro ler pessoas. Álias, adoro conviver com pessoas. Porque viver com pessoas é ultrapassado, né meu amor?”

A nossa única saída é virar gente... e virar gente é exercitar o amor.
Painho tinha um terceiro olho
Painho é como Elke chama Chacrinha. Ela o conheceu através de um produtor do programa, o Haroldo Costa… ‘Elke, quer vir ao programa?’ Mas ela não sabia nada sobre Chacrinha, apenas que ele era um fenômeno de comunicação. Antes de ir ao programa, Elke leu algo sobre o Velho Guerreiro e resolveu ser ela mesmo. “Através das leituras, descobri a principio que ele era um homem muito doido com uma roupa legal… ‘Caralho, e agora?’ resolvi então ir com uma buzina… era uma buzina indiana, pedi a produção do programa uma e entrei no palco buzinando.. Depois disso ficamos amigos. Ele nunca me chamou só de Elke, mas sim de Elke Maravilha”
“Eu faço parte do programa do Chacrinha… eu faço parte disso aqui! Não entendi muito aquela bagunça e percebi que não tinha que entender… Ele era um gênio, verdadeiro representante da cultura brasileira. Ele é de libra, de Pernambuco… E sempre me inspirei também nos pernambucanos… Chacrinha era um pastoril, um velho matraca… um nordestino”
Chacrinha: personagem alegórico com consciência?
Sobre a questão de utilizar alguns artifícios de Chacrinha para tentar driblar a censura ou ir contra a censura nas entrelinhas (deixar seu manifesto), Elke Maravilha responde que, “Ele não tinha nenhuma relação com a ditadura. No palco era um gênio! Convivia com as pessoas, generosidade, grandeza de alma (…) Um palhaço que deu certo na TV. Um dia ele me perguntou: ‘Por que a ditadura não me quer Elke Maravilha’… Eu respondi: ‘Painho, você não percebe o que faz?’ Ele desfilava como soldado nazista! Mas tudo era instinto! Odiava político e puxa-saco. ‘Os cordões dos puxas-sacos cada vez aumenta mais’; cantava isso nos programas.”
“A carnavalização feita por Chacrinha era feita com o coração… nada era racional… tudo instintivo! Não tinha essa consciência de falar nas entrelinhas e passar mensagens contra a ditadura… Nunca teve esse sentimento de protesto! Não tínhamos consciência!”

Se não sou Kitsch, sou universal.
(aguardem a PARTE 2 com as fotos e os vídeos)
1 Comentário
Outubro 14, 2009 às 5:18 pm
Elke é incrível!