Adotei o Sul de Minas

Algumas observações. Desembarquei no Sul de Minas há 3 meses. Vim com a mudança toda – ou melhor, com o que coube no carro. Trouxe um só cobertor e levei como troco um frio de 3 graus! Primeiro descobri que o café no pé não tem aquele cheiro de café – típico de gente criada em cidade grande. Me chamaram de “quarta-feira” por causa disso (…) Ou seja, lerdo! Em Pouso Alegre, onde moro, o povo fala “capaz” a cada 10 palavras. É “capaz” pra tudo. Como se fosse o nosso “trem” e “uai” belorizontês. Alguns estranham quando solto um “véi” no meio ou no final da frase. Aprendi a gostar do sotaque sul mineiro – essa mistura de R levemente acentuado com palavras não-cantadas. Uma adaptação bem melhor do sotaque paulista do interior. Eles falam bem tranquilamente quando não estão nervosos. Tem um quê de charme nisso. Aliás, ô povo bonito! Fisicamente e de alma! Voltei a ter fé na humanidade. São as pessoas mais acolhedoras que já encontrei nessas andanças por Minas! Por falar em andar, outro dia esbarrei num senhor no corre-corre da área central daqui. Ele me disse que os pedestres também devem observar um modo de circular: “fica à direita se você quer descer…. e à esquerda se quer subir!” O talão do rotativo é chamado de faixa azul. Quando você ri, você deve falar “trinquei”. Vendem um tal de “cigarrete” nas lanchonetes. É um enrolado frito de presunto e queijo. Tem pastel de farinha de milho a cada esquina. Pra acompanhar, a galera toma um “Jota Efe”. Quando tá na balada e tá quase bêbado, tá no “grauzinho”. Não é BR 381, é Rodovia Fernão Dias! Tô perto de Monte Sião, Ouro Fino, Borda da Mata e Jacutinga – roupa de frio nesses lugares é vendida por uma pechincha! Têm muito chinês e japonês: pra todo lugar que você olha! Parte do Vale do Silício brasileiro fica próximo, numa cidade bem simpática, Santa Rita do Sapucaí. E Poços de Caldas? Ô cidade uai! Varginha, São Thomé das Letras, São Lourenço, Monte Verde: sem comentários! Se dobrar a esquina, tô em São José dos Campos e Campos do Jordão, ambos em SP. O litoral mais próximo é o de São Paulo… e o povo vai sempre pra Ubatuba. Os municípios não passam de 150 mil habitantes… e de vez em quando alguém reclama do trânsito – que se estende, no máximo, por alguns poucos quarteirões e apenas no horário em que acaba o turno das escolas. Isso que é qualidade de vida! Já adotei o Sul!

Julho.

Disse que me conheceu na fila do cinema. Omissão por omissão, eu falo que a vi na mesa da biblioteca da Faculdade de Direito. Tem os olhos de cama-leoa: ora verdes, ora azuis. Branquinha – daquelas que precisam se proteger com muito protetor solar – e de cabelo curto. Perguntou sobre meus hábitos. Queria a ficha completa. Daí para o primeiro encontro seria um pulo. A conversa fluiu. Estava descobrindo a vida. Não queria rodeios, queria exatidão. A menina praticava a arte da comparação… de tudo e de todos. Eu apenas gostava daquilo e da magia dos olhos ao falar sobre qualquer coisa. Não fizemos nenhum acordo. Mas fiz questão de deixar claro que nao gostaria de me envolver. Para mim, tempos turbulentos. Para ela, uma oportunidade de carinho. A garota seguiu a poesia: descobriu quem era e foi de propósito. Já eu, não. Caminhava a passos lentos… e ela, a passos largos! Passávamos horas e horas conversando pela internet. Isso acontecia quando não vinha me visitar. Me acostumei com seu cheiro e boca após às 10 da noite. Me mandava uma mensagem para me esperar no portão. Entrava rápido. E se alguém visse?

Era algum crime fazer amor? Cidade pequena tem dessas bobagens. Ela entrava na sala e tirava os saltos. Os colocava no tapete. Discretamente abria a porta do quarto e se deitava no colchão. Eu ainda na cozinha, oferecendo água, bebida ou algo para comer. Ela tinha segundas e terceiras intenções. Não precisava de esforço para nada. A primeira vez que nos permitimos… ah, ela quis me observar. Observar minha face. Me tocou. Me descobriu. Alguns pontos sobre isso são inconfessáveis. Vamos levar para sempre, como na noite em que escolheu a trilha sonora. O tempo com ela passava rápido.

Sempre pedia para dormir comigo depois que fazíamos amor. Ela não aceitava. A família ainda não permitia isso. Há um mês, já estávamos vivendo como namorados. E eu só esperava a noite chegar para recomeçar novamente.

Eu gostava de seus beijos. Ela me engolia. Me dava ternura. Me sufocava. Me completava. Me amava.

Para ser feliz.

Há sempre uma placa de rodovia indicando o caminho do retorno. Ainda mais quando se resolve ir por uns tempos sem cogitar a volta. São apelativas; parecem gritar: “não vai, fica!” Quem nunca colocou em dúvida se alguns caminhos pessoais são ou estão realmente corretos? E por isso, a sinalização incomoda… Pela janela do carro, o presente se torna passado e o futuro agora é o presente. É poesia de Quintana. “Quando se vê, já são seis horas. Quando se vê, já é sexta-feira.” As escolhas combinam com o tempo, esse inimigo ou parceiro número 1 de quem deseja alcançar algo que não se pode explicar ou nomear. Talvez seja felicidade. E algum significado para entender a própria existência. É vontade que sai do peito e quer vencer o medo de viver e desbravar o mundo. É uma possibilidade atraente.

A gente sonha com finais felizes. Como se nossa vida pudesse ser televisionada em uma série tipicamente americana. O clipe final seria composto com a música predileta, sorrisos e as imagens mais marcantes (o primeiro passo, a primeira vez na escola, a primeira sensação de liberdade, o primeiro diploma, o primeiro beijo, o primeiro suspiro, a primeira transa, a primeira vez que a perda se faz presente, a primeira filosofia, a primeira descoberta de que é preciso continuar). Tudo bem lapidado, frame a frame, com edição impecável. Portanto, nesse caminho, não há espaço para que as raízes sejam totalmente cortadas. Elas são responsáveis pela altura, cor das folhas (brilhantes e vibrantes), por saciar a fome das misérias e dores do mundo. Aqui, nessa terra, tenho as minhas fincadas feito pedras. Na medida para trabalhar a própria poda e compreender algumas inconstâncias.

É bom se entregar ao acaso vez ou outra. E sempre ir ao trabalho, para plantar e colher. É bom ser feliz.

A metade de 52.

Assim prefiro que sejam sempre pares. Quem é que não dá credibilidade – mesmo que em algumas situações – para a
numerologia? É mais fácil acreditar nela quando os tempos estão ou são difíceis! E se a matemática dos números aponta uma luz no fim do túnel, ah, tanto muito bom, é legítima. Qualquer palavra de apoio serve! 26 é a metade de 52… é a prova que se tem ainda uma vida pela frente. Não prometo nada para a nova idade e nem coloco grandes expectativas. Anseio pela paz e a serenidade! Ou quem sabe pelos dias no sítio vivendo minha essência, no meio do mato, de estar com tranquilidade; longe um pouco do barulho do mundo que me faz tão mal.

A verdade é que nunca fiz planejamentos. Me deixei guiar pela intuição… Hoje, um ser humano mais completo. Este é meu tempo de travessia, um retrato fiel de como serei aos 30… Fui criado para o imprevisível, pela mudança e para encontrar respostas frente aos problemas. Mas o coração de menino ainda bate forte e sem nenhuma burocracia para ser feliz. Ainda me lembro do último sonho da última noite. Ao caminhar com os amigos não demonstro preocupações. E nós subimos ruas com cheiro de terra molhada. Escalamos pedras e barrancos… Sem querer, ameaço cair! Até ser acolhido pelo irmão. É tudo muito consciente. Avisto a cachoeira, o quartzo e o mato. Fazemos uma oração.

Eu gosto dos 26, essa idade intermediária. Mas ela me assusta, como quando o garotinho corre para debaixo da cama com medo do barulho do helicóptero. É uma outra face, aquela de ser frágil. É neste ponto que um verbo incomoda: escolher. O que seguir, o que fazer, como proceder? Todos se resumem em uma escolha.

É como se fosse uma adolescência na idade adulta. E o fado me convida para dançar.

Agora não falta mais.

Agora não falta mais.

Sala de terapia: não se devolve amigo, não se exige amizade (sendo, portanto, não proibido lutar por ela).

Se torna um só – se houver interesse: não se pode namorar sem se transformar em um tanto do outro, quase uns 80%. (A equação do amor explica… e isso é perceptível em pequenas tarefas do cotidiano – quanto menos a pessoa se policia, ah, batata! (…) E aí já vai cantarolando em voz alta a música preferida do amado(a) ao sair do banho; uma pausa sincera e com muita reflexão – ao conhecer de forma tão íntima o outro… representa de forma involuntária os gestos, o modo de pensar e de amar daquele semelhante tão especial).

E é essa coisa da unidade que passa a ser irritante. Opostos, nesse caso, não se atraem. Alguns podem justificar. Mas quando os poréns são colocados na balança, é fácil notar que um está com o outro devido e exclusivamente a suas afinidades ( e elas são fatores decisivos para continuar ou não com as carícias e trocas!). Mais uma observação, de quando o beijo e o abraço são intensos: o mundo e suas dores são esquecidos. Que bom!

Um adendo: até os amigos são colocados para escanteio e sem nenhuma cerimônia. Aí vai uma lista. Aquela ligação que durava horas e horas não existe mais – a conversa longa é dedicada ao parceiro(a). Saudades do antigo fim de semana: sem a preocupação de informar onde está a todo momento. Da possibilidade de fazer uma viagem sem recomendações por parte dos namorados e namoradas… como se não soubesse cuidar, respeitar e observar o limite do próprio amigo(a). Amigos são para pontuar, tosar e fazer recomeçar. A luz no fim do túnel para velhos problemas.

Observe a proporção: quando 4 dos 5 melhores amigos estão namorando… é hora de acender o alerta. Não se deixa de amar a criatura que entrou em sua vida sem cobrar nada, esbanjando carinho e distribuindo compreensão! Aqui, o x da questão, que se traduz pela necessidade de respirar e não se sufocar! É preciso libertá-las do peso que você possa ser. Abra a porta, cuidadosamente… só não se esqueça de mantê-la aberta para quando sentirem saudades (Afinal, amigo é amigo, com ou sem namoradas. O tempo e o espaço são bastante relativos! E pronto e ponto).

Talvez seja hora de colocar sua melhor roupa, estampar um sorriso na face e ir para as ruas conviver. Seguir a dica da poesia. Tempo para reconhecer novos amigos: o ciclo não para.

E nada melhor do que consolidar quem você é. Duplamente melhor quando pode contar com uma pessoa ao seu lado, acima de terceiras e quartas intenções. Aos amigos, conhecidos e desconhecidos, da tríade passado-presente-futuro, um brinde.

A praça e seus andarilhos.

O Sr. Aparecido veio em minha direção falando portunhol – dessa vez, mais português que espanhol. Acanhado (porém com olhos firmes), destilando palavras sobre política e com um boné para proteger do sol escaldante… Ele também queria saber o quanto pesava um microfone. Ele é de uma cidade próxima ao Egito – mas ainda na Europa. Está em Belo Horizonte há 1 ano e fica impressionado com os extremos dos brasileiros.

- Vocês gostam de sorrir, isso é bom… O problema é que tem uma parcimônia danada com os corruptos. Como entender?

O andarilho ilustre observa que há algum tempo está difícil encontrar latinhas por BH (elas são a garantia de renda e sobrevivência do morador de rua). A concorrência está acirrada e é preciso ir até a Pampulha para coletar um grande volume.

- Não dá para comprar direito minhas biritas. Quem é que não quer fugir da realidade de vez em quando?

Sr. Aparecido mora na Praça da Estação, um dos pontos mais centrais da capital. Convive com um grupo de amigos; moradores de rua. O funcionário do Museu – que fica logo em frente) diz que a turma é do bem, antiga…

- Vêm e voltam… Cada dia aprendo uma palavra em espanhol com eles. E o Aparecido tem uma paciência de Jó pra isso. Deveria trabalhar como professor. É fera!

Essa é a Praça. ( Quem desembarcava do trem, no século 19, para apostar em uma nova vida, passava por um grande saguão. A praça da Estação se modificou e nem por isso deixou de encantar os moradores. O prédio – da antiga estação ferroviária – já teve outras caras. A fachada atual é de 1922. Um ano depois, a praça ganhava o nome de Rui Barbosa, uma homenagem a um importante jurista brasileiro. Em 1930, a inauguração do monumento à terra mineira. A partir desses referenciais, a cidade se desenvolveu: viva, pulsante e formadora de personalidades.)