Para ser feliz.

Há sempre uma placa de rodovia indicando o caminho do retorno. Ainda mais quando se resolve ir por uns tempos sem cogitar a volta. São apelativas; parecem gritar: “não vai, fica!” Quem nunca colocou em dúvida se alguns caminhos pessoais são ou estão realmente corretos? E por isso, a sinalização incomoda… Pela janela do carro, o presente se torna passado e o futuro agora é o presente. É poesia de Quintana. “Quando se vê, já são seis horas. Quando se vê, já é sexta-feira.” As escolhas combinam com o tempo, esse inimigo ou parceiro número 1 de quem deseja alcançar algo que não se pode explicar ou nomear. Talvez seja felicidade. E algum significado para entender a própria existência. É vontade que sai do peito e quer vencer o medo de viver e desbravar o mundo. É uma possibilidade atraente.

A gente sonha com finais felizes. Como se nossa vida pudesse ser televisionada em uma série tipicamente americana. O clipe final seria composto com a música predileta, sorrisos e as imagens mais marcantes (o primeiro passo, a primeira vez na escola, a primeira sensação de liberdade, o primeiro diploma, o primeiro beijo, o primeiro suspiro, a primeira transa, a primeira vez que a perda se faz presente, a primeira filosofia, a primeira descoberta de que é preciso continuar). Tudo bem lapidado, frame a frame, com edição impecável. Portanto, nesse caminho, não há espaço para que as raízes sejam totalmente cortadas. Elas são responsáveis pela altura, cor das folhas (brilhantes e vibrantes), por saciar a fome das misérias e dores do mundo. Aqui, nessa terra, tenho as minhas fincadas feito pedras. Na medida para trabalhar a própria poda e compreender algumas inconstâncias.

É bom se entregar ao acaso vez ou outra. E sempre ir ao trabalho, para plantar e colher. É bom ser feliz.

A metade de 52.

Assim prefiro que sejam sempre pares. Quem é que não dá credibilidade – mesmo que em algumas situações – para a
numerologia? É mais fácil acreditar nela quando os tempos estão ou são difíceis! E se a matemática dos números aponta uma luz no fim do túnel, ah, tanto muito bom, é legítima. Qualquer palavra de apoio serve! 26 é a metade de 52… é a prova que se tem ainda uma vida pela frente. Não prometo nada para a nova idade e nem coloco grandes expectativas. Anseio pela paz e a serenidade! Ou quem sabe pelos dias no sítio vivendo minha essência, no meio do mato, de estar com tranquilidade; longe um pouco do barulho do mundo que me faz tão mal.

A verdade é que nunca fiz planejamentos. Me deixei guiar pela intuição… Hoje, um ser humano mais completo. Este é meu tempo de travessia, um retrato fiel de como serei aos 30… Fui criado para o imprevisível, pela mudança e para encontrar respostas frente aos problemas. Mas o coração de menino ainda bate forte e sem nenhuma burocracia para ser feliz. Ainda me lembro do último sonho da última noite. Ao caminhar com os amigos não demonstro preocupações. E nós subimos ruas com cheiro de terra molhada. Escalamos pedras e barrancos… Sem querer, ameaço cair! Até ser acolhido pelo irmão. É tudo muito consciente. Avisto a cachoeira, o quartzo e o mato. Fazemos uma oração.

Eu gosto dos 26, essa idade intermediária. Mas ela me assusta, como quando o garotinho corre para debaixo da cama com medo do barulho do helicóptero. É uma outra face, aquela de ser frágil. É neste ponto que um verbo incomoda: escolher. O que seguir, o que fazer, como proceder? Todos se resumem em uma escolha.

É como se fosse uma adolescência na idade adulta. E o fado me convida para dançar.

Agora não falta mais.

Agora não falta mais.

Sala de terapia: não se devolve amigo, não se exige amizade (sendo, portanto, não proibido lutar por ela).

Se torna um só – se houver interesse: não se pode namorar sem se transformar em um tanto do outro, quase uns 80%. (A equação do amor explica… e isso é perceptível em pequenas tarefas do cotidiano – quanto menos a pessoa se policia, ah, batata! (…) E aí já vai cantarolando em voz alta a música preferida do amado(a) ao sair do banho; uma pausa sincera e com muita reflexão – ao conhecer de forma tão íntima o outro… representa de forma involuntária os gestos, o modo de pensar e de amar daquele semelhante tão especial).

E é essa coisa da unidade que passa a ser irritante. Opostos, nesse caso, não se atraem. Alguns podem justificar. Mas quando os poréns são colocados na balança, é fácil notar que um está com o outro devido e exclusivamente a suas afinidades ( e elas são fatores decisivos para continuar ou não com as carícias e trocas!). Mais uma observação, de quando o beijo e o abraço são intensos: o mundo e suas dores são esquecidos. Que bom!

Um adendo: até os amigos são colocados para escanteio e sem nenhuma cerimônia. Aí vai uma lista. Aquela ligação que durava horas e horas não existe mais – a conversa longa é dedicada ao parceiro(a). Saudades do antigo fim de semana: sem a preocupação de informar onde está a todo momento. Da possibilidade de fazer uma viagem sem recomendações por parte dos namorados e namoradas… como se não soubesse cuidar, respeitar e observar o limite do próprio amigo(a). Amigos são para pontuar, tosar e fazer recomeçar. A luz no fim do túnel para velhos problemas.

Observe a proporção: quando 4 dos 5 melhores amigos estão namorando… é hora de acender o alerta. Não se deixa de amar a criatura que entrou em sua vida sem cobrar nada, esbanjando carinho e distribuindo compreensão! Aqui, o x da questão, que se traduz pela necessidade de respirar e não se sufocar! É preciso libertá-las do peso que você possa ser. Abra a porta, cuidadosamente… só não se esqueça de mantê-la aberta para quando sentirem saudades (Afinal, amigo é amigo, com ou sem namoradas. O tempo e o espaço são bastante relativos! E pronto e ponto).

Talvez seja hora de colocar sua melhor roupa, estampar um sorriso na face e ir para as ruas conviver. Seguir a dica da poesia. Tempo para reconhecer novos amigos: o ciclo não para.

E nada melhor do que consolidar quem você é. Duplamente melhor quando pode contar com uma pessoa ao seu lado, acima de terceiras e quartas intenções. Aos amigos, conhecidos e desconhecidos, da tríade passado-presente-futuro, um brinde.

A praça e seus andarilhos.

O Sr. Aparecido veio em minha direção falando portunhol – dessa vez, mais português que espanhol. Acanhado (porém com olhos firmes), destilando palavras sobre política e com um boné para proteger do sol escaldante… Ele também queria saber o quanto pesava um microfone. Ele é de uma cidade próxima ao Egito – mas ainda na Europa. Está em Belo Horizonte há 1 ano e fica impressionado com os extremos dos brasileiros.

- Vocês gostam de sorrir, isso é bom… O problema é que tem uma parcimônia danada com os corruptos. Como entender?

O andarilho ilustre observa que há algum tempo está difícil encontrar latinhas por BH (elas são a garantia de renda e sobrevivência do morador de rua). A concorrência está acirrada e é preciso ir até a Pampulha para coletar um grande volume.

- Não dá para comprar direito minhas biritas. Quem é que não quer fugir da realidade de vez em quando?

Sr. Aparecido mora na Praça da Estação, um dos pontos mais centrais da capital. Convive com um grupo de amigos; moradores de rua. O funcionário do Museu – que fica logo em frente) diz que a turma é do bem, antiga…

- Vêm e voltam… Cada dia aprendo uma palavra em espanhol com eles. E o Aparecido tem uma paciência de Jó pra isso. Deveria trabalhar como professor. É fera!

Essa é a Praça. ( Quem desembarcava do trem, no século 19, para apostar em uma nova vida, passava por um grande saguão. A praça da Estação se modificou e nem por isso deixou de encantar os moradores. O prédio – da antiga estação ferroviária – já teve outras caras. A fachada atual é de 1922. Um ano depois, a praça ganhava o nome de Rui Barbosa, uma homenagem a um importante jurista brasileiro. Em 1930, a inauguração do monumento à terra mineira. A partir desses referenciais, a cidade se desenvolveu: viva, pulsante e formadora de personalidades.)

Ainda sobre BH: com primeiros e segundos, entre parentêses, travessões e afins.

A minha primeira memória de Belo Horizonte: o cheiro de café torrado ao passar pela rua Jacuí, no bairro Renascença. A segunda, o tradicional passeio pelo Parque Municipal aos domingos (E a pirraça insistente para andar de barco – Eu quero! – mesmo assim não deu. E daí a primeira lição de vida: nem tudo pode se ter pelo grito). O que me admirava no centro da capital era o símbolo do BEMGE- o banco estatal que foi privatizado e não existe mais. Estava lá, estampado em um prédio de tantos andares. Vontade profissional primeira: ser motorista do transporte público, daqueles ônibus que atendiam os bairros (Eram máquinas fantásticas, com uma comunicação visual hipnotizante. Barulhentos, azuis ou vermelhos e com o jornalzinho pedindo gentileza urbana).

Bondosa.

Bondosa.

Não fui da época dos burburinhos políticos no Café Nice… Mas honrei as tradições belo-horizontinas: o Maletta foi ponto de encontro e divisor entre a adolescência e a vida adulta. Me perdi na primeira vez que saí sozinho, em um sábado, em direção ao bairro de Lourdes (para um aniversário). Liguei desesperado, de um tijolão 5120 da Telemig Celular, para me orientar (A cidade parecia estranha quando anoitecia). Nunca foi, coisa de primeira impressão – das ruas e avenidas tão largas e sua gente em passos rápidos para chegar em casa: ensinam que não se pode ter medo do cotidiano e da mudança. Não cresci na Serra, na Gameleira, em Venda Nova, em Santa Tereza, no Mangabeiras, no Caiçara ou no Barreiro. Mas vivi bons momentos em bairros que não deixam de ser tradicionais  e são tão familiares para mim (Ipiranga, Planalto, Tupi, Mirante do Tupi, Pampulha, União, Cidade Nova, Nova Floresta, Sagrada Família e outros tantos no eixo norte-nordeste). O primeiro emprego, na Universidade Católica… Eu sempre gostei da arquitetura do campus no bairro Coração Eucarístico. Me fazia sentir que estava em Ouro Preto. Não sei o motivo. (Aliás, tem muita sola do meu sapato pelo Coreu e pelo São Gabriel por causa dessas andanças que a gente empreende para conquistar os sonhos).

Sempre gostei dessa possibilidade da Serra do Curral abraçar 2 milhões de habitantes de uma vez só – sem distinção de nada, de graça, confortante. Acho um tanto surpreendente nossas construções, principalmente as praças. Estamos imersos em um mar de montanhas, que parecem não ter fim quando observadas do alto (E eu tive o gostinho de sobrevoar a cidade quase todos os dias por um tempo – mesmo que para reportar o caos). Minhas paixões maiores: o sotaque belohorizontês, bom de se ouvir; as histórias que aqui residem, verdadeiro patrimônio da humanidade.

Com primeiros e segundos, entre parênteses, travessões e afins.

[De Fernando Brant e Milton Nascimento: "A pulsação do mundo é o coração da gente".]

Laterais.

Laterais.

Outono que me ensina a fazer renda. Eu ensino a namorar.

[O tempo é meu lar.] E sempre será. A lágrima vem fácil. Passa pelo coração e ganha os olhos em segundos. Só o tempo deixou mais claro e pontuou o que significou aquela experiência de 15 dias em uma cidade totalmente desconhecida. A vida, ao vivo, sem cortes e sem edição. Poeira, terra seca, uma paisagem e cheiros inconfundíveis. Ao olhar pela janela do ônibus, a lua tinha outra nitidez. Nem sei a razão de ter embarcado naquele julho de 2007 (Coisas que deixo para um outro mundo explicar. Aqui, cabe sentir saudades.)

[Pra Nhá Terra] A criança chora e o mundo desperta (boi, boi, boi da cara preta: pega esta menina que tem medo de careta). O orvalho cai delicadamente das flores e revela toda sua explosão de vontade ao se encontrar com a areia. O cheiro do café, preparado no fogão à lenha. O quão bucólico é a serração pela manhã. O canto dos pássaros a procurar um rumo. Colocar os pés na água que vem do riachinho e, vez ou outra, conversar com amigos imaginários que estão ali a observar. A árvore, a pedra, a água, os sons puros, o ar renovador. [Abacateiro, sabes ao que estou me referindo?] Lá, na casinha sustentada apenas pela força do amor, a mulher fazendo renda. Calmamente.

[Eu choro de cara suja!] Embalado por Drummond, identifico poesia nas montanhas de Minas e vice-versa. Apesar de ser outono, este é um período de floração. Pouco importa: está tudo ao contrário. O anúncio de uma nova vida. [A roda que rola. Rosa e amarelo, misture pra ver o tom. Junte o vermelho, verde e o azul. E vá colorir!] Colorir um caminho de cores fortes e marcantes. Ao que realmente importa, viver sem amarras e sem medo de amar. [O que todo tamarindo tem.]

Papagaio de toda cor.

Papagaio de toda cor.