Sala de terapia: não se devolve amigo, não se exige amizade (sendo, portanto, não proibido lutar por ela).

Se torna um só – se houver interesse: não se pode namorar sem se transformar em um tanto do outro, quase uns 80%. (A equação do amor explica… e isso é perceptível em pequenas tarefas do cotidiano – quanto menos a pessoa se policia, ah, batata! (…) E aí já vai cantarolando em voz alta a música preferida do amado(a) ao sair do banho; uma pausa sincera e com muita reflexão – ao conhecer de forma tão íntima o outro… representa de forma involuntária os gestos, o modo de pensar e de amar daquele semelhante tão especial).

E é essa coisa da unidade que passa a ser irritante. Opostos, nesse caso, não se atraem. Alguns podem justificar. Mas quando os poréns são colocados na balança, é fácil notar que um está com o outro devido e exclusivamente a suas afinidades ( e elas são fatores decisivos para continuar ou não com as carícias e trocas!). Mais uma observação, de quando o beijo e o abraço são intensos: o mundo e suas dores são esquecidos. Que bom!

Um adendo: até os amigos são colocados para escanteio e sem nenhuma cerimônia. Aí vai uma lista. Aquela ligação que durava horas e horas não existe mais – a conversa longa é dedicada ao parceiro(a). Saudades do antigo fim de semana: sem a preocupação de informar onde está a todo momento. Da possibilidade de fazer uma viagem sem recomendações por parte dos namorados e namoradas… como se não soubesse cuidar, respeitar e observar o limite do próprio amigo(a). Amigos são para pontuar, tosar e fazer recomeçar. A luz no fim do túnel para velhos problemas.

Observe a proporção: quando 4 dos 5 melhores amigos estão namorando… é hora de acender o alerta. Não se deixa de amar a criatura que entrou em sua vida sem cobrar nada, esbanjando carinho e distribuindo compreensão! Aqui, o x da questão, que se traduz pela necessidade de respirar e não se sufocar! É preciso libertá-las do peso que você possa ser. Abra a porta, cuidadosamente… só não se esqueça de mantê-la aberta para quando sentirem saudades (Afinal, amigo é amigo, com ou sem namoradas. O tempo e o espaço são bastante relativos! E pronto e ponto).

Talvez seja hora de colocar sua melhor roupa, estampar um sorriso na face e ir para as ruas conviver. Seguir a dica da poesia. Tempo para reconhecer novos amigos: o ciclo não para.

E nada melhor do que consolidar quem você é. Duplamente melhor quando pode contar com uma pessoa ao seu lado, acima de terceiras e quartas intenções. Aos amigos, conhecidos e desconhecidos, da tríade passado-presente-futuro, um brinde.

A praça e seus andarilhos.

O Sr. Aparecido veio em minha direção falando portunhol – dessa vez, mais português que espanhol. Acanhado (porém com olhos firmes), destilando palavras sobre política e com um boné para proteger do sol escaldante… Ele também queria saber o quanto pesava um microfone. Ele é de uma cidade próxima ao Egito – mas ainda na Europa. Está em Belo Horizonte há 1 ano e fica impressionado com os extremos dos brasileiros.

- Vocês gostam de sorrir, isso é bom… O problema é que tem uma parcimônia danada com os corruptos. Como entender?

O andarilho ilustre observa que há algum tempo está difícil encontrar latinhas por BH (elas são a garantia de renda e sobrevivência do morador de rua). A concorrência está acirrada e é preciso ir até a Pampulha para coletar um grande volume.

- Não dá para comprar direito minhas biritas. Quem é que não quer fugir da realidade de vez em quando?

Sr. Aparecido mora na Praça da Estação, um dos pontos mais centrais da capital. Convive com um grupo de amigos; moradores de rua. O funcionário do Museu – que fica logo em frente) diz que a turma é do bem, antiga…

- Vêm e voltam… Cada dia aprendo uma palavra em espanhol com eles. E o Aparecido tem uma paciência de Jó pra isso. Deveria trabalhar como professor. É fera!

Essa é a Praça. ( Quem desembarcava do trem, no século 19, para apostar em uma nova vida, passava por um grande saguão. A praça da Estação se modificou e nem por isso deixou de encantar os moradores. O prédio – da antiga estação ferroviária – já teve outras caras. A fachada atual é de 1922. Um ano depois, a praça ganhava o nome de Rui Barbosa, uma homenagem a um importante jurista brasileiro. Em 1930, a inauguração do monumento à terra mineira. A partir desses referenciais, a cidade se desenvolveu: viva, pulsante e formadora de personalidades.)

Ainda sobre BH: com primeiros e segundos, entre parentêses, travessões e afins.

A minha primeira memória de Belo Horizonte: o cheiro de café torrado ao passar pela rua Jacuí, no bairro Renascença. A segunda, o tradicional passeio pelo Parque Municipal aos domingos (E a pirraça insistente para andar de barco – Eu quero! – mesmo assim não deu. E daí a primeira lição de vida: nem tudo pode se ter pelo grito). O que me admirava no centro da capital era o símbolo do BEMGE- o banco estatal que foi privatizado e não existe mais. Estava lá, estampado em um prédio de tantos andares. Vontade profissional primeira: ser motorista do transporte público, daqueles ônibus que atendiam os bairros (Eram máquinas fantásticas, com uma comunicação visual hipnotizante. Barulhentos, azuis ou vermelhos e com o jornalzinho pedindo gentileza urbana).

Bondosa.

Bondosa.

Não fui da época dos burburinhos políticos no Café Nice… Mas honrei as tradições belo-horizontinas: o Maletta foi ponto de encontro e divisor entre a adolescência e a vida adulta. Me perdi na primeira vez que saí sozinho, em um sábado, em direção ao bairro de Lourdes (para um aniversário). Liguei desesperado, de um tijolão 5120 da Telemig Celular, para me orientar (A cidade parecia estranha quando anoitecia). Nunca foi, coisa de primeira impressão – das ruas e avenidas tão largas e sua gente em passos rápidos para chegar em casa: ensinam que não se pode ter medo do cotidiano e da mudança. Não cresci na Serra, na Gameleira, em Venda Nova, em Santa Tereza, no Mangabeiras, no Caiçara ou no Barreiro. Mas vivi bons momentos em bairros que não deixam de ser tradicionais  e são tão familiares para mim (Ipiranga, Planalto, Tupi, Mirante do Tupi, Pampulha, União, Cidade Nova, Nova Floresta, Sagrada Família e outros tantos no eixo norte-nordeste). O primeiro emprego, na Universidade Católica… Eu sempre gostei da arquitetura do campus no bairro Coração Eucarístico. Me fazia sentir que estava em Ouro Preto. Não sei o motivo. (Aliás, tem muita sola do meu sapato pelo Coreu e pelo São Gabriel por causa dessas andanças que a gente empreende para conquistar os sonhos).

Sempre gostei dessa possibilidade da Serra do Curral abraçar 2 milhões de habitantes de uma vez só – sem distinção de nada, de graça, confortante. Acho um tanto surpreendente nossas construções, principalmente as praças. Estamos imersos em um mar de montanhas, que parecem não ter fim quando observadas do alto (E eu tive o gostinho de sobrevoar a cidade quase todos os dias por um tempo – mesmo que para reportar o caos). Minhas paixões maiores: o sotaque belohorizontês, bom de se ouvir; as histórias que aqui residem, verdadeiro patrimônio da humanidade.

Com primeiros e segundos, entre parênteses, travessões e afins.

[De Fernando Brant e Milton Nascimento: "A pulsação do mundo é o coração da gente".]

Laterais.

Laterais.

Outono que me ensina a fazer renda. Eu ensino a namorar.

[O tempo é meu lar.] E sempre será. A lágrima vem fácil. Passa pelo coração e ganha os olhos em segundos. Só o tempo deixou mais claro e pontuou o que significou aquela experiência de 15 dias em uma cidade totalmente desconhecida. A vida, ao vivo, sem cortes e sem edição. Poeira, terra seca, uma paisagem e cheiros inconfundíveis. Ao olhar pela janela do ônibus, a lua tinha outra nitidez. Nem sei a razão de ter embarcado naquele julho de 2007 (Coisas que deixo para um outro mundo explicar. Aqui, cabe sentir saudades.)

[Pra Nhá Terra] A criança chora e o mundo desperta (boi, boi, boi da cara preta: pega esta menina que tem medo de careta). O orvalho cai delicadamente das flores e revela toda sua explosão de vontade ao se encontrar com a areia. O cheiro do café, preparado no fogão à lenha. O quão bucólico é a serração pela manhã. O canto dos pássaros a procurar um rumo. Colocar os pés na água que vem do riachinho e, vez ou outra, conversar com amigos imaginários que estão ali a observar. A árvore, a pedra, a água, os sons puros, o ar renovador. [Abacateiro, sabes ao que estou me referindo?] Lá, na casinha sustentada apenas pela força do amor, a mulher fazendo renda. Calmamente.

[Eu choro de cara suja!] Embalado por Drummond, identifico poesia nas montanhas de Minas e vice-versa. Apesar de ser outono, este é um período de floração. Pouco importa: está tudo ao contrário. O anúncio de uma nova vida. [A roda que rola. Rosa e amarelo, misture pra ver o tom. Junte o vermelho, verde e o azul. E vá colorir!] Colorir um caminho de cores fortes e marcantes. Ao que realmente importa, viver sem amarras e sem medo de amar. [O que todo tamarindo tem.]

Papagaio de toda cor.

Papagaio de toda cor.

25 motivos.

Cenas que se repetiam: do trabalho para a praça do Papa. Era para chorar todas as mazelas de Belo Horizonte. Não foi uma, nem duas vezes. Várias. Chorar pelo descontrole que chegamos: pela senhora passando fome, pelo menino pedindo esmola, pela indiferença, pela prepotência dos políticos, pelo ego, pela violência, pela corrupção, pela falta de educação, pelo barulho, pelo trânsito caótico, pela imprensa vendida, pela fragilidade do ser humano, pelas causas dispensáveis, pela mesquinharia, pelo sentimento ruim que está aí, de uma maneira geral. Era quase um ritual, um grito de parcimônia ao universo e para alguma força maior. Minha fé é fraca e por isso tenho medo dos caminhos que insistimos em seguir: razão de lavar a alma sempre. Algumas coisas que passaram e ainda sinto – muita – falta: Da infância – em comunidade – que tive na capital. Da gentileza, de ter tempo para a convivência com a família, de não sentir preocupação de chegar tarde em casa. De conversar com o vizinhança, sem ter hora para acabar. De dormir até tarde no sábado e soltar papagaio aos domingos. Andar de bicicleta pelas ruas do bairro. Coisas simples que hoje se tornaram tão sofisticadas – pelo menos para mim; Da bagunça no ônibus com os amigos da escola. De acordar cedo pensando em encontrar aquela rotina que se resumia a estudar; De quando minhas pernas cabiam nos brinquedos do parque municipal. Do sorriso fácil das pessoas. De quando a vida parecia ser mais tranquila, sem grandes tecnologias e redes sociais.

São apenas saudades.

Achava que podia ser útil quando me formei na faculdade. Hoje, a conclusão um tanto dura: não cumpri nem 1/4 das promessas que fiz… O juramento do curso de jornalismo me atordoa e ainda, sim, me instiga. “Buscarei o aprimoramento das relações sociais e humanas, através da crítica e análise da sociedade, visando um futuro mais digno e mais justo para todos os cidadãos brasileiros”. Todo mundo deve ter algumas utopias como forças motivadoras.

Sobre Belo Horizonte: há muito o que se fazer aqui. Queria ter me dedicado mais às causas da cidade… não apenas reportar mantendo insensibilidade. Criar uma ONG, participar de debates, mobilizações… ou até mesmo fazer a cobrança de projetos por parte do poder público (afinal, sou das ciências sociais aplicadas!)… É, não deu, não foi exatamente como queria e como gostaria. Faltou energia, sobraram teorias e impostos a pagar. Literalmente empurrando com a barriga problemas urgentes, de todos. Uma reflexão: está tudo errado. É hora de recomeçar. Estando distante talvez fique mais fácil encontrar soluções para os problemas cotidianos. Assim vou, lutando pelo o que acredito.

Ah, Belo Horizonte: você é meu amor bandido. E vou sentir falta. Estou de mudança, mas com data marcada para voltar. Esta não é uma carta de desistência ou renúncia. É como se fosse um até breve para a cidade que me acolheu.

Até breve de última hora!

Belo Horizonte é a minha inspiração desde sempre. Seus avanços, suas tragédias, suas pessoas e seus espaços. Sejamos justos: a capital que me sufocou nos últimos anos… hoje me distribui cafunés! Sinônimo de um parto nada normal. E é estranho olhar para a Serra do Curral e não sentir estranheza. Só reconhecemos mesmo o que temos quando se faz necessária a mudança.
P&B

BH: apenas um retrato de instagram.

As roupas já estão dentro da mala. O carro revisado para pegar a estrada – talvez a minha verdadeira casa. Uma promessa: aqui, uma pausa estratégica para a travessia. Pretendo ver o mundo e realizar todos aqueles sonhos impensáveis. Um alerta! Caros amigos, isso não é deixar tudo! E, sim, esse é o meu espírito inquieto. É apenas uma chance para recomeçar, buscar o novo, conhecer novas pessoas. Sou meio beatnik – um lado adormecido que me cobrava e insistia em me perturbar.
Da Raja.

Bondosa.

Estou de mudança e sem data para voltar. Espero que vocês também. Quero colecionar boas e muitas histórias. Para contá-las na velhice e não ser um ranzinza aos 80 anos. Não sobrou tempo para uma despedida informal. Espero que seja um até breve e nada mais.

Viva 2014!

Minutos antes de começar a entrevista, a senhora centenária – moradora de São Roque de Minas – me fez uma pergunta com muita lucidez:

- Você desconfia qual é o segredo da vida, menino?

Não sabia a resposta. Sem querer ser pretensioso, logo pedi para ela responder.

- É a convivência com a simplicidade! A gente deve ser cúmplice dela! E 24 horas por dia. Até nos sonhos.

Pois bem, ainda ouso acrescentar que a vida se faz com boas doses de persistência. Falo aqui dos problemas cotidianos, daqueles que insistem em nos atropelar e deixar em segundo plano quem somos. Se é para fazer retrospectiva, vamos lá. 2013 foi um ano extremamente difícil. Um banho de água fria em todos aqueles planos e projetos que você faz no réveillon e quer colocar em prática o mais rápido possível. Sem ressentimentos… que bom que foi assim! Ouvimos um ditado desde cedo, do ato de “ser brasileiro e não desistir nunca”. Outro dia, assistindo uma entrevista de um filósofo na TV, fiquei embasbacado. Ele dizia de maneira acalorada:

- Para trás, nem para pegar impulso!

E é justamente o que apontou minha numerologia para o próximo ano. Agora é hora de findar a crise e colher apenas os bons frutos. Encerrar a introspecção e encarar o mundo. Talvez não estava fazendo isso da maneira correta… apesar de ter todas as oportunidades. O jornalismo, por exemplo. Eu concordo com uma coisa: é muito mais que profissão. É lição de vida. Hoje posso dizer: conheço minha cidade de cabo a rabo. Vou além: tive verdadeiras aulas com cada pessoa que conversei para as reportagens. Fiz pós-graduação gratuita, na escola da vida, sem medo de errar e com ânsia pelos acertos.

Finalizando: eu tenho preferência pelos números pares. E fé de que tudo vai dar certo. Para o novo, desejo que caminhem comigo a família, os amigos, o presente e também um pouco de descontrole. É para ficar mais emocionante.
Então, feliz 2014.